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Biografia

Eu ainda sou desconhecido, ignorado e inútil, por isso sou incapaz de soltar as amarras, tirar os sapatos e dançar na grama.
Mas eu sou um sujeito de sorte. Um dia qualquer, serei atingido por uma bala perdida e minha cabeça irá estourar jogando miolos podres ao vento.

Viking.



Se no mundo real fosse possível existir uma Princesa, vivendo em uma Torre.
Fortaleza inatingível.
Em meio à terras geladas.
Com seus guardiões.
Sua família.
Eu seria um Viking.
Avançando em meio ao campo congelado.
De machado em punho.
Entoando canções de batalha.
Investindo para conquistar.
Enfrentando tudo o que houvesse em meu caminho.
Derrotando cada desafio.
E assim, chegando aos portões da Torre.
Eu romperia o lacre que me impede de alcançar a princesa.
Subiria as escadas.
E seguraria seus dedos gelados.
Envolveria seu corpo com meus braços.
Revelaria minha paixão.

O futuro, entretanto, mostra-se diferente.
Inesperado.
Meu temor, é ser derrotado antes de chegar a Torre.
Eu cairia de joelhos.
Sob o peso do frio.
Com flechas cravadas em meu peito.
Perfurando minha alma.
Por eu ser fraco.
Covarde.
Idiota e imprudente.
E então, quando eu morrer em campo de batalha, não serei resgatado por Valkirias.
A bela dama guerreira não mostrará o perdão de seu sorriso.
Não serei guiado ao Valhala.
Lá não há lugar para mim.
Guerreiro tombado em vergonha.

No fim, somente poderei sentar e lamentar.

Lutar e conquistar ou Morrer em campo de batalha.
Como um Viking.

Vermute Baby

(publicado na integra no link: http://www.onerdescritor.com.br/2010/06/vermute-baby/)

I

O bar.
Do lado de fora, o néon brilha.
Dentro, a mulher espera.
No balcão.
Põe o cigarro na boca.
Acende.
Fuma sorrindo.
Solta uma arfada de ar.
A fumaça é expelida.
Desvanece.
Outras pessoas bebem no bar.
Ela olha.
Para.
Pensa.
Está se arrastando entre bêbados.
Como um corpo amorfo.
Vira-se para o barman.
Faz um gesto com os dedos.
Pede.

Mulher - Um Vermute.
Barman - Certeza?

Ela se inclina para frente.
Repete.

Mulher - Vermute.
Barman - Ok.

Ele destampa a garrafa.
Pega o copo.
Despeja a bebida.
Põe no balcão.
A mulher olha o copo.
Segura.
Ergue.
Leva a boca.
Bebe de um gole só.
Desce pela garganta.
Queima.
Arde.
É um gosto acido.
Forte.
Penetrante.
Ela faz careta.
Engasga-se.
Tosse.
O barman dá um sorrisinho.
É de desdém.
Um sorriso estilo "eu sabia".
Ou "mulher não agüenta beber".
Ela não gosta.
Bate o copo na mesa.
Com um sorriso de canto de boca, pede.

Mulher - Mais.

O barman balança a cabeça.
Sorri em contragolpe.
Torna a encher o copo da mulher.
Ela torna a beber de um único gole.
Na segunda vez não queima tanto.
Esforça-se para não fazer careta.
Não engasga.
Torna a pedir.
Ele torna a encher.
Ela dá outra tragada no cigarro.
Longa.
Olha em volta.
O chão é de madeira.
As paredes são vermelhas.
Cartazes de filmes antigos decoram o ambiente.
Desbotados.
Pessoas bebem em mesas ao fundo.
Outras tentam dançar ao som da Jukebox.
Rock.
Anos 80.
Tosco.
As pessoas dançando, são toscas.
Solta um longo suspiro.
Observa a fumaça que sai da própria boca.
Do fumo.
Doses e mais doses de vermute.
A mulher sente-se cansada.
Prisioneira.
Lamenta.
Uma completa ausência de atitude.
Está ali, no bar.
Bebendo vermute.
Bebida ruim.
Pensando.
Na vida.
Na sua merda de vida.
Também.
No merda do chefe.
Babaca.
Não agüentava mais analisar papéis.
Aqueles papéis malditos.
Da Agência.
O Chefe sabia.
O Puto sabia.
Depois de dezenove horas de trabalho.
Ininterruptas.
A boca.
Começa a salivar.
A cabeça deixa de funcionar.
Passa a funcionar no automático.
Trabalhando sem pensar.
Dezenove horas ininterruptas.
E o babaca saiu de sua sala.
Precisa dela "por mais duas horas", pois "o cliente cobra o relatório".
Vinte e uma horas.
Sem parar.
Foda-se o cliente.
E o relatório.
E o emprego.
A merda do emprego.
Justa causa "sua lunática".
Foi o que ele disse.
Ela respondeu.
Pegou-lhe o teclado e abriu-lhe o nariz.
O puto sangra.
O emprego dança.

Crônicas ao Perdedor (1): A Teoria do Efeito Pé

E surge a Teoria do Efeito Pé.

Sobre relacionamentos.
Exclusiva para homens a partir dos 20 anos.
Abrange, principalmente, os perdedores.

Em geral, não é difícil conquistar uma mulher.
Isso é fato.
Mesmo um perdedor consegue.
Basta tentar.
Entretanto, quando chega-se a uma certa idade crítica, outro conceito torna-se importante.
Mais imprescindível do que tentar, são as chamadas "características fundamentais".
Capazes de interferir em um relacionamento e definir seus rumos.
Quando um perdedor não possui atributos físicos,sociais, financeiros e um carro, corre-se o risco de mergulhar o relacionamento em uma espiral descendente.
No movimento de descer até o chão, a espiral finalmente inicia o Efeito Pé.
Consiste, basicamente, do ato do perdedor levar um PÉnabunda da companheira e terminar sozinho, chorando na sarjeta.

Também, existe uma variante do Efeito Pé, comunmente conhecida como O Ser Invisível.
Consiste em, durante um relacionamento estável, o perdedor torna-se inexistente para a parceira/companheira.

Entra-se em uma rede social e vê se o perfil da mulher.
Lá irá estar o perdedor e a parceirta em questão, em uma bela foto.
Ambos lindinhos, fofinhos, bonitinhos e bacaninhas.
Tocante.
Entretanto, em uma segunda oportunidade, repete-se o processo.
Entra-se na rede social e vê se o perfil da mulher.
Lá irá estar ela, seu foco de amor, lindinha, fofinha, bonitinha e bacaninha.
Estará beijando outro cara, também lindinho, fofinho, bonitinho e bacaninha.
Obviamente, esse cara não será o perdedor.
Será o sujeito vencedor.
Provavelmente escutar-se-a uma frase do tipo:
"Poxa! Ela me pénabundeou e eu nem sabia!"
Isso acontece, pois o perdedor possui alto grau de invisibilidade social, acarretando no total esquecimento pela parceira/companheira.
Ela simplesmente esqueceu de dar o fora no rapaz antes de achar alguém melhor.
É o Efeito pé, com o agravante da inexistência.