EPISÓDIO QUATRO - NÃO PROVOQUE O REI





I

Max se despede do tio.
Sai do carro.
Sente o choque do ar frio do lado de fora.
Fecha melhor o agasalho do uniforme.
Começa a andar pela calçada.
Levemente úmida pela chuva.
Até se deparar com os imponentes portões de ferro do colégio.
O garoto para, encarando-os com condescendência.
No topo das barras que os compõem, o exagerado nome da instituição.
“Colégio Científico Garcia Mendez”.
Um garboso nome que faz Max suspirar.
Parece excessivamente rígido.
O garoto não gosta de muita rigidez.
Prefere as coisas mais soltas.
Assim pode fazer tudo no seu próprio tempo.
Enquanto observa, vários alunos passam por ele.
Todos vestidos com o uniforme do colégio.
O mesmo que Max traja impecavelmente.
O agasalho azul marinho com o brasão e a sigla “CCGM” do colégio bordado.
As calças também azuis, com listras vermelhas nas laterais.
E a camisa indelevelmente branca.
O garoto continua parado em frente aos portões por mais alguns segundos.
O lugar permanece garboso mesmo além deles.
Um belo prédio neoclássico.
Com sobrado e remate de frontão.
O telhado exposto e com beiral rematado num estilo colonial.
O madeiramento tem a forma retangular em dois pisos com janelas em guilhotina.
É um prédio sóbrio, de fachadas iguais.
Uma construção esmerada num apurado acabamento.
O portal de entrada do prédio ostenta a bandeira da república e do estado.
Max respira fundo.
Enche os pulmões com o ar frio da manhã.
Cria coragem para adentrar o terreno do desconhecido.
Parece-lhe tão assustador naquele momento.
O novo.
Pelo qual trocou o velho.
Caminha em meio aos outros alunos.
Sendo o calouro, é clara sua diferença para os demais.
Não apenas pelo fato de estar andando sozinho.
Mas por estar preocupado e simples demais.
Os alunos do CCGM parecem competir uns com os outros para saber quem está mais na moda.
As meninas investem nos acessórios para dar charme ao uniforme.
Relógios.
Pulseiras.
Colares grandes e brincos pendurados.
Cada calçado custa uma pequena fortuna.
Seus cabelos seguem a última moda das passarelas
Algumas com coques bem alto nas cabeças.
Outras com uns fios soltos em atitude de rebeldia fingida.
As discretas usam o rabo de cavalo alto.
Poucas, geralmente mais velhas, usam tranças embutidas ou soltos.
Os meninos não ficam por menos.
Abusam para ver quem tem o tênis de melhor marca e mais espalhafatoso.
As mochilas importadas criativamente decoradas com bottons e chaveiros.
Todos têm a pinta de descolados a caminho das aulas.
Cada assessório ou penteado é de muito bom gosto.
Artigos de marcas caríssimas.
Que, em verdade, Max jamais havia visto de perto.
A sofisticação claramente sobrepuja os alunos bolsistas.
Cada bolsista é menos espalhafatoso na forma de se vestir.
Quando estão em grupo, são menos barulhentos que as turmas de alunos ricos.
Max passa por eles e experimenta uma sensação de cumplicidade.
Ao mesmo tempo em que, ao passar pelos alunos descolados, sente-se distante.
Todas as cabeças virando e espiando enquanto Max passa.
Caminha quase apavorado.
Todos os olhares estão nele.
Enquanto ele atravessa o pátio.
Pisa numa poça.
Ensopa seus tênis.
Reclama baixinho.
Muitos alunos riem, discretamente, do garoto.
Max anda de forma envergonhada.
Em direção ao prédio colegial.
Esbarrando num grupinho de garotas, ele passa pela entrada.
No andar térreo ficam as salas de aula, o refeitório, os banheiros e a cozinha.
Pelo hall de entrada, enchem as paredes, brasões das famílias importantes do Brasil.
Figuras decorativas em alvenaria, porcelana ou madeira, estão pelos cantos.
Enfeitam de dia e assustam de noite, dizem os alunos mais velhos.
Mais adiante, no corredor, uma das esculturas se destaca das outras pelo tamanho.
A obra, em porcelana, tem uma tonalidade próxima ao creme.
Seu tamanho é por volta de um metro e oitenta centímetros de altura.
A estátua é a representação de um homem nos seus quarenta anos de idade.
Corpo mediano e bem definido.
Usa uma boina sobre os cabelos curtos.
Está nu.
Sentado sobre um trono.
Em postura curvada.
Sua cabeça baixa, apoiada na mão direita.
Fechada em direção à boca, numa atitude meditativa.
O braço esquerdo repousa sobre o cabo de uma espada.
A textura da porcelana não privilegia os detalhes físicos de corpo e face.
Nem das rugas e suas expressões.
Revelando apenas sua silhueta e atitude.
A composição é em cruz.
Uma concentração da figura sob ela mesma.
Curvada, de espádua apertada.
E tem em sua origem, um intenso simbolismo.
Numa legenda, na lateral da escultura, os dizeres “General Garcia Mendez”.
“Fundador do primeiro Colégio Científico brasileiro”.
E também, deveria ali estar escrito, “grande sonhador”.
O General acreditava que o desenvolvimento científico era a verdadeira liberdade para o país.
Aproveitando-se do esforço do Brasil em se desenvolver tecnologicamente, ele atacou.
Sua ideia era criar toda uma geração de jovens que, num futuro, trariam glória a nação.
Para isso, esforçou-se na criação de colégios científicos em todos os estados brasileiros.
Infelizmente o projeto nunca alcançou seu potencial.
Como uma vítima das disputas políticas internas do Brasil naqueles dias, apenas a CCGM existe.
Os planos para uma instituição em cada estado desapareceu no ralo dos sonhos.
O modelo original do projeto foi o único a ser construído, na cidade natal do General.
Ali, como um monumento das esperanças do passado no futuro da pátria.
No fim, a CCGM triunfa, formando uma juventude que acredita na ciência.
Não apenas isso, mas o colégio é uma referência no desenvolvimento de novos criadores.
E toda a sua estrutura busca aperfeiçoar-se cada vez mais.
Sempre buscando auxiliar o aluno a tornar-se um cidadão pleno e capaz de conduzir o futuro.
Um valor nobre, mas que, pode-se julgar, está longe de existir naqueles corredores.
Max passa pela estátua exagerada e caminha em meio aos alunos.
Passa pelo único zelador da instituição.
O pobre Seu Osvaldo, um senhor de meia idade.
Usa macacão azul como uniforme e carrega uma caixa de ferramentas.
Vaga pelos alunos como um fantasma que cuida do prédio e dos alunos.
Poucos são aqueles que o percebem.
Menos ainda, aqueles que o respeitam.
Max quase o ignora e segue em frente.
Sente como se seu rosto fosse conhecido até por ele.
O garoto põe os fones nos ouvidos.
Liga o celular.
Procura uma música que o distraia.
Tem a esperança vã de passar despercebido se usar fones.
Avança em meio aos garotos elegantes que o encaram abertamente.
Alguns dizem olá.
Todos eles estão falando sobre ele.
Este é o seu inferno.
Max detesta ser alvo de atenção das pessoas.
É desajeitado demais para lidar com uma situação destas.
Não entende por que todos o olham.
Será que é tão raro entrarem alunos novos no meio do ano?
Max vagueia pelos corredores procurando o número da sala, perdido.
Constantes olhares fixos na direção do garoto, como se ele fosse um intruso.
Vira numa esquina, lendo os números nos topos das portas das salas.
No mesmo instante, uma doce e atraente garota saltitante aparece no caminho dele.

— Você é Max. O garoto novo. Oi.

Ela é meiga, com um longo cabelo ondulado, preto.
O rosto tem forma arredondada.
Um leve toque de expressão infantil.
Aparenta ter a mesma idade de Max.
Garota absolutamente comum.
Única exceção é a mochila que leva no ombro esquerdo.
Cor de rosa e tem um porquinho pimpão estampado no bolso frontal.
Max tem certeza de já tê-la visto antes, em algum lugar.
Ela dá um sorriso bem rápido.

— Me chamo Ângela Maia.

Ela oferece sua mão para apertar.
Meio sem entender, Max dá o cumprimento.
Por algum motivo, adora tocar a mão de Ângela.

— Pode largar minha mão, agora.
— Ah...

Max puxa rudemente sua mão.
Está constrangido da gafe que cometeu.
Se a garota nota a reação do garoto, não demonstra.

— Acho que você me deve um pedido de desculpas.
— Hein?

Pedido de desculpas?
Como assim?
Acaba de conhecer a garota.
Max não entende.
Pensa que é pela gafe.
Responde o mais rápido que pode.

— Ah.... Eu não quis segurar demais sua mão e...
— Não pela mão. Por me empurrar nas escadas.

Definitivamente, Max tem certo desajeito social.
Só agora lembra da garota.
Já a vira antes.
Quando trombou com ela nas escadas do prédio do tio Walter.
Na fatídica noite anterior.
Nunca esperaria vê-la naquele colégio.
Uma coincidência quase inacreditável.

— Ah... bem, foi sem querer, sabe...
— É só pedir desculpas. Não dói.
— Desculpe.
— Viu? Não doeu.

Ele dá um risinho de nervoso.
Pensa que a garota é muito espevitada.
Mas bonita.

— Eu conheço tudo deste lugar.
— É?
— Tudo o que precisar é só me chamar.
— Tudo o que precisar?
— Guia turística, companheira de almoço, um ombro para chorar.

Max apenas olha para ela.
Ângela é real?
É tão diferente das garotas que conhecia na sua cidade natal.
Com ela por perto, Max sente borboletas no estômago.
Sem saber corretamente o que dizer.
Tenta articular uma boa resposta.

— Eu sou do tipo que sofre em silêncio. Não preciso de um ombro para chorar.
— Pelo jeito que todo mundo está olhando para você, acho que vai precisar.

Max olha em volta.
De fato, todos que passam deixam um olhar sobre o garoto.

— É... Vocês não têm muitos alunos novos por aqui, certo?
— Certo.
— Tenho percebido.
— Mas não é por isso que te olham tanto.
— Não?
— Definitivamente não.

Max suspira ainda mais fundo.
Não está confiante com a resposta.

— Está sabendo de algo que eu deveria saber?
— Com certeza.

Ângela puxa de lado a mochila.
Abre a bolsa frontal.
Pega seu celular.
Procura umas coisas na tela.

— Olha só.

Vira a tela do aparelho para Max.

— Mas... O... que?

O vídeo que passa no celular de Ângela é o pior possível.
Mostra o robô caído sobre o carro e o garoto conversando com ele.
É uma gravação da noite anterior.
Alguém do prédio filmou tudo.
Até o momento em que Max sai correndo atrás do robô.
No vídeo, toda a cena é bem ridícula.
É a conclusão de Max sobre o que vê.

— Mas que droga!
— Nem tanto. Até te achei fofinho.
— Há. Há.
— Sua risada irônica é péssima.
— Esse vídeo também é péssimo.
— É... Não sou boa em fazer vídeo mesmo.

O garoto fica estupefato.

— Você fez o vídeo?
— Claro. Não é todo dia que cai um robô no teto do carro do seu pai.
— O CARRO ERA DO SEU PAI?
— Coincidências da vida.

Max leva suas mãos à cabeça.
Bufa duas vezes.
Chama ainda mais a atenção.

— Espera aí. Mas como as pessoas assistiram ao vídeo?
— Passei para uns amigos na rede e eles passaram para outros amigos.
— Você passou o vídeo para outras pessoas?
— Pareceu uma boa ideia, na hora. Acho que eu te devo desculpas também.
— Ah.... Deve mesmo.

Murmura um pedido de desculpas.

— Desculpa.

Inesperadamente, ela o abraça.
Foi o movimento mais inocente possível.
Da parte de Ângela.
Para Max, foi um movimento ousado.
O deixa desconfortável de um jeito bom.
Definitivamente, Max está chamando muita atenção.
A garota percebe e resolve agir.

— Melhor a gente ir Max. Está todo mundo olhando você.

Max fica aliviado.

— Você se importa em apenas me apontar a direção para a sala do 1º ano?
— Legal. Eu te levo lá.

Ela o conduz.
Apreciando os olhares atentos.
Enquanto Max morre de vergonha deles.
Ângela entende e puxa conversa.

— Você perdeu muito do semestre, mas eu posso lhe ajudar.
— Pode?
— Professora particular. Consigo anotações de aulas, essas coisas.
— Isso... seria ótimo. Obrigado.
— De nada.

Lança um sorriso amarelo para o garoto.
Emenda logo em seguida um comentário.

— Vamos ficar na mesma turma.
— Ah.... Puxa.

Max segue a colega pelos corredores do colégio.
Com um sentimento de frustração e desconforto lhe corroendo as entranhas.
Esse começo de dia está fazendo a cabeça de Max dar voltas.
Ângela para em frente a uma porta no meio do corredor em que seguiam.

— Chegamos! 1º ano, sala 101.

Comenta a garota alegre enquanto aponta a porta.
Max não tem tanto entusiasmo quanto a colega.
Sente que aquela sala irá lhe assombrar pelo resto do ano.
Max dá um longo suspiro.
Como se assim pudesse espantar a sua frustração.
E entra na sala junto com Ângela.
Ela perece mais animada que antes.
Ao adentrar, Max percebe vários grupos espalhados pela sala.
O ar preenchido pelo conhecido burburinho de conversa.
Interrompido vez ou outra por risadas.
Max não sabe se estão rindo dele ou se é apenas paranoia sua.
Sorri de leve ao ver a cena.
Não das risadas dos grupinhos, mas do pensamento dele.
Paranoia é achar que está paranoico.
Só chama atenção por ser diferente.
Um caso de vídeo viral na rede.
Logo deve passar.
Ser esquecido.
Estudar nesse colégio talvez não seja tão ruim assim.
Pode ser o começo para tornar-se um cientista como sempre sonhou.
Mas o sorriso logo desaparece.
A quem está tentando enganar?
O vídeo é a pior coisa que poderia lhe acontecer.
E com certeza irá atrapalhar, mesmo que minimamente, os seus sonhos de carreira.
Afinal, um acidente com um robô na adolescência não é ideal para por num currículo.
Pensamento positivo e otimista não está funcionando de jeito nenhum.
Max sai de perto de Ângela que está conversando com outras meninas da turma.
Constrangido, anda para o fundo da sala.
Dá uma olhadela para Ângela.
A garota não o vê.
Está ocupada falando com algumas amigas.
Segue o passo, sem olhar para onde vai.
Péssimo erro.


II

Quando percebe, Max bate de frente com alguém.
Sente um líquido frio atravessar o agasalho.
Mancha o tecido.

— Seu idiota! Você não olha por onde anda?

Levanta os olhos.
Observa o estranho.

— Me... me desculpe.
— Desculpas?

Dois olhos furiosos.
Vão do azul profundo ao mel.
Encaram o garoto de modo ameaçador.
Max tenta amenizar o acidente.

— Eu sou muito distraído.

Na mão do estranho, uma lata de refrigerante.
É de cola, daquelas que mancham tecidos definitivamente.

— Você sujou o meu uniforme, seu imbecil!

Fala entre dentes.
O estranho sai da sala.
Bate a porta com força.
Seu rastro de fúria fica pelo caminho.
Max vira-se.
Olha em volta.
Todos na sala o encaram.
Parece que pararam de respirar devido à cena.
Ele caminha até o fundo da sala.
Vermelho como uma pimenta malagueta.
Senta-se, tirando o agasalho também manchado.
A turma fica quieta.
Todos absorvem o que aconteceu.

— Você fez besteira de novo, não é?

Ângela está de pé, na frente de Max.
Fala com as mãos atrás das costas.
Do outro lado da sala, outras meninas riem discretamente.

— Eu sei. Não precisa comentar.
— Não liga para o Benedetti, não. Ele deve ter acordado com o pé esquerdo hoje.
— O nome dele é Benedetti?!

Max arqueia as sobrancelhas.
Por algum motivo, sente que não quer saber mais sobre ele.

— Na verdade é Mario. Benedetti é o sobrenome. O pai dele é italiano.
— Ah... Tipo o escritor?
— Não sei. Mas ele prefere que chamem pelo sobrenome. Coisa de garoto rico.
— Ele é rico?

A conversa acaba abruptamente.
É interrompida pela chegada do professor.

— Bom dia turma. Bom dia senhor Max Munhoz. Bom dia senhorita Maia.

Ângela abaixa a cabeça e ruma para seu lugar.
Todos ficam incrivelmente quietos perante esse professor.
A fala dele é extremamente neutra.
Mas muito incisiva.
Impunha certo respeito.
O professor Alan é um senhor de barba longa e cabelo esbranquiçado.
Olhos e voz tão cansados quanto compenetrados a tudo a sua volta.
Apoia-se numa bengala simples de madeira na mão direita.
Nessa mesma mão, um conjunto de excêntricos anéis, adorna cada um dos dedos.
Benedetti adentra a sala quase trotando atrás do professor.

— Bom dia, Sr. Alan. Perdoe-me pelo meu atraso.
— Possui uma boa explicação, eu suponho.
— Um pequeno incidente aconteceu e tive de ir ao banheiro para limpar o meu uniforme.
— Entendo.... Sente-se, por favor.
— Muito obrigado, Senhor.

O professor cumprimenta.
É a primeira vez que Max realmente repara em seu colega.
Ele é alto e magro.
Seus cabelos pretos caem sobre o rosto.
Seu rosto é bonito, no geral, mas de um ar sombrio.
Ele senta-se do outro lado da sala.
Passa a olhar para o professor, impassível.
Ele não fala absolutamente nada.
O professor prossegue a aula.
Lista alguns pontos importantes, sobre a sua matéria: Matemática.
Uma das disciplinas essenciais do curso que Max escolheu.
Ao adentrar na CCGM os alunos devem optar por uma dentre quatro opções.
Robótica, Química, Bioengenharia ou Metafisica.
Assim, a grade curricular mistura dois tipos de disciplinas.
As comuns a qualquer estudante do ensino médio.
Como por exemplo, a Matemática do Sr. Alan.
Uma disciplina comum aos estudantes do primeiro ano de todos os cursos.
E, depois, as específicas de cada curso da CCGM.
Obviamente, Max segue pelo caminho da robótica.
E ouve atentamente a sua primeira aula.
O professor ressalta o ponto sobre nunca menosprezar o conhecimento de seus mentores.
Para o desconforto de Max, ele parece estar olhando exatamente em sua direção.
O que faz com que o estômago do garoto se embrulhe.
O dia já parecia ruim o suficiente antes de o Sr. Alan entrar.
E agora, o olhar ferrenho para ele faz suas vísceras queimarem de fato.
Depois de todo o falatório o professor elabora algumas questões para a turma.
Faz com que todos os alunos se mantenham ocupados.
Ao menos, o suficiente para não terem chance de conversar.
O que de certa forma faz com que Max goste de sua aula.
Está impedido de ouvir burburinhos sobre si.
Isso evita que o garoto fique mais irritado.
O horário da aula seguinte é um pouco mais tranquilo.
Max conhece outro professor, Sr. Sidney, que dá aulas de programação.
Ele é relativamente mais calmo e menos incisivo que o Sr. Alan.
O professor Sidney destaca-se por ser um eterno bonachão dentuço.
Combina muito bem com a classe, que de um modo geral, é comportada.
Isso dá um alívio enorme já que Max pretende ser o mais invisível possível.
Não será tarefa fácil, principalmente tendo deixado um robô cair pela janela.


III

Max analisa e testa o robô na mesa de mogno do seu quarto.
Verificando qualquer defeito aparente que impeça seu funcionamento normal.
O garoto nem sabe bem por onde começar.
Basicamente, as placas de silício foram muito danificadas.
O carregamento de energia do robô por energia solar, está quase perdido.
Felizmente, enquanto estava no colégio, o robô conseguiu carregar um pouco.
Mas não o suficiente para ele fazer estripulias como na última noite.
Na verdade, se pudesse descrever o robô com sentimentos, Max diria que ele está triste.
Sua cabeça sempre baixa, desviando da visão de Max.

— Olha...

O robô olha.

— Não, não para mim.

O robô mexe a cabeça como se estivesse em dúvida.

— Eu disse olha, mas foi... Força de expressão. Eu queria pedir sua atenção.
— Atenção.
— Isso mesmo. Atenção para não repetir o que fez noite passada.
— Noite.
— Me colocou em encrenca, sabia?
— Max encrencado.
— Exatamente.
— Tome mais cuidado, de agora em diante.
— Cuidado. Robô. Dados.

Max dá uma risadinha.
Nem sabe se o robô entendeu.
Concentra-se em consertá-lo.
A estrutura está bem estragada.
Fora as estruturas fotovoltaicas destruídas.
Ainda tem a lataria da cintura, partida.
Os fios que controlam o giroscópio expostos.
As juntas das pernas não se movimentam.
E sem três dedos da mão esquerda.
Hora de trabalhar.
O garoto pega seu estojo de ferramentas.
É próprio para fazer manutenção.
Fechada, com zíper, se parece com um livro. 
Ela foi montada com as ferramentas mais utilizadas no conserto de máquinas. 
Além das chaves de fendas e Philips.
Vê-se no centro um tubo para guardar parafusos.
Três tipos de pinças.
Sendo que a amarela funciona como uma garra que prende o parafuso.
Permite levá-lo ao ponto certo onde será aparafusado.
Durante horas, faz os reparos necessários.
Solda os fios da coluna cervical do robô.
Prende as articulações no lugar.
Abre a estrutura partida com uma chave.
Começa a mexer no giroscópio.

— Max?

O garoto vê a imagem de seu tio refletida no metal do robô.

— Max.
— Tio?
— Eu vou precisar sair, vou lá falar com o Sr. Gustavo.
— Quem é Gustavo?
— O vizinho aí de cima, aquele que você destruiu o carro.
— Não foi por querer!
— Querendo ou não, vou lá ver como pagarei o estrago.
— Ah, sei.

Max troca olhares com o robô.
O robô troca olhares com tio Walter.
Todos os olhares desse momento são de claro arrependimento.
Arrependimento de cair da janela.
De deixar cair da janela.
De dividir o apartamento.

— Quer que eu vá junto?
— Não! É melhor não.
— Ah.
— É só para avisar que tem uma cópia das chaves naquele vaso da estante.
— Que estante?
— Onde fica a televisão. Pode pegar para você, se precisar.

Virados para Walter, Max e o robô aceitam com a cabeça.
O tio não gosta daquilo nem um pouco.

— Depois a gente vê como vai fazer com as refeições.
— Que refeições?
— É que eu costumo jantar no Costa Rica.
— Ah... não se preocupe, eu me viro.
— Qualquer coisa, liga no meu celular.
— Pode deixar.
— Você está com o seu celular?
— Vou botar a carregar.
— Melhor botar logo, então.
— Sim, sim.
— Só para caso você precise ligar.
— Farei isso.

Sai do quarto fazendo barulho com um molho de chaves e assobiando.
O tio assobia a mesma melodia o tempo todo.
É quase um tema da vida dele.
Max desconfia ser uma versão do tema de James Bond que nem existe.
Talvez se trate apenas de um pot-pourri do próprio Walter.
O garoto resolve voltar ao trabalho.
Pega a chave soquete.
Usa para apertar aqueles parafusinhos miúdos.
Onde se prende o cabo do giroscópio nos membros adjuntos.
Parafusa com força, para ter certeza que não irá desengatar.
O robô, obedientemente, apenas observa.
Aquele crânio sorridente, para Max, agora parece sorrir de gratidão.
Prende com fita isolante, a lataria da cintura.
Assim, evita que se desmonte por completo e cause outro curto circuito.
Com um martelo, desamassa as juntas das pernas.
Tem a esperança de fazer o robô andar novamente.

— Max?
— Tio?

Tio Walter retorna ao quarto do garoto.

— Esqueceu alguma coisa?
— Vi que são 10 da noite.
— E...?
— Vai trabalhar a noite toda?
— Eu acho que não.
— Você comeu no colégio?
— Não... Só uma besteira.
— Eu vou fazer umas salsichas para você comer com pão.
— Ah.... Nem precisa.

Mas as palavras do garoto saem em vão.
Walter já tinha saído do quarto.
Dá para ouvir o barulho do tio pegando prato e panela.

— Melhor eu terminar o trabalho rápido.
— Max.
— Sim?
— Obrigado.

Max ri.
O robô aprendeu a ser educado.
E ele nem sabe como.

— De nada, robô.

O robô, num gesto esquisito, encosta um dos dedos no rosto do garoto.
Ameaçadoramente delicado e carinhoso.

— Pronto, pronto. Terminei de parafusá-lo.
— Robô. Consertado.
— Da melhor maneira que eu pude.

O robô levanta-se da bancada.
Anda mancando pelo quarto.
Vai testando as articulações.
Max fica admirando sua obra.
Tio Walter entra novamente no quarto.
Traz o pão num pirex.
Entrega para Max, olhando de soslaio a máquina.

— Você precisa dar um jeito nele.
— Dar um jeito?
— Uma... Coisa dessas, não pode ficar aqui, Max.

O robô para de se mover.
Os leds fixos em Walter.

— Eu sei. Só estou botando ele a funcionar, primeiro.
— Assim, você não vai resolver nada. Isso é fuga.
— Eu só preciso de um tempo. Preciso mexer nele um pouco.
— Ele está vivo não está?
— Eu não tenho ideia.
— Isso é desculpa, precisa descobrir. Não pode ficar dando sopa para o azar.
— Eu vou descobrir tio.
— Eu não quero me meter na sua vida.
— É mesmo?
— Mas também não posso te ver numa enrascada e não fazer nada. Sua mãe me mataria.
— Verdade.

Max morde o pão.
Saboreia a salsicha sem sal.
Engole o pedaço, em seco.

— Se não quiser me dizer o que aconteceu, não precisa.
— Não é que eu não queira. É que eu não sei.
— Se quiser conversar, você sabe que pode contar comigo.
— Eu sei.
— Ou ligar para seus pais.
— Não, obrigado.
— É... Talvez ligar para seus pais não seja boa ideia.
— Não mesmo!

O robô mantém os olhos fixos na conversa.
Walter vê a máquina imóvel e atenta.
Tenta falar de uma forma legal.

— Esse... Robô... é bacana.
— É.
— Faça com que ele seja útil. Não só quebre as coisas.

Seu olhar atravessa a máquina.
Max continua a comer sem vontade, o pão com salsicha.

— O que você achou da Ângela?
— Que Ângela?
— A filha do homem que você destruiu o carro, pombas!
— Ah! Ela parece legal.
— Ela é bonitinha, hein!

Que está tentando dizer?
Max parece se perguntar com os olhos.
Walter puxou a conversa mais estranha que podia.
Max nem responde de tão desconfortável.
O assunto morre ali mesmo.
O tio vai saindo do quarto.
Finalmente vai falar com o vizinho.
Max deve estar bem encrencado.
O robô senta no chão.
Olha fixamente para Max.
Enquanto o garoto come, resolve falar com sua máquina.
Perguntar, na verdade.

— O que foi Robô?
— Max. Problemas?

O garoto se surpreende com a pergunta.
Não imaginava que o robô pudesse ser tão articulado.

— É... Estou com alguns problemas, sim.
— Problemas?
— É. Problemas. Por você ter caído da janela, sabe?
— Robô entende.
— Bom que entende.
— Robô distante da janela.

Max dá uma risada nervosa.
O robô está realmente aprendendo.

— Obrigado, robô.
— Max ainda com problemas?
— Sim. Ainda tenho problemas.
— Robô?
— Ah.... Acho que não. Nem tudo é por sua culpa.

Max termina de comer o pão com salsicha.
Deixa o pratinho sobre a mesa, perto das ferramentas.
O robô, ainda sentado, questiona.

— Conte.

Após um longo suspiro, Max aceita.
Fala com sinceridade inesperada.

— Eu não me relaciono bem com as outras pessoas.
— Por quê?
— Pois estou sempre sozinho.
— Sozinho?
— Sempre. Desde a época da escola.
— Escola?
— Sim. Quando eu era criança. Eu não tinha muitos amigos.
— Muitos amigos?
— As pessoas geralmente têm muitos amigos. Eu não.
— Robô amigo?

O garoto ri quando entende.

— Sim, robô. Você é amigo.

Por um breve segundo, Max tem a certeza de ver satisfação na face do robô.
Mas o momento logo desvanece.
A máquina passa a vasculhar o quarto.
Mexe nas malas de roupas do garoto.
O garoto espreguiça-se e joga-se na cama.
Suas pálpebras começam a pesar.
Ele dorme deitado de forma torta.
Enquanto isso a máquina tenta vestir as roupas do garoto.
Max dorme.
Descansa.
Leds vermelhos acesos. 


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