EPISÓDIO SEIS - NEM TODO PROFESSOR TE AMA







I

O mundo está chuvoso e frio.
Na oficina, os alunos trabalham em seus projetos.
Cada uma das equipes investe em conversas calorosas sobre seu trabalho.
Os trios de alunos devem desenvolver o conceito de um robô que faça algo prático para as pessoas.
Com Max não é diferente.
Mesmo já tendo o seu robô “pronto”.
Tem como tarefa, fazê-lo útil.
Tudo bem que esse era o objetivo de Max desde o princípio.
O robô deveria ser excelente em serviços domésticos.
Já ficou provado que não obteve sucesso nesse pequeno intento.
Agora, junto de seus colegas Ângela e Benedetti, deve retornar ao básico.
Recriar um propósito para a existência do robô.
Uma tarefa nada fácil.

— Ok... O que exatamente é isso?

Ângela indaga.

— Definitivamente, não é uma peça comum.

Benedetti parece ler os pensamentos de Ângela.
Completa a frase que ela queria formular.

— Bem... é uma memória SRAM.

O robô está deitado na bancada da aula.
Parte do seu crânio está aberto para uma melhor análise de sua mecânica.
Exposta aos olhos dos três adolescentes, a esfera metálica gira e brilha.
Os olhos de leds do robô parecem indagar o que discutem.

— Isso não é uma memória SRAM.
— Não mesmo.

Ângela cruza os braços, em dúvida.
Benedetti senta na bancada.
Busca uma visão melhor da peça.

— Eu comprei como se fosse.
— Onde?
— Numa loja online.

Ângela faz uma careta de quem não acredita.
O rapaz Benedetti põe o rosto bem próximo da esfera.
Tenta ler o que está escrito nela.

— O que exatamente você acha que essa coisa faz?
— É uma memória. Eu acho.
— Você acha?
— Eu instalei para ter essa função.
— Mesmo?

Agora é a garota que tenta examinar a cabeça do robô.

— É uma peça da Harmony.

Benedetti declara, repentinamente.

— Você conhece?

Max pergunta.
Está realmente curioso.

— Claro que conheço.
— Ah...
— Mas não faz parte do catálogo deles.
— Como sabe?

Max não entende.
Por isso pergunta.

— Meu pai é distribuidor das peças da Harmony no país.
— E...?
— Eu o ajudo, às vezes. Conheço o catálogo inteiro.
— E essa peça não está no catálogo?
— Não mesmo.

Ângela entra na conversa.
Fala diretamente com Benedetti.

— Mas tem o logo da empresa na peça.
— É. Tem sim.
— Então certamente é fabricada por eles.
— É bem provável.  
— Será que... é uma peça experimental?
— Você diz.... Um protótipo?
— Isso!
— Talvez.

Os dois, Ângela e Benedetti, viram-se para Max.
Falam juntos.

— Se for um protótipo, como o conseguiu, Max?

Os dois se assustam com a sincronia.
A garota ri.
O rapaz fecha a cara.
Do outro lado do vidro, o mundo de chuva se transforma em um desenho a lápis.
Parece executado em uma dúzia de tons de azul.
Com manchas de vermelho âmbar aqui e ali.

— Eu já disse, comprei pela internet.
— Mas não comprou essa peça, certo?

Ângela já começa a entender o problema.

— Certo.
— Sabia. Deve ter sido enviada por engano.
— Como enviariam um protótipo por engano? E entregaram na sua casa?
— Isso é mesmo um mistério.

Silêncio.
Os três colegas ficam pensativos.
Gotículas de chuva na janela brilham.
Como diamantes à luz do sol da tarde.

— Melhor investigarmos.

Benedetti propõe.

— Começamos por onde?

Ângela indaga.

— Max é o dono do robô. Ele que nos diga.

Sobra para Max, a decisão.
Por mais intrigado que Benedetti esteja, ele não perde a oportunidade de chatear o colega novato.
Ainda não se vingou por ter derrubado refrigerante no seu uniforme.

— Bem.... Vendo... como a peça funciona?

Foi um chute.
Max não sabe o que fazer.
Não de verdade.

— É uma boa ideia.

Ângela começa a mexer-se.

— Me passa um cabo ethernet. Vou conectar com meu notebook.

Benedetti atende ao pedido da garota.
Os alunos do colégio de ciências mostram para que estão ali.
Assim que Ângela conecta o cabo azul na cabeça do robô, senta-se.
Rapidamente, abre uma janela de terminal no seu sistema operacional.
Acessa, com alguns comandos simples, a configuração da máquina.

— Você diz que é uma memória, certo?
— Certo.
— Vejamos então.... Aqui diz que tem 2 gb de ram.
— Não! Deveria ser 4 gb de ram.
— Só tem 2 gb.

Max fica confuso.
Benedetti aproveita.

— Estávamos certos. Essa esfera não é uma memória. Nem funciona como tal.

Ângela rebate.

— E funciona para que?
— É sua tarefa responder isso.
— Tá bom. Tá bom. Vou dar uma checada nos arquivos upados no sistema.

E ela o faz.
Demora quase a aula toda.
E leva um susto.
Os três, muito atentos, levam o susto.

— Max. Os arquivos do programa base do robô... eles estão incompletos.
— Incompletos?
— O upload da programação possui falta de dados.
— Por isso ele não executa as tarefas que deveria.
— Pelo que eu vejo aqui... O seu robô é como uma folha em branco.
— Por isso ele pede mais dados...
— Para saber o que fazer? Mas como ele guardaria essas informações?

A garota digita mais meia dúzia de comandos.
Espanta-se.

— Olhe.... Essa peça pode ser acessada diretamente.
— Como assim?
— Ela não tem apenas seu código fonte compilado, mas também um sistema de armazenamento.
— Como um... hd?
— É. Quase isso. Tem várias pastas que podem ser acessadas.
— E dentro das pastas?
— Muitos arquivos... os mais antigos estão criptografados.
— O que podem ser?
— Não é óbvio Max?

Benedetti manifesta-se com um jeito vitorioso.

— Estas pastas são todos os dados que o seu robô coletou.
— O que? Mas como? Sem um programa base, ele seria incapaz de coletar informação.
— Bem.... É exatamente o que ele está fazendo, não é?
— Mas e os que estão criptografados?
— São arquivos anteriores ao uso da peça no robô, eu acho.
— Ângela, consegue acessar a pasta raiz?
— Me deixa tentar.... Não. Não consigo. Também é protegida com criptografia.
— Hum...
— Essa pasta raiz deve revelar o mistério dessa peça misteriosa.

Ângela engole em seco.
Tem uma ideia.

— Max...

Ela põe as mãos nos ombros do garoto.
Encara-o com uma certeza fulminante.

— Nós vamos descobrir qual é o mistério dessa peça.
— Nós vamos?
— Lógico! Não dá para ignorar uma parte tão importante assim do projeto!

Benedetti dá a resposta rápida.

— Se não percebeu, seu robô é o nosso projeto pelos próximos 2 anos e meio.

A conversa vai para um lado meio esquisito.
Ângela tenta dar a sua opinião.

— Se não fizermos esse robô funcionar direito, nem vamos nos formar.

Benedetti concorda.

— E se a gente separasse em partes para entender um pouco por vez?
— Como assim?

A pergunta de Max é válida.
Ângela tenta explicar.

— Hoje, nós aprendemos como funciona a parte mecânica do seu robô.
— Certo...
— Então agora, precisamos entender a programação dele, correto?
— Sim.... Correto.
— Só que ela está corrompida. Portanto...?
— Temos que... investigar a peça...?

Ângela aproveita o gancho e continua.

— E descobrir como ela funciona. Talvez até de onde ela vem.

Max pronúncia.

— Eu entendi! Mas... como fazemos isso?
— Vou pensar em alguma coisa.... Sou boa com mistérios.

A garota ri.
Ousadamente.


II

Max ajeita os cabelos.
Tenta prestar atenção.
Mas não tem muita sorte.
Sua cabeça está a mil por hora, após a conversa na oficina.
A aula de História realmente não consegue segurar seu interesse.
Essa é outra das disciplinas que junta todos os primeiros anos.
Por isso a sala está mais cheia do que em outras aulas.
O que deixa Max com sua atenção ainda mais dispersa.
O professor Pereira começa a desenhar um mapa na lousa.
Max olha para o lado.
Vê Ângela, que tem um sorriso dos mais estranhos no rosto.
Max sabe que ela não está anotando a matéria que o professor dita.
Prof. Pereira fala cada palavra com uma voz monótona.

E então... Enquanto a humanidade sempre elogiou a maturação da cultura que vem com o avanço da ciência... chegou o momento em que tudo foi drásticamente mudado no ano de 2008.

Claro, a maioria dos alunos nem presta atenção.
No fundo da sala, Fernando checa se tem comentários em suas redes sociais.
Rebeca lê notícias de fofocas no celular, escondendo-o debaixo da carteira.
Benedetti está olhando através da janela da sala.
Parece observar a umidade deixada pela chuva que amainou.

Tenho certeza que todos vocês sabem sobre a grande guerra que eclodiu nas fronteiras entre Rússia e Alemanha... Como resultado desse evento conhecido como “A Guerra do Ferro”, o mundo mergulhou numa recessão terrível. Bancos e governos desabaram em questão de meses, gerando demissões e revoluções em massa por todo o globo.

Max vira algumas páginas do caderno para encontrar uma folha em branco.
Para caso o professor resolver caminhar pelo meio das fileiras.
Não quer ser pego como um desatento.

— No Brasil, as pessoas foram para as ruas e não deixaram o país ileso. Todo o pânico econômico e conflitos raciais seguiram implacáveis. Em apenas 1 ano, o país estava falido e sem qualquer esperança. Este evento passou a ser chamado mundialmnte de “A Crise”. A salvação veio na figura de um pacto entre 3 grandes corporações multinacionais. Elas deram a estrutura para os países recomeçarem através do desenvolvimento tecnológico.

Pereira continua falando com certo orgulho.
Ele ignora a falta de interesse dos alunos.

Isso foi há 8 anos... e em apenas 8 anos, chegamos até aqui novamente. Poderíamos atribuir isso à grandeza inerente do homem, mas seria mais próximo da verdade dizer que foi o resultado do sangue e do trabalho de seus pais... O fruto de seus trabalhos é o legado que vocês tem de dar continuidade.

Max inclina a cabeça para frente.
Como se estivesse escrevendo com muita atenção.
E dá mais uma olhadela em Ângela.
Por baixo da dobra do cotovelo.
Há algo diferente em Ângela.
Até agora, Max só havia visto a menina despojada.
Amiga de todos.
Agora, depois de vendo-a compenetrada na oficina, parece outra pessoa.
Muito mais séria.
Mais amadurecida do que Max.
O garoto, por fora, está na adolescência oficial.
Afinal, ele está com 16 anos.
Mas por dentro se sente menor.
Desprotegido.
Como um caramujo fora da casca.
Olhando para Ângela, sente-se um bobo.
Max dá uma sacudida forte na cabeça.
Como que para clarear as ideias.
O sinal toca.
Ângela ergue a cabeça para olhar para ele.
O cabelo escuro e grosso cai sobre um de seus ombros magros.
Ela revira os olhos lindos.
Parece dizer: “Por que o sinal demorou tanto?”.
Levanta-se da cadeira.
Pega o caderno e a mochila de com o porquinho.
Vai até a mesa de Max.

— E aí?

Max se atrapalha ao arrumar o material na sua mochila.
A presença de Ângela em pé, tão pertinho, dificulta seu pensamento.

— Seu tio vai vir buscar você?
— Eu... acho que não.
— Acha que não?
— Não combinei nada com ele.
— É? Então vamos juntos para casa.

Ela não pergunta.
Afirma.
Max demora certo tempo para processar.
Não está acostumado com uma garota assim.
Não está acostumado com garotas.
Ponto.

— Por que você está demorando tanto?

Pergunta Ângela.

— Tem cola no seu bumbum?

Max pega o restante do seu material.
Levanta-se com um salto.

— Certo. Vamos.
— Até que enfim!

Saem da sala.
O robô está, de fato, esperando do lado de fora da porta da oficina.
Sentado no corredor.
Ele insiste em não ficar lá dentro, junto das outras máquinas.
O zelador usa de todas as artimanhas possíveis para manter o robô lá dentro.
Quase como uma disputa entre dois teimosos.
É óbvio quem perde a disputa e recebe as broncas da direção.
Quando vê Max se aproximando, levanta-se.
Cada aluno que passa pelo robô cochicha algo para outro aluno.
Vai demorar muito até que Max e seu robô se tornem parte da paisagem.
Enquanto voltam pelo corredor da instituição, Max resolve fazer uma pergunta.

— Seu pai não vai lhe buscar?
— Geralmente ele vem. Mas hoje não né.
— Por quê?
— Alguém quebrou o carro do meu pai.

A menina fala em tom de provocação.
Até dá uma piscadinha para Max.
Deixa o garoto ruborizado.
O robô olha para ambos, com curiosidade.

— Como vamos juntos para casa, então?
— Ônibus, ué.
— Ah.
— Não gosta de ônibus?
— Com um robô? Não.
— Vai se acostumando.
— Vou tentar.

Rebeca, que estava com a irmã nadando na multidão de alunos, repara no trio.
De longe vê os cabelos escuros de Ângela e abre um sorriso.
Corre sem se preocupar com o que vão pensar e falar.
Pula nas costas da amiga.
As duas quase caem no chão.
Max leva um susto pelo inesperado.
O robô dá uma boa olhada na cena, pois é algo totalmente novo para ele.
Ângela se vira e coloca Rebeca no chão, antes que ambas esparramem pelo chão.

— Está maluca! Quer me matar de susto?
— Não. Quero lhe dar tchau!

Dá um beijo na bochecha da amiga até ouvir a menina reclamar.
Olha para Maria e Max que dão risadinhas.
Ângela coloca a mão envolta dos ombros da amiga.

— Ok. Já chega!
— Seu pai vem lhe buscar já?
— Não. Estamos sem carro. Vou voltar de ônibus.
— Ônibus? Eca!
— Eu também não gosto, mas fazer o que, né?
— Olha... não posso te oferecer carona, pois sabe como é Belita.... Ela me mataria.

Maria Clara pega a irmã pela mão e vai puxando para irem embora.

— A nossa mãe não ia gostar que usássemos o carro da empresa dela para ir até o seu bairro. É do outro lado da cidade. Desculpa Ângela!
— Não tem problema Maria.
— Até amanhã amiga!
— Tchau!
— Robô também dá tchau.

Max e Ângela olham para o robô sem saber reagir.
O homem-máquina só fica acenando para as meninas que vão embora.

— Temos de correr para não perder o ônibus!

Ângela imediatamente sai da inércia e puxa Max pelo braço.
Desata numa corridinha fofa.
O robô acompanha com passadas bagunçadas.
Tomam cuidados para não derrubar ninguém no caminho.
Por pouco, conseguem entrar no ônibus.
Está praticamente lotado.
O único assento disponível fica para Ângela.
Um cavalheirismo da parte de Max.
A garota gosta disso.
O garoto e seu robô ficam em pé durante a viagem.
Sempre ao lado de Ângela.
Embora um pouco envergonhada, a menina aceita numa boa.
Os outros passageiros, a maioria alunos menos abastados do colégio, tentam se afastar.
Preferem não ficar muito perto do novato esquisito e seu brinquedo ambulante.
O robô, aos poucos, começa a olhar para todos.
Se for possível um robô sentir, pode-se dizer que ele está com acuado.
Max, percebendo, tem um lampejo de empatia.
Saca do bolso o celular e os fones.
Encaixa os fones nas entradas de captação sonora da máquina.
Liga numa música.
In Between Days.
The Cure tocando num volume alto.
Sorte do robô que não irá ficar surdo por isso.
E o ônibus trilha seu caminho cruzando as muitas ruas vizinhas ao bairro industrial.
Passa por duas ruas paralelas.
E as pequenas vielas entre ambas abrigam bares, restaurantes e clubes.
São lugares caros, embora menos do que os do Centro.
Frequentados por homens de negócios e hóspedes dos grandes hotéis da região.
A região, aliás, conhecida como Bairro Vermelho, situa-se a norte do Centro.
É o único dos cinco bairros de Santo Mar que se ergue onde antes não havia cidade antiga.
Prédios construídos nos anos 80 dividem espaço com casarões mais modernos.
O local foi loteado no final da década de 70 e levou alguns anos até crescer.
Teve o nome dado por ser construído em cima de barro de coloração vermelha.
Hoje vivem no bairro cerca de 3 mil pessoas muito diferenciadas entre si.
O ônibus vira por uma rua a oeste e cruza por uma loja de diversos andares.
Ela é barulhenta e cheia de gente de todos os tipos.
Há outra loja atulhada de pessoas a leste da primeira, em direção a área central.
Essa área, chamada “parte alta”, é composta por imóveis à imagem e semelhança das grandes cidades brasileiras.
Na área sul, a “parte baixa” pelo contrário, ficam as construções em estilo oitentista.
Todas alinhadas à rua e, por segurança, grudadas umas nas outras.
Configura um contínuo correr de prédios semelhantes.
Antigamente, a venda de artigos usados era realizada nesses prédios, pelos moradores da comunidade.
Alguns mercados de pulgas mantêm esse hábito antiquado.
Muitas pessoas acabam se desfazendo de seus bens em troca de dinheiro vivo.
É uma forma de refúgio contra os tempos difíceis.
“Troque o velho pelo novo”, diz o governo.
E as pessoas trocam.
As coisas usadas pelo dinheiro para comprar coisas novas.
Abastecendo o mercado de produtos de segunda mão.
Dessa forma, tirando algumas edificações que desabaram por falta de manutenção, o Bairro Vermelho prosperou razoavelmente nas últimas décadas.
Durante a viagem, para distrair, Ângela resolve puxar assunto.

— Você costuma ouvir rock, não é?

Pergunta Ângela.

— Sim. 

Max responde voltando-se para ela.

— Por quê?
— É que quando estava ouvindo música no celular, dei uma espiada.
— Que atenta! Por acaso, também gosta?
— Eu não!
— Não?
— Fico com a cabeça atrapalhada.
— Ouvindo rock?
— Ouvindo música barulhenta.
— Sério?
— É. Meus miolos ficam soltos.
— Nossa!
— E você monta esse tipo de máquina ouvindo esse tipo de música?
— É.

Após ficar por um bom tempo pensativa, Ângela comenta.

— Uma pessoa que monta máquinas e gosta de ficar em casa curtindo rock...
— Tipo isso.
— Para mim, são duas facetas tão diferentes...
— Sabe aquela sensação de alívio quando completa um projeto com sucesso?
— Sente alívio com as duas coisas?
— É. Acho que sim.
— Quer dizer que você normalmente não se sente aliviado?
— Não sei. E você? Sente alívio?
— Na verdade não sei direito o que significa “alívio”.
— Para ser sincero, eu também não sei.
— Não sabe mesmo?
— Eu não.

Os dois adolescentes ficam num silêncio repentino.
Apenas o balançar do ônibus e o burburinho dos passageiros.
Comentários e mais comentários sobre o robô com fones de ouvido.

— Sabe me dizer outra coisa?

Ângela quebra o silêncio dos dois.
Vira-se para Max e fala seriamente.

— Se me disser o que quer saber...

O garoto responde, sem olhar para a menina, diretamente.

— Você queria a bolsa para estudar no CCGM?

Agora, com a pergunta, Max desvia seus olhos para os dela.

— Sem dúvida nenhuma, estudei com afinco para as provas.
— Você estudou num cursinho preparatório ou algo assim?
— Não. Foi enquanto estava numa escola municipal.
— E conseguiu a vaga. De primeira?
— Sim.                
— Você é bom, hein!?
— Nem tanto. E você? Como conseguiu a bolsa?
— Eu não sei se foi por sorte ou questão de destino, mas fiz a prova e consegui minha vaga.
— Então você também é boa!
— Tem diferença. Eu nunca estive particularmente interessada no CCGM.
— Não?
— Não.
— Por quê?
— É um colégio extremamente concorrido... e aceita somente candidatos que alcançam as maiores notas nas provas.
— E você não gosta de concorrência?
— Não gosto é de ter de provar que sou melhor que os outros.
— Sei... E você é melhor que os outros?
— Eu fui a única da minha antiga escola que conseguiu a bolsa, então...
— É... Você foi melhor.

A menina dá um singelo e discreto sorriso.

— Mas, se não estava interessada, porque entrou para o CCGM?
— Pareceu uma boa ideia... e deixou meu pai bem feliz.
— Então você tentou a bolsa pelo seu pai.... Interessante saber disso.
— Não foi só pelo meu pai também...
— Foi por mais quem, então?
— Hum.... Podemos começar o assunto de novo?
— Como assim?
— Vou explicar melhor para você entender...
— Ok. Pode falar. Estou atento.
— Olha Max.... Sei que ainda não nos conhecemos muito bem. Mas como eu estou sentindo uma conexão com você, vou falar dos meus sentimentos agora. Tente não rir.
— Ah, também sinto isso e eu nunca irei rir de você.
— Uhum...
— Verdade.
— Acredito em você. E voltando... eu não quero ser uma formiga, como todo mundo.
— Formiga?
— É. Sabe... passamos pela vida esbarrando uns nos outros, sempre andando no mesmo caminho.
— Como as formigas?
— Sim! Não fazemos nada de desafiador ou verdadeiramente único.
— Eu entendo.... É sempre.... Pare! Siga! Ande aqui! Estude isso! Seja aquilo!
— Você me entendeu Max! Nossas ações são voltadas apenas à sobrevivência.
— Sim... Bom que lhe entendi.
— Toda comunicação que temos é para manter ativa essa... colônia de formigas. Todos os dias. Todos os anos. Até o fim.
— E de um modo eficiente e civilizado. Não é? Nunca incomode e coisas assim.
— É isso! Eu quero vier momentos novos e verdadeiros.
— É por isso que entrou na CCGM?
— Sim! Eu quero desafiar as pessoas. Quero que me desafiem.
— E agora, não quer abrir mão disso?
— Por isso que eu entrei nesse colégio.... Não quero mais ser uma formiga, entende?
— Sim, eu entendo.... Também não quero ser uma formiga.
— Bem... Sabe do que eu sei?
— O que?
— Que estamos chegando ao nosso ponto.
— Ah!

Com a conversa, Max esqueceu-se completamente do ponto.
Se deixassem, seguiria ao infinito ouvindo Ângela falar.
A garota aperta o botão de parar o ônibus.
Pouco depois, desce pela porta de trás.
Max segue junto, puxando seu robô por entre as outras pessoas.
Os três caminham pela quadra para chegar ao prédio onde moram.
Sobem as escadas.
Pelas vidraças molhadas dos corredores, veem a luz cinzenta do crepúsculo.
Impossível distinguir onde começam as cores do céu e terminam as cores das chaminés.

— Vai fazer o que?

Pergunta Ângela na entrada do apartamento de Max.
Está torcendo a ponta de seus longos cabelos com os dedos.
Max dá de ombros.

— Eu não sei. Vou ficar vendo as teias de aranhas crescerem. Talvez trabalhar um pouco.
— Se quiser companhia me procura.

Diz Ângela.

— Adoraria ver a teia de aranha crescer em você.

Max ri.

— Isso sim seria interessante.
— Ah, não.

Ângela discorda com um sorriso travesso.

— Interessante mesmo seria escapar da morte por tédio.
— Tédio é uma palavra que nem passa pela minha cabeça quando eu penso em você.

Afirma Max.
Ele respira pesado.

— É mesmo? Você pensa em mim?

Pergunta Ângela.
Ela sorri lindamente.
O tipo de sorriso que puxa o canto da boca.

— É.

Responde Max.
Um leve rubor se instala em suas bochechas brancas.

— A gente se fala.

Diz apressada.
E continua seu caminho.

— É a gente se fala.

Diz Max.
O robô acena.

— Tchau.

Os dois veem a garota subindo as escadas.
Acompanham os passos até ela desaparecer da visão.
Max suspira fundo.
O robô olha para ele.
Parece entender a situação.
Constrangimento adolescente.
Max guarda o celular de volta no bolso.
Respira fundo.
Pega a chave na mochila.
Prepara-se para entrar no apartamento.


III

— É de mudança que você precisa.

Sentando-se à mesa do restaurante, a mulher latina fala com calma.

— Eu sei que preciso. Preciso mesmo.

A menina platinada responde com mais sinceridade do que deveria.

— Não estou dizendo que sua vida atual seja ruim.... Afinal, eu lhe dou tudo.
— Não é ruim. Não totalmente.

Rebeca também está sentada na mesa do restaurante.
A mulher, logo a sua frente, num belo tailleur vermelho.
No dedo anelar da mão direita, usa um anel de cisne, prata.
Rebeca veste um simplório vestido de vinil preto.
O piercing no nariz e a bolsa prateada dão um brilho ao visual.
Na bolsa, um pingente de crucifixo pende, em metal.
Para completar, botas de cano longo também de cor prata.

— Mas é que... você pode fazer algo muito maior.

A latina volta a falar.
Rebeca responde intrigada.

— Maior do que o que?
— Maior que sua vida.
— Ninguém pode fazer algo maior do que a própria vida.
— Ora menina.... É claro que pode.

Ela faz uma pausa.
Degusta o camarão com cobertura de catupiry.

— É mesmo?

A menina de cabelos platinados também come.
E bebe.
As duas bebem.
Um Bordeaux.
Safra de 2010.
Tem certa elegância.
Um vinho rico em sabor.
Com aroma de frutas vermelhas.
E um toque de tabaco.
O gosto adocicado harmoniza perfeitamente ao salgado.
A comida, Rebeca mastiga com leveza.
Um saboroso pato ao molho de maracujá.
A lâmina da faca desliza sobre a carne.
A coloração ao corte, vermelha.
Na boca, tem textura delicada e sabor marcante.
Vai muito bem com as batatinhas coradas, no canto do prato.

— Há quanto tempo eu sou sua mãe?

A mulher latina limpa a boca com o guardanapo branco.

— Já se passaram 5 anos desde que você tirou a Maria e eu do orfanato.
— Eu lembro daquele dia.... Você era uma menina tão desamparada e tristonha.
— Viver naquele lugar.... Obedecendo aquelas freiras... Era difícil, para mim.
— Posso imaginar... Toda a opressão das freiras e seus santos.
— Eu sempre tive esperança de que iria embora, algum dia.
— Mesmo assim, nunca me chama de mãe. Cadê sua gratidão a mim, que lhe dei uma nova vida?
— Mas é claro que sou grata por tudo que me faz! Sou uma menina afortunada.

Muito afortunada.
Uma órfã como ela jamais jantaria em um restaurante como aquele.
Precisa de uma guardiã poderosa.
Tem de ser deveras afortunada para chegar a tanto.
Ou talvez não seja uma questão de fortuna.
Pode ser apenas de oportunidade.

— Por falar em gratidão.... Estou organizando uma missão. Preciso que a cumpra para mim.
— Uma missão?
— É tudo um segredo. Se você quiser me agradecer, pode ser a oportunidade perfeita.
— Tipo uma espiã?
— De certa forma.
— Eu vou ser o que? A Mata Hari brasileira?

A mulher ri.
Acha engraçada a comparação.
É tão esdrúxula.
A menina faz cara de desgosto.
Desgosto da risada.
Mas não da ocasião.
Para ela, cada garfada no pato é uma vitória.
Assim como esse restaurante.
O Vitória.
Elegante e sofisticado.
Um requintado espaço distribuído em dois pisos.
O restaurante é famoso.
Foi um dos locais prediletos dos militares durante os anos 70.
Num ambiente clássico, os seus clientes podem repousar.
Enquanto desfrutam da vista magnífica para os jardins da piscina.
Tudo encarcerado numa bela estrutura de madeira.
A madeira combina com a cara de pau da resposta da mulher.

— Você não é tão glamorosa quanto a Mata Hari.
— Claro que não. Uma menina como eu nunca seria glamorosa, não é?
— Eu não disse isso.
— É claro que não. O que eu tenho de fazer?
— Você tem a expertise necessária para a tarefa e eu já recebi autorização.
— Autorização?
— Dos meus amigos que precisam dessa... missão.
— Então você trabalha para alguém?
— Sim. Sempre existe alguém maior do que nós.

Rebeca dá de ombros.
Bebe o vinho como se fosse água.
Uma menina como ela nunca teria glamour.

— Bem... eu tenho algum tempo livre fora das aulas...
— E...?
— ... E preciso mesmo de uma mudança.

A mulher não responde.
Não de imediato.
Pega de dentro de sua bolsa, que estava sobre a mesa, um envelope.
É pardo e está cruelmente dobrado.

— Por que tanto segredo? É alguma conspiração?
— Muito mais interessante que isso.
— É?
— Sim. Você vai ter de caçar algo para mim.
— Não tem problema.

Ela desamassa o envelope.
Abre.
Puxa duas fotografias.
Empurra discretamente para Rebeca.
A menina pega as fotos.

— O que é isso?
— Esse é um objeto que... meus amigos desejam muito.

Ela olha de relance para a outra mulher.
A latina sorri de volta.

— Eu só tenho de pegá-la para você?
— Sim. Mas há um porém.
— Qual?
— A peça está dentro da coisa na outra foto.

Rebeca vê a outra foto.
Levanta uma das sobrancelhas.

— Eu teria... de destruir “ele”, certo?
— Provavelmente. Você pode fazer isso, mesmo assim?

Ela pega a taça.
Quer beber enquanto pensa.
Na resposta.
Está vazia.
Ela.
A taça.

— Farei o que me pedir, afinal você me banca, Belita.

Respira.
Decepcionada por não ter o que beber.
É indecifrável saber se Rebeca está preocupada com a tarefa ou não.
A outra mulher acha isso quase engraçado.
Quase.

— É reconfortante saber dessa sua disposição a me ajudar.
— Sou grata a você. É isso.
— Afinal, sou eu que lhe banco, não é?
— É. Paga meus gastos e minha educação.
— Desculpe se quero lhe dar um bom futuro.
— Bom futuro uma ova! Você quer é me usar. Como todas as garotas que tirou daquele orfanato.
— Todas as pessoas são usadas em algum momento. Aprenda.

Rebeca põe a língua de fora.
É uma afronta de moleca.
Agora é a vez da mulher latina respirar fundo.
Não tem paciência para meninices.
Sabe bem que Rebeca não compreende a importância da missão.
Nunca sentirá o real impacto que está prestes a fazer.
A menina arqueia o corpo para trás.
Ajeita o cabelo.
É delicada e provocante ao mesmo tempo.

— No fim das contas, essas lições de adultos não são para mim.
— Não são?
— Sou muito simplória para aprender a ser adulta, sabe.
— Então...?
— Você nos salvou quando tirou a mim e as outras meninas daquele orfanato.
— E banco duas de vocês até hoje...
— Isso também.... Portanto, faço o que for preciso para retribuir.

A mulher inclina-se para frente, na cadeira.
A menina repete o movimento.
Ao mesmo tempo em que fala, olha nos olhos da mulher.
Ao mesmo tempo em que olha nos olhos da mulher, apertam-se as mãos.
O acordo é fechado.
Alma vendida. 


0 comentários:

Postar um comentário