EPISÓDIO CINCO - OS DETALHES DO ROBÔ







I

O fundo de uma piscina.
Uma figura feminina, ágil, nada como uma faca através da água.
Faz voltas e mais voltas.
A nadadora é a única na piscina do clube.
Mas ainda se movimenta como se estivesse competindo para vencer.
Suas braçadas ecoam pelas arquibancadas vazias. 
Quando chega ao final da piscina, vê uma figura turva através da água.
A nadadora para.
Respira.
Tira a touca e os óculos de natação.
Afasta da testa seus cabelos negros e longos, escorridos pela água. 
A mulher tem tamanho mediano.
Um rosto com traços latinos.
Parece dez anos mais jovem do que realmente é.
Duas centenas de voltas na piscina, todos os dias, a deixam em forma. 
Observando, na beira da piscina, uma jovem muito menos encorpada.
Ainda adolescente, veste uma jaqueta preta e calças jeans surrada.
Tem um olhar que a faz parecer desconfortável.

— Sabia que a encontraria aqui.
— Nadar pode ajudar a sua insônia.
— Perdão?
          
A mulher sai da água como uma felina.
O maiô vermelho é tão justo que define o corpo em proporções romanescas.
Pega uma toalha de um banco próximo.
Gesticula com o braço direito enquanto enxuga-se com o esquerdo.

— Suas olheiras denunciam o pouco que dormiu.

A jovem, Maria Clara, sorri em resposta.
Ela estava definitivamente correta.
Nem sequer dormiu na última noite.
E acredita ter excelentes motivos para isso.

— É... Tenho dormido muito pouco.
— Pouco ou nada?     
— Nada.
— Insônia crônica? Posso lhe conseguir remedinhos milagrosos para dormir.
— Eu imagino. Mas não, muito obrigada. Meu problema de sono não é crônico.
— Circunstanciais?
— Isso.
— Achei que Rebeca viria ter essa conversa. Não você.
— Não será uma conversa longa. E a outra menina está um pouco... ocupada.
— Ocupada nada. Só não quis vir e me mandou te encontrar aqui.
— Muito perspicaz!

A mulher dirige-se para o vestiário.
Maria a chama com um pigarro.

— Eu trouxe o que pediu. 

Ela se volta.
Maria detém uma única foto em sua mão direita.
A latina, curiosa, faz o seu caminho de volta até ela.
Toma a foto da mão da menina.
Vê.
E, é seguro dizer, sente a terra ceder sob seus pés.
Ela olha para cima, os olhos arregalados, e murmura uma única palavra.

— Finalmente!


II

O dia começa difícil.
O alarme irritante toca às 6:30 da manhã.

— Não.

Max murmura.
Está naquele estado em que não se consegue levantar da cama cedo.
Na verdade, é muito mais do que preguiça.
Ele sente tudo de uma vez.
O cansaço da viagem.
A diferença entre as cidades.
A vergonha do acidente de duas noites atrás.
E, principalmente, o nervosismo de ir à aula.

— Acordar!
— Já estou acordando, robô.
— Max preguiçoso.
— Não enche!

Arremessa o travesseiro na cabeça do robô.
Max olha para ele.
A máquina tem aquele sorriso frio, no rosto.
Mas dá a impressão de olhar para seu criador com ternura.

— Não se preocupe, eu vou me levantar.

Ele sorri.
Força-se a levantar.
Rola na cama.
Tira o cobertor.
Inspira profundamente para ganhar coragem.
Seu quarto ainda está com as malas que ele não teve forças para desfazer.
Caminha até elas.
Procura entre suas roupas bagunçadas seu uniforme.
Olha pela janela.
Vê que ainda não chove, mas irá.
O robô fica na janela, observando o movimento do mundo.
Max pega seu outro casaco de inverno.
Uma jaqueta militar verde musgo com quatro bolsos.
Vai servir para substituir o agasalho que manchou e está para lavar.
Corre para o banho.
Preocupa-se com o horário.
Suas aulas começam às 8 da manhã.
Toma um banho quente.
Lava os cabelos.
Deixa a água correr pelos finos fios pretos.
Fica mais que o necessário de baixo do chuveiro.
Sua mãe diz que o banho lava o corpo e a alma.
Quem sabe, de alma lavada, seja mais fácil encarar o dia.
Após o banho, seca-se e veste o uniforme do colégio.
Escova os dentes apressadamente.
Olha-se no espelho.
Tem olheiras debaixo dos olhos.
Pensa ser devido ao cansaço dos últimos dias.
Já pronto, sai do banheiro.
O robô o acompanha, quase como uma sombra.
Seu tio está sentado à mesa, vendo a tv.
Realidade diluída numa tela plana.
No telejornal, a imagem de uma mulher aparece anunciando as notícias da manhã.
“A Orbital Tech anuncia o envio da primeira missão tripulada a Marte”.
 “A estilista Margot Strauss produz a festa mais badalada na União Europeia”.
“Será o lançamento da coleção Prêt-à-porter dos uniformes bélicos alemães”.

— Bom dia Max.

Walter fala, desanimado.
“As principais notícias sobre o país são preocupantes”.

— Bom dia, tio.
— Preparado para mais um dia de aula?

Pergunta o tio.
 “Hoje completa dois anos do acidente nuclear em Angra...”.

— Acho que sim.

Max fala.
Suspira profundamente.
Walter não desgruda os olhos da tela.
“Em Brasília, a Presidente fala da vitória sobre A Crise Mundial”.
“Em São Paulo, os sindicatos trabalhistas incitam greve geral no país”.
“Estão pedindo o fim das integrações maciças de robôs nas indústrias”.
Max olha para o relógio.
Já são 7 em ponto.
Pega a mochila.

— Eu... acho que já vou indo.
— Eu te levo.
— Não precisa.
— É caminho para o meu trabalho.
— Certeza?
— Não me custa te levar.
— Obrigado.

O tio desliga a tv.
Levanta da cadeira.
Pega as chaves.
O garoto dirige-se a porta.
Walter fala, como se lembrasse de algo.

— O robô vai com você.
— O que?

Max não acredita no que ouve.

— É isso mesmo Max. O robô vai com você.
— Comigo? Para o colégio?
— Sim.
— Mas... eu não posso!
— Pode. E vai. O que não pode é deixar ele aqui, sozinho.

A máquina observa tio e sobrinho falarem.

— Mas ele ficou sozinho ontem.
— Ontem ele estava desligado. Hoje não está.
— É brincadeira sua?
— Não Max. Não é brincadeira.

Tio Walter encara o sobrinho de forma severa.
O garoto abaixa a cabeça.
Sabe que mora de favor com o tio.
Não sabe como sair dessa situação.

— Max... Não posso deixar essa... Coisa, livre na minha casa.
— Mas...
— Alguém tem de tomar conta.
— Não posso tomar conta. Vou para o colégio. Passo o dia, lá.
— E eu passo o dia trabalhando.
— Se eu levar o robô, vai ser mais um motivo para...
— Para...?
— Esquece... eu só não posso levar ele, ok?
— Não está ok, Max. Você e esse seu brinquedo destruíram um carro.
— Ele não é um brinquedo. E foi um acidente.
— Acidente ou não, terei de pagar um carro novo ao vizinho e nem sei como vou pagar.
— Me desculpe, ok! Desculpe!

O garoto leva as mãos à cabeça.
Walter repousa as mãos na cintura.
Seu rosto agora é puro estresse.

— Palavras não resolvem nada. Se quiser se desculpar, leve esse robô e evite problemas.

Max bufa.
Em alto e bom som.
O robô encolhe-se num canto da sala.
Ele sabe que a discussão é por sua causa.
Se o robô pudesse sentir, estaria culpado.

— Está bem. Está bem. Vou levar o robô comigo.
— Bom. Vai ser melhor assim.

Melhor para quem?
Max quer muito dizer isso.
Entretanto, não irá falar.
Tem plena consciência de que mora de favor com o tio.
Abusar da hospitalidade é fora das possibilidades.
Sentindo-se mais cansado do que quando acordou, Max puxa o robô pelo braço.
Saem com o tio.
Antes de irem para o colégio e o trabalho, Walter e o sobrinho param no Café Costa Rica.
Max decide se vingar do tio com o café da manhã.
Palomita os atende com um sorriso alegre.
Toma um expresso, com creme, do mais caro.
Acompanhado com um sanduíche.
Recheado com peito de peru fatiado.
Bacon.
Muito queijo derretido.
Salada de alface e tomate.
Come tudo com a maior paciência do mundo.
Enerva o tio pelo atraso que provoca no horário de ambos.
É a forma infantil de Max lidar com a imposição do tio.
Ao menos, o robô fica quietinho ao lado deles.
Chama um pouco de atenção.
Mas, graças ao fraco movimento da manhã, não é problema.
Após o café da manhã, finalmente Walter deixa o garoto no colégio e parte ao trabalho.
O tempo começa a esfriar.
A chuva cai aos poucos.
Max veste seu casaco, já sentindo frio.
O robô admira-se com a água que cai no seu corpo.
Basta andar mais um pouco para avistar o prédio de dois andares.
Ao redor, já há grupinhos barulhentos de adolescentes conversando.
Encostados nos carros estacionados, tirando o atraso do bate papo.
Os descolados se amontoam uns em torno dos outros.
E parecem tão elegantes e estúpidos.
Que é quase impossível para um leigo distinguir um do outro.
O garoto e seu robô atravessam os portões de ferro do Garcia Mendez.
Quando passam por eles, sente todos os olhares voltando-se para si.
As conversas vão aumentando.
Os risos também.
E tudo começa outra vez, pensa Max.
Ele é o intruso.
O esquisitão.
E pior.
Ele está com o robô, agora.
O robô do vídeo a tira colo.
Max tem vontade de por a cabeça num saco de papel.
Atrairia menos olhares curiosos.
O homem-máquina, por outro lado, nem se importa.
Olha para todos os lados, registrando cada detalhe.
Tenta imitar gestos e trejeitos das pessoas ao seu redor.
Não têm um grupinho que não torce o pescoço para olhar Max e seu robô.
O garoto pega seu celular.
Liga e coloca os fones de ouvido.
Ótima tática para ignorar os olhares.
Toca uma música do The Cure.
Aumenta o volume.
Boys Don’t Cry.
O sino toca.
Ele caminha distraidamente até a sua sala.
Tira o casaco.
E leva sua mão à maçaneta da porta.
A música continua a tocar no seu celular.

And now there's nothing I can do.

Abre a porta.

So I try to laugh about it.

Entra na sala, sem olhar o que faz.
O robô vai atrás.

To get you back by my side.

Ângela aparece.
Espreme-se num abraço entre Max e sua máquina.

— Oi!
— Oi... Ângela.

O garoto está desconfortável com o gesto.

— Deveria andar sem os fones.

A garota fala enquanto puxa o fone de um dos ouvidos de Max.
Um gesto, ao mesmo tempo, íntimo e mandão.
O garoto não sabe bem como se reage a isso.

— Pois?
— Com os fones fica difícil falar com você.
— E quem iria querer falar comigo?
— Eu.
— Ah.... Sim... Er...

Ângela dá um sorriso largo.
Sabe bem que Max ficou sem jeito.
Pensa que garotos tímidos são os mais fofos.
E o fofo Max está vermelhíssimo.
A garota pergunta ironicamente para ele.

— Então... esse é o seu robô?

Max recobra-se como dá.
Responde, esforçando-se para não gaguejar.

— É... É ele.
— Legal. Mas ele é meio...
— Meio?

A frase incompleta da garota o deixa curioso.
Ângela, por sua vez, desgruda-se de ambos.
Analisa dos pés à cabeça a máquina a sua frente.

— .... Caidinho.
— Caidinho?
— É... Está meio quebrado.
— Pois é. Ele caiu do quinto andar, sabe.
— Eu sei. Mas ele não estava tão quebrado quando caiu.
— Como é que sabe disso?
— Eu filmei tudo, lembra?

Infelizmente, Max lembra.
Ele é lembrado disso a cada minuto que está no colégio.

— É... Muito obrigado por isso.
— Você quebrou o carro do meu pai. Estamos quites.

Max questiona-se mentalmente se é mesmo sobre estarem quites.
Para ele, mais parece uma questão de arruinar a vida social de alguém.
O alguém nesse caso, evidentemente, é o próprio Max.

— Então robô, como ficou assim... Quebrado?
— Carro. Quebrou.
— Quando caiu no carro?
— Não. Rua. Atropelado.
— Ei, ei! Você está perguntando para ele e não para mim?
— Você não me respondeu quando eu perguntei.

Ângela fala com jeito debochado.
Max não gosta.
Mas acha lindo.
Apenas por um pequeno segundo.
Acha muito lindo.
O robô olha para Max.
De volta para Ângela.

— Você deixou seu robô ser atropelado?
— Foi um acidente.
— Você e seus acidentes...

A garota vai examinando os detalhes do robô.
Desliza os dedinhos pela lataria dele.
Demora um tempo maior vendo as placas de silício, fissuradas.
Os leds do robô apenas acompanham os movimentos de Ângela.

— O que pretende fazer com ele?
— Como assim?
— Ele precisa de um conserto, não acha?
— Mas eu tentei consertar ontem à noite.
— Não parece...

Só agora Max percebe o quanto às pessoas ao redor cochicham.
Estão todas comentando do robô.
Ninguém tem coragem de chegar perto da máquina.
Ou de Max.

— Fiz o melhor que podia.

Responde num tom de voz relutante.
A garota compreende o receio na voz de Max.
Ele está preocupado com as fotos que seus colegas estão tirando.
Tenta dar uma animada no garoto.

— Eu acredito Max.

Dá um meio abraço nele.
Max dá um sorriso rápido.
Não retribui o abraço.
Ele não é bom com isso.
Manifestações públicas de afeto.
Só serve para causar mais fofoquinhas.
O momento é interrompido por um esbarrão.
A força do impacto faz Max e Ângela, por consequência, desequilibrarem-se.

— Toma cuidado, mané.

É Mario Benedetti que entra na sala.
Esbarra em ambos de propósito.
Max consegue ver o olhar blasé vindo do rapaz.
Aqueles olhos parecem querer provocá-lo.
Ângela se afasta de Max.
Fica instantaneamente tímida e irritada.
Pega sua mochila e senta-se no seu lugar, dentro da sala.
Ela deixa Max e seu robô, a deriva.
Em seguida, uma professora que o garoto ainda não conhece entra na sala.
A professora, Sra. Clarice, não parece à pessoa mais satisfeita do mundo.
Max, num pulo, senta-se na primeira cadeira que encontra.
Por sorte é bem ao lado de Ângela.
A professora, chamada Clarice, fica indignada com a presença do robô, na sala.
Comenta a irresponsabilidade de Max ao trazê-lo para uma sala de aula.
Ela não é professora para aluno nenhum aborrecer.
Pelas regras do colégio, as máquinas devêm permanecer guardadas na oficina.
Como não existem regras específicas para robôs autônomos, não há escolha.
Max escolta o Robô do jeito mais perdido possível, direto para a tal oficina.
O homem-máquina é deixado sozinho agitado entre seus semelhantes inertes.
Já a Profa. Clarice, nem espera Max resolver o probleminha e voltar para a sala.
Na semana anterior ela aplicou uma prova na turma 101.
O resultado não é o esperado de alunos tão seletos.
A bronca que segue a partir das notas, também não.

— Olhem para vocês. Os melhores dos melhores.

Sra. Clarice parece ter chupado limão de tão azeda.
Segura as folhas das provas iguais a um animal ferido.

— As maiores notas nos testes de admissão deste colégio estão nessa sala...

Caminha de um lado ao outro na frente da classe.

— Agora sei por que esse país só exporta carnaval e futebol.... Não conseguem resolver uma simplória prova de Mecânica. Estão no curso errado, certamente.

A professora gira nos calcanhares e distribui as provas de mesa em mesa.
Direto nas mãos dos alunos.
Max finalmente volta à sala de aula.
Tenta assentar no seu lugar e concentrar na aula, mas não por muito tempo.

— Você é a celebridade que jogou refrigerante no Benedetti?

Max assusta-se.
Arregala os olhos.
Uma garota de cabelos platinados, ao estilo da Madonna, o olha com expectativa.
Ela usa um piercing de argola no nariz e isso é muito chocante para Max.
Definitivamente, não existem garotas assim de onde ele veio.
Essa garota tem jeito diabolicamente belo de ser, pensa o garoto.

— As notícias correm rápidas por aqui...

Responde com condescendência.

— Depois do vídeo e do que fez ontem, as pessoas estão comentando os mínimos detalhes.
— Ah.... Sério?
— Ele ficou muito bravo?
— Quase me bateu e o uniforme dele saiu intacto. O meu que manchou.
— Cara, você é um máximo. Max, eu te declaro meu herói.
— Ah.... Como... quiser.
— A propósito... meu nome é Rebeca. Sou melhor amiga dessa aí.

Fala cutucando Ângela, que está sentada a sua frente.

— Não liga para a Rebeca. Ela tem uma queda pelo Benedetti e levou um fora.
— Não levei nada.
— Levou sim. E agora está na fase da raiva.
— Você pode falar mais baixo?

Rebeca sibila.

— Como se todo mundo já não soubesse.

A menina emburra o rosto.
E Ângela revira os olhos.
Max absorve tudo aquilo.
Suspira profundamente.
Pelo visto, esse pessoal adora uma fofoca.

— A Rebeca é meio emotiva e sensível. Você vai se acostumar.

Max aquiesce.
Não sabe o que falar.

— Por que o Benedetti é assim, tão...?
— Chato?

Rebeca complementa a frase de Max com perfeição.
Ângela responde, com um olho na professora e outro no garoto.

— O pai do Benedetti é um dos fornecedores de equipamentos do colégio.
— Isso explica muita coisa.
— Além disso, ele é tipo o “rei” do colégio. É impressionante.
— Entendi. Quer dizer que eu estou encrencado?
— Com ele, sim. Mas você fez o que muita gente queria fazer.
— Eu não fiz nada. Foi um acidente.
— Mais um para sua conta, Max.

A professora pede silêncio.
A conversa acaba.
Sra. Clarice começa a escrever no quadro uma equação matemática.

— Que tal a nossa primeira lição do dia? Resolvam!

A professora fala dando soquinhos no quadro.
Os alunos engolem em seco com a matemática jogada na cara deles.
Delicadeza não é o ponto forte da CCGM, pensa Max.
Os alunos fazem as anotações complicadas aos trancos e barrancos.
A aluna perto de Rebeca, treme as mãos, obviamente nervosa.
Por um acaso ela foi a aluna mais próxima de um zero absoluto na prova.

— Relaxe Maria Clara. Relaxe e se esforce.

A professora fala ao mesmo tempo em que senta em sua mesa.
Divide sua atenção entre o próprio celular e observar todos os alunos.

— Isso está nos livros?

Rebeca pergunta sem se importar com quem vai responder.

— Acho que ela inventou isto tudo.

Max responde meio desanimado.

— É mecânica de Lagrangea...

Ângela fala como se fosse o termo mais óbvio do mundo.
Rebeca rebate com gestos irônicos de dúvida.

— É uma fórmula da mecânica clássica. Serve para calcular trajetórias.

Agora é Max que faz cara de “Do que está falando”?
Ângela desiste indignada.

— Bem, é isso que é.
— Não precisamos saber disso.

Maria reclama mais para si do que para as colegas.

— Ela só quer fazer a gente parecer idiotas.

E Rebeca tem certeza de que a professora conseguiu.
O segundo e o terceiro horário são mais tranquilos.
E Max, finalmente, presta atenção na aula.


III

Intervalo da manhã.
Refeitório.
Ângela, Max e Rebeca carregam suas bandejas de almoço para uma mesa.
O Robô, como sempre, vai atrás deles.
Ninguém conseguiu segurar a máquina inquieta dentro da oficina.
O próprio Max teve de ir tirá-lo de lá.
Botar e tirar o homem-máquina da oficina da CCGM vai ser um hábito.
São os percalços da ciência, dizem as más línguas pelos corredores.
A garotada do colégio faz fila entre as mesas.
Todos procurando um lugar para sentar, comer e bagunçar.
Ali se juntam alunos de todos os cursos.
Aglomeram-se uns com os outros esquecendo as diferenças.
Tímidos, o pessoal de Química tira fotos discretamente do Robô e de Max.
São os reis dos likes e especialistas em lurkar nos fóruns da rede.
A galera de Bioengenharia são os mais barulhentos.
Famosos por transgredirem as regras da instituição e fazerem seu próprio almoço.
Abafam as conversas tresloucadas da turma de Metafísica.
Estes, por sua vez, acumulam experiências em organizar as melhores festas.
E todos eles ficam nas pontas dos pés para dar uma espiada na máquina viva.
Max, alheio a todo o histórico dos cursos, deseja para si que não façam isso.
Porque está tentando não se sentir uma aberração.
O que Max não percebe é sua posição dentro do colégio.
Ele não é uma aberração de circo sendo observada.
O garoto e seu robô são uma “sensação”.
Todos querem ver a máquina que caiu da janela e fala.
Os alunos dos primeiros e segundos anos são os mais interessados.
Já as turmas de terceiro ano, principalmente de robótica, mantêm distância.
Não por falta de interesse e nem por falta de tempo.
A maioria tem apenas a pureza do recalque.
E outros, querem saber como aquela máquina funciona.
Sentem uma conjuntura de curiosidade cientifica com assombro.
Por um acaso, o robô é mesmo vivo?
Como aquele garoto fez isso?
Como um novato criou algo que mais ninguém naquele lugar conseguiu?

— Melhor comer e não prestar atenção neles, Max.

Ângela tenta encorajar o novo amigo.
Pela cara que o garoto faz, ela não obteve muito sucesso.

— Falar é fácil.

A resposta atravessada do garoto é quase totalmente ignorada pela amiga.
Ela está compenetrada em comer o seu almoço.
Ação que Max mal tem coragem de realizar.
O almoço no refeitório do colégio era outra “provação” pelo qual o garoto passa.
A comida que serviam ali era incompreensível para ele.
Soilent é o nome da refeição que todos os alunos deveriam comer.
É uma das regras do lugar, não poder almoçar outra coisa além do Soilent.
Muito embora, uma turma insista em burlar as regras e traficar outros alimentos.
Pobre do Seu Osvaldo que tenta ajudar ficando de olho nesses alunos, sem êxito.
O Soilent é uma mistura de nutrientes bem balanceadas, criada após a Crise.
Uma proteína celular apresentada sob forma líquida.
Contém proteína de soja, óleo de algas e açúcar.
Na teoria, mais saudável que alimentos industrializados.
Na aparência, uma sopa densa e amarela com odor leve de pescado.
Custam apenas alguns centavos por quilo para o Estado.
Logo, tornou-se o prato universal da educação brasileira.
Quase nenhum aluno realmente gosta de comer aquilo.
Mas, com o tempo, todo mundo acaba se acostumando.
Max também vai ao seu devido tempo.
Enquanto Max e Ângela comem e os outros os vigiam, Maria Clara aparece.  
Tímida, ela se espreme em um assento perto de Rebeca.
A menina platinada vai logo falando.

— Maninha! Você conhece meu amigo, Max e seu robô?

Surpresa, Maria Clara esfrega as olheiras.

— Estudamos na mesma sala, lembra?

Ângela se vira para Max.
Faz sinal com o dedo indicador para a menina platinada.

— É o “início do ano outra vez”, e você é o novo brinquedo brilhante dela.

Max sorri embaraçado.
Repentinamente, um flash cega o garoto e o robô.
Ambos olham para o fotógrafo, sem entender nada.
É Fernando com seu celular, um gordinho doce e inseguro do primeiro ano de Química.

— Desculpa! Eu precisava de uma foto.
— Precisava?

Max pergunta meio irônico.

— Todo mundo está comentando de vocês na rede.... Aí, pensei em ganhar uns likes.... Sabe como é...

Ângela, vendo que Max está incomodado, contraria.

— Apaga a foto, Fernando. E não faz mais nisso.

Ela se volta para Max e dá uma piscadela.

— Pode deixar.... Eu te protejo.

Fernando fala claramente desapontado.

— Acho que vou ter de voltar a tirar fotos do meu almoço...

Rebeca se intromete no assunto para consolar o gordinho.

— Se quer ganhar likes, faz um vlog reclamando dessa gororoba de comida...

Fernando acha que foi um conselho verdadeiro.

— Espera... Essa pode ser uma boa ideia...

Mas a atenção de Max se volta para a entrada do refeitório.
Benedetti entra no refeitório com tanto estilo que parece estar em câmera lenta.
Junto dele, dois rapazes e duas garotas.
De vários cursos e anos, cheios de estilo e assustadoramente esnobes.
As meninas, devastadoramente lindas.
Eles se movem através do ambiente atraindo a atenção de todos.
Não é difícil entender que são os mais populares alunos do colégio.
As garotas, irmãs Júlia e Fiama, são do primeiro e segundo ano de Metafísica.
Amplamente copiadas pelas outras alunas do colégio.
Seus estilos ditam a moda e as rodas sociais do lugar.
Dificilmente alguma festa ou reunião acontece sem que elas deem seu aval.
Uma palavra negativa delas sobre um aluno e ele cai no ostracismo na CCGM.
Os rapazes, entretanto, têm funções bem distintas entre eles.
Guilherme, o mais alto, é aluno do segundo ano de Química.
Ganhou destaque entre seus pares por ser muito amigo dos funcionários.
Os casais de alunos mais ousados sempre o procuram para conseguir privacidade.
Já Pedro, aluno do primeiro ano de Bioengenharia é um valentão inveterado.
Ele atua como uma ponte entre os alunos mais velhos e os mais novos.
Se alguém ali dentro quiser comer algo além de Soilent, Pedro é a chave.
Benedetti como um líder entre eles, sabe tudo sobre todos e por isso se destaca.
Assim, Fernando esquece o robô, pega o celular e vai tirando fotos, discretamente.
Sentam-se à mesa mais distante da mesa de Max.
O garoto inclina-se na direção de Rebeca e Ângela.
O robô imita seu criador.

— Por que todos tratam o Benedetti assim, com tanto respeito?
— Para não se darem mal.

Ângela responde.
Rebeca e Maria se inclinam mais, mudando para o modo fofoca.

— Eu não sei como tudo isso começou, mas meio que é assim desde sempre.
— Como assim?

Rebeca explica avidamente.

— O Benedetti é inteligente e o queridinho dos professores.

Maria Clara complementa no impulso.

— Além disso, ele sabe o segredo de todo mundo aqui. É sério.

Ângela corrobora a fala da menina das olheiras.

— Até aquele que você não contou para ninguém.

Fazendo gracinha, Rebeca continua.

— E do jeito que ele te encarou na última aula, talvez ele te adote.

Max ri, gostando do jeito que Rebeca fala.

— Mais fácil que ele me mate.
— Vai ser uma questão de tempo!

Maria Clara fala genuinamente sincera.
E Ângela responde.

— Putz, que azar o seu...
— Ah.... Muito obrigado!

De repente Benedetti vê o robô, superficialmente através das mesas do refeitório.
Ainda contrariado, Max vê Benedetti olhando direto para a máquina.

— Mas me diga.... Como andam as coisas em casa?
— Está indo.... Sabe que eu e Belita não nos damos muito bem.

Ângela e Rebeca tornaram-se amigas logo no primeiro dia de aula.
Rapidamente, as duas compartilharam quase tudo sobre suas vidas.

— Você deveria chamá-la de mãe. Eu já te disse isso, não?
— Ela não é minha mãe. Você sabe disso.
— É nossa mãe sim!

Maria Clara interrompe a conversa das duas amigas.
Apesar de Maria e Rebeca serem irmãs, a relação com Ângela não era a mesma.

— Não é não. Ela nos adotou e só. E vê se não se mete na nossa conversa...
— Grossa... Se for assim, então nem me chame de maninha.... Não somos irmãs de sangue, lembra?

O óbvio deboche de Maria no meio da conversa faz Ângela dar uma risadinha.

— Meninas... Não briguem.
— Não vamos brigar. É a Maria que é uma chata.
— Não sou chata, viu! Só é injusto o jeito que você fala da nossa mãe.
— Eu já disse que ela não é nossa mãe, poxa vida!
— Concordo com a Maria.
— Viu! Até a Ângela concorda comigo!
— Há! Era só o que me faltava vocês se juntarem...

Rebeca vira de costas para as duas outras garotas.
É um gesto de birra infantil misturada com charme feminino.
Ao mesmo tempo, os olhos de Rebeca miram direto no “reizinho” do colégio.
Os olhos de Benedetti por sua vez já estão fixos na figura de Rebeca faz tempo.
E ele parece confuso.
A menina de piercing rapidamente olha para o lado, ainda mais birrenta.
Ângela, claro, não deixa essa passar.

— Você o acha totalmente maravilhoso, não é?
— Mas aparentemente ninguém é boa o suficiente para ele.
— Parece que alguém não superou o fora que levou!

Ângela fala debochadamente.

— Há! Como se eu me importasse.

Rebeca claramente se importa.

— E vocês duas acabam de nos fazer falhar no Teste de Bechdel.

Maria Clara reclama com uma mini dose de ciúmes.

— Teste de que? Você é estranha.

Rebeca responde confusa e Ângela só se diverte.
Do lado delas, Max perdeu o interesse na conversa faz tempo.
O pobre garoto só come seu Soilent.
Ao fundo, o robô, não deixa de dar mais uma olhada em Benedetti.
Ele está encarando Max completamente agora.
Tem uma pequena expressão de frustração no semblante.
Rebeca, também frustrada, se esconde atrás das madeixas platinadas.
Mais tarde, a aula de Introdução a Robótica é na oficina da ala oeste do colégio.
É mais frio ali do que na parte central do prédio.
E suas janelas enormes, num dia de chuva, dão arrepios.
Some isso às inúmeras carcaças de máquinas presas as paredes à volta.
E mais uma dezena de projetos de robôs de várias turmas, espalhadas pela sala.
O robô está total e completamente oprimido pelo ambiente.
Max lembra de quando ele fugiu, duas noites atrás.
Por impulso, segura o robô por uma das mãos.
Tenta demonstrar segurança para a máquina.
Se é que ela consegue entender esse gesto.
Os alunos espalham-se por seis longas bancadas retangulares.
Em cada bancada, uma boa quantidade de material para aulas práticas.
Interfaces e luzes de todos os tipos.
Leds.
Motores.
Sensores.
Potenciômetros.
Motores de passo.
Motores de corrente contínua.
Placas para todos os gostos.
Uma grande variedade de ferramentas.
Finalmente, a frente da aula está o Sr. Morrison.
Um homem de nariz adunco, careca brilhante e óculos escuros tipo “Lennon”.
Sr. Morrison, diferente dos outros professores, começa a aula fazendo a chamada.
E, é claro, ele para no nome de Max.

— Ah, sim.

Ele diz baixinho.

— Max Munhoz. A nossa... celebridade.

Benedetti e alguns alunos dão risadinhas escondendo a boca com as mãos.
Sr. Morrison termina a chamada e encara a classe.
As lentes vermelhas dos óculos tornam o olhar frio, como túneis escuros.

— Devo lembrar que vocês estão aqui para aprender a ciência exata da robótica.

Fala num tom monossilábico.

— De engenheiros e projetistas a inventores amadores, o desejo do homem de descobrir, nos inspirou a criar máquinas que o mundo nem sabia que precisava. Esta aula é para pessoas que nasceram para projetar e os robôs que elas estão destinadas a criar.

Um silêncio segue-se a esse pequeno discurso.
Max e o robô se entreolham.
O garoto com as sobrancelhas erguidas.
Ângela está sentada mais para o canto da sala.
Parece desesperada para começar a trabalhar.

— Max!

Diz Sr. Morrison de repente.

— A prototipação é um passo básico ao projetar robôs...

Olha para Max.
O garoto sente que algo de ruim vem por aí.

— A maior preocupação é com a aplicabilidade dessas máquinas na vida humana. Como ela vai nos ser útil, dia após dia?

Sr. Morrison estica o dedo para o garoto e seu robô.

— Max. Qual foi a aplicabilidade pensada para esse seu... robô?
— Ah.... Bem.... Eu pensei em... ajudar nas tarefas domésticas lá de casa.
— Tarefas domésticas... Sei... E escolheu a forma humanoide para isso?
— Ah.... Isso.
— Max... você sabe o motivo de existirem poucos robôs em forma humana?
— Na... não Senhor.
— Falta de praticidade. Um formato humanoide exige energia demais para funcionar por causa do excesso de articulações e dá dificuldade das passadas. Além disso, o formato humanoide é pouco eficiente em muitas situações. Mas você não pensou nisso, não é?

Alguns alunos riem.
Entre eles, Maria Clara.
Ela senta ao lado de Rebeca, nesta aula.
Nesse instante, os olhos de Max encontram os de Rebeca.
E esta dá uma piscadela para reconfortá-lo.
Sr. Morrison, porém, não gosta.

— Para sua informação, pensar no design da máquina é o básico para definir sua função.
— Eu... eu não sabia, senhor...
— É claro que não. Se soubesse, teria feito um aspirador de pó.

Todos na sala riem na sequência da piadinha do professor.
Menos Max, por ser o alvo.
E Ângela, pela mais pura educação.

— Se antigamente os robôs humanoides eram apenas uma invenção da ficção científica, hoje eles já são uma realidade.

Com um movimento de cabeça, indica o robô de Max como exemplo.

— Mas este robô, ajuda as pessoas? Ele realiza as tarefas para o qual foi desenvolvido? Ele pode ajudar os seres humanos rumo ao avanço?

A classe permanece em silêncio.
Ninguém sabe se foi uma pergunta retórica ou não.
A boca do professor se contorce num riso de desdém.

Tsc, tsc, pelo visto, estou superestimando esta classe. Bem que a professora Clarice tem razão em suas colocações.

O comentário deixa todos desconfortáveis.

— Para está matéria será necessária à formação de equipes.

Os alunos mais populares ficam animadinhos com a possibilidade.

— Vocês terão como tarefa, a criação e montagem de protótipos. 

Um burburinho percorre a oficina.

— Os componentes encontrados nessa oficina podem ser usados na construção de seus protótipos. Use-os para melhorar seu robô, Max.

Finalmente, todos entendem a quantidade exagerada de peças sobre as bancadas.

— Entretanto... O protótipo será um projeto a ser aperfeiçoado nos próximos 2 anos e meio. E a conclusão desse trabalho será vital para seu progresso nessa instituição.

Essa informação deixa os alunos agitados.
Não pelo projeto, mas por terem aulas com Morrison até se formarem.

— Por isso, pensem bem no que farão.

De polvorosos, passam a engolir em seco.

— Então? Por que não estão copiando o que estou dizendo?

Ouve-se um ruído repentino de gente apanhando canetas e cadernos.
E acima desse ruído a voz do Sr. Morrison.

— E vou descontar um ponto da sua média pela incompetência inicial, Max.

As coisas não melhoram para Max na continuação da aula.
Morrison separou-os em trios e mandou-os desenvolver um conceito para um protótipo.
O grupo de Max acabou sendo um misto de alívio e pesadelo.
Faz par com Ângela, o que o agrada.
Mas o trio se completa fatidicamente com Benedetti.
Mesmo os três tendo a vantagem de ter um protótipo pronto, o rapaz atrapalha.
Diz que o robô deve possuir defeitos em sua programação.
Max rebate o comentário com discordância.
Os dois entram em uma discussão calorosa sobre quem está certo.
Embora eles tenham que pensar nas funções do robô, pouco avançam.
Por fim, Ângela atua como uma apaziguadora do trio.
A garota decide avaliar primeiro o que a máquina deveria fazer.

— Robô, o que você foi programado para fazer?

Ângela pergunta com delicadeza.

— Dados.

O robô responde.
Max rebate.

— Você foi programado para fazer serviços domésticos.
— Não. Dados.

Benedetti manifesta-se com soberba.

— Ele precisa de dados para fazer o que foi programado para fazer.

Ângela reage como se a iluminação alcançasse sua mente.

— É isso! O que falta é um banco de dados!
— Bem... eu dei um monte de dados para ele, mas...

Sr. Morrison caminha imponente com seus óculos avermelhados, pela oficina.
Observa os alunos debatendo calorosamente os conceitos para seus protótipos.
A cada ideia que ouve sair de uma boca, crítica.
Quase todos passam por isso, exceto Benedetti.
É o único aluno de quem parece gostar.

— Muito bem Benedetti... O que pensou para melhorar essa... máquina?

Até o robô percebe certo desdém nas palavras do professor.

— O robô precisa de um banco de dados para realizar suas tarefas com exatidão.
— Ei, mas essa...

Ângela rapidamente dá um beliscão no braço de Max.
Isso o faz ficar calado e emburrado.

— Interessante. Max, por que não mostra aos seus colegas como funciona esse seu... homem-máquina?

O garoto dá de ombros.
Não por desdém.
Só não sabe como responder.
Mas se for o que o professor quer, o fará.

— Está achando que irá manter seus segredinhos?
— Não... tem segredos, senhor.
— Não minta Max. Eu vi o vídeo. Menos meio ponto na média! E ajude seus colegas.

A injustiça é tão grande que Max abre a boca para argumentar.
Ângela dá-lhe um pontapé por trás da bancada.

— Não force a barra.

Ela cochicha.
Ele preferia que ela não tivesse chutado.

— O Sr. Morrison pode ser muito indigesto.
— É sério? Nem tinha percebido.
— Então... Max. Mostre-me o que fez nesse seu... robozinho.

Benedetti consegue tirar Max do sério.
O robô olha com seus olhos vermelhos para seu criador.
Ângela tem a sensação de que ele não quer ser tratado como um experimento.
Mas não há outra forma.
No fim, Max convence o robô a deitar-se na bancada.

— Eu vou mostrar como ele funciona.

Abre a estrutura da lataria do robô com uma chave Philips.
Quando retira as chapas metálicas, revela um mundo de canos, fios e chips.
O esqueleto do homem-máquina parece envolto por veias e órgãos.
Numa olhada inocente, é o monstro de Frankenstein do novo século.
Realmente, o moderno Prometeu.
Todos os canos, fios, placas de silício, ferros e baterias juntos, são admiráveis.
Um trabalho exemplar para um simples adolescente.

— Deve ter dado um trabalhão...

Ângela, garota curiosa que só, está impressionada.

— Me levou um bom tempo para montar tudo.
— E boa parte da vida social também, eu imagino.
— É. Isso também.

Benedetti, analisando o esqueleto de ferro, pergunta.

— Vai explicar como funciona ou não?

Max, contrariado e envergonhado, fala.

— Bom... Eu me baseei em várias pesquisas que eu fui lendo na internet.
— E montou toda a estrutura a partir disso?

Ângela pergunta.

— Mais ou menos.
— Então não criou nada? Só copiou?

Benedetti fala em tom de acusação.

— Não. O design é todo meu. Eu juntei várias ideias e sistemas num conjunto que funcionasse direitinho, entendem?
— Eu entendo Max.

Ângela tenta ser mais agradável com o colega.

— E como ele anda?

Pergunta Benedetti.

— Eu usei linhas hidráulicas e pneumáticas para controlar os movimentos do robô.
— O resultado é bem impressionante. Digo... ele anda e interage com tudo de forma muito precisa. Muito humana.

Ângela de fato está impressionada.

— É um sistema hidráulico mais funcional que o padrão, pelo que me parece.
— Isso dá a capacidade de copiar os movimentos de um ser humano com mais precisão.
— Interessante... o robô emula os movimentos do ser humano.
— Sim. A ideia é fazer quase uma mímica das imagens de um ser humano se movimentando que eu coloquei em sua memória.
— Então, ele apenas reproduz essas imagens?
— Isso mesmo. O sistema que usei torna isso possível.
— Mas como ele não esbarra em tudo por onde ele passa?
— Como assim, Ângela?
— Por mais que sejam precisos seus movimentos, isso não se traduz necessariamente num reconhecimento do ambiente com o qual vai interagir.
— Ah.... Bem.... Isso funciona com outro sistema.
— Qual?
— Para que os movimentos mais humanos funcionassem numa interação verdadeira entre o robô e tudo a sua volta, eu tive de programar uma solução a parte.
— Pare de fazer mistério e conta logo!

Benedetti se exalta.
Não dá para saber se é nervoso ou interesse.

— Eu coloquei um conjunto de 6 câmeras ao redor do corpo. Duas estão nos olhos.
— De modo a dar uma cobertura visual completa?

Ângela, ligeira, pergunta primeiro.
Max responde na mesma velocidade.

— Sim. As câmeras funcionam como sensores de profundidade.
— Hum...
— Uma vez que você estabeleceu isso, o sistema designa o ambiente a sua volta como peças de trabalho, áreas proibidas para ir e assim por diante.
— Fornecem um feedback físico quase instantâneo para o robô?
— Sim. Exatamente isso.
— O que permite uma interação mais precisa quando os sistemas funcionam ao mesmo tempo!
— A ideia é essa, pelo menos.

O garoto está envergonhado e orgulhoso do próprio trabalho.
Com isso, Benedetti toma a iniciativa e investiga as pernas da máquina.

— As articulações têm base em um sistema de cilindros com rotação diafragmática...
— É o que acaba proporcionando-lhe alto torque.
— Mas infelizmente eles acabam sendo maiores e mais pesadas que os robôs hidráulicos à válvula.
— Os robôs presentes no mercado hoje em dia?

Ângela pergunta.
Ela ficou para trás por não perceber isso.
Benedetti aproveita para espezinhar.

— Sim. É óbvio não?

A garota faz cara de desdém.
Max complementa.

— Mas se compensam necessitando de menos energia para funcionarem.
— E tudo isso converge para o que, Ângela?
— Maior precisão. Eu não sou burra, viu!
— Só é lerda!

Benedetti dá uns tapinhas leves na testa da garota.
Ela responde com um empurrão fraco no colega.

— A minha ideia é que... um sistema assim, pode permitir uma inclusão mais rápida de robôs no cotidiano. Entendem?
— Considerando que você queria um robô para fazer tarefas domésticas...
— É... A gente entende.
— Mas e aqui?

Ângela aponta para a cabeça do robô.

— O que foi?
— Estou curiosa para saber como montou a cabeça.
— Não muito diferente do resto, eu presumo?

Benedetti também está genuinamente curioso.

— Nem tanto. Eu montei a cabeça para controlar todos os sistemas ao mesmo tempo. Só assim daria certo.
— Na verdade, quero mais é ver a programação por trás disso.

Abre a tampa da cabeça e mostra o silício do cérebro positrônico.
Não é exatamente um cérebro muito avançado.
Max comprou-o em um camelô de esquina.
Mas é potente o suficiente para manter todos os sistemas funcionando.
Ali também está conectada a esfera metálica.
Ela brilha vermelha e gira intensamente na cabeça do robô.
Diante daquela peça enigmática, Benedetti e Ângela só tem uma reação possível.
Eles ficam boquiabertos.
Satisfação garantida.


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