EPISÓDIO OITO - JAQUETAS E ARMAS







I

O céu cinzento e pesaroso da manhã.
O pouco sol que entra pela janela parece esgarçado, exausto.
Max vaga pelos corredores da CCGM e sobe as escadas para o primeiro andar.
Ele chegou cedo essa manhã.
Tem que passar na diretoria, para entregar os últimos documentos exigidos pela bolsa de estudos que conquistou.
Ao entrar no cômodo, uma senhora de cabelos brancos está sentada, digitando algo no computador.

— Com licença. Eu posso entregar isto aqui mesmo?

Max mostra a papelada para a senhora.
A mulher abaixa os óculos.
Olha fixamente para o garoto e depois para o robô, ao lado dele.

— Esse aí é o que caiu pela janela?

Max não acredita.
Até a secretária da diretoria tinha visto o vídeo?

— É. É ele mesmo.

O robô, percebendo que falam dele, põe as mãos na cintura.

— Esse colégio está cada vez pior, mesmo...

A mulher se mostra com um desdém inacreditável.

— Então... esses documentos...

Max oferece os papéis para a secretária.
Ela pega, sem muita vontade.
Coloca os óculos no meio do rosto e lê cada linha.

— Tudo em ordem...
— Ufa!
— Uhum...

Ela pega uma pasta de dentro de uma gaveta.
Joga todos os papéis em cima da mesa, fazendo uma bagunça.
Remexe na pilha e puxa um pequeno papel.

— Assine aqui.
— Claro...

Enquanto Max assina o papel, a porta ao lado da mesa da secretária abre.
De lá, o diretor do CCGM sai da sala solitária.
Quando dá de cara com o robô, recua.
E olha fixamente para ele.
Max percebe na hora.
Termina a assinatura num relance.
Os olhos do diretor são muito pretos.
Brilham como os de uma pequena criatura indefesa perante a máquina.
São notáveis pela gentileza e seriedade.
Num lampejo, ao desviar atenção para Max vislumbra o garoto com intensidade.
Os vívidos cabelos pretos rareiam no cocuruto.
Ele usa um terno em tom marrom para trabalhar.

— Max, eu presumo.
— S... Sou eu.
— É claro que é você.

O diretor sorri.
Estende a mão para cumprimentar o rapaz.
A secretária, com cara de nojo, guarda os papéis.

— Me chamo Falcão. Sou o diretor desse colégio.
— Ah.... É um prazer conhecê-lo, senhor.
— O prazer é todo meu. Não é sempre que tenho um aluno prodígio.

O hálito do diretor é impregnado de cheiro de tangerina.
Bafeja contra a cara de Max com a força de um tufão.

— Não sou prodígio, senhor.
— Um garoto muito modesto, você.

Max nem sabe mais o que dizer.
E nem precisa.
A atenção do diretor é voltada totalmente para o robô.

— É um trabalho impressionante, para um rapaz da sua idade.
— Nem tanto, nem tanto...
— Quer um conselho rapaz?

O garoto assente com a cabeça, timidamente.

— Suas ações podem levar a ruína ou a glória.
— Como assim?
— Venha comigo rapaz. Deixe eu lhe mostrar uma coisa.

Puxado pelo diretor, Max e o Robô descem as escadas.
Dirigem-se ao corredor principal do prédio.
Muito próximo à espalhafatosa estátua de Garcia Mendez, uma série de pequenos retratos estão ordenadamente expostos na parede.

— Veja essas fotografias, meu rapaz.

Falcão aponta casualmente para cada uma das mais de vinte fotografias.

— São nossos ex-alunos. Todos os que realizaram alguma coisa pelo mundo.
— Todos eles?
— Sim. E estes aqui em especial...

Então, ele aponta para um retrato 4 alunos em sua festa de graduação.
Todos elegantemente vestidos, principalmente a única mulher do grupo.
A foto em si não tem nada demais.
Não é maior do que as outras.
Nem tem algum contexto marcante.

— Especial por quê?

Max pergunta honestamente.
Até o robô observa atentamente, querendo entender.

— Eles foram nossos alunos mais brilhantes. Um potencial impressionante.
— Sério? Eu não fazia ideia.
— Muita gente não faz. Ninguém comenta sobre eles aqui.
— Ué... Mas eles não eram os melhores?

O robô leva uma mão ao queixo, imitando um sinal de dúvida que viu na tv. 

— Suas ações impensadas os levaram a ruína.

Max e o robô se espantam pela quebra de expectativa.

— Por isso Max, pense bem no que fará com seu talento.

Max não sabe o que dizer.
O robô, por sua vez, cruza os braços, como se desafiasse o diretor.

— Tenha um bom dia de estudo, Max.

Sr. Falcão, então sorri largamente e sai andando, rumo ao andar de cima.
Max fica pasmo.
Boquiaberto.
Centenas de pensamentos circundam em sua cabeça.
Max é deixado para trás.
Completamente confuso.
Nem dois minutos se passam após o diretor ter saído, Max ouve o sinal tocando.
Os alunos começam a se locomover em direção ás salas.
O garoto também segue para sua aula.
Senta-se na carteira com uma expressão fechada.
Dedica-se a prestar atenção nas aulas.
Enquanto tenta ignorar Rebeca ao seu lado, com seu sorriso delicioso.
E roga pragas para Benedetti por deixá-lo irritado tantas vezes nos últimos dias.
Ele por sua vez, está sentado em seu lugar usual do outro lado da sala com seu profundo tédio em sua face.
Ângela, diferente de outros dias, senta lá no fundo da sala, isolada das amigas.
Tem os olhos vermelhos, como se tivesse chorado muito.
Max pergunta-se o motivo.
Para ele, não há nenhum.
Ângela é boa demais para precisar chorar.
Precisar não, merecer.
O resto das aulas se passa da mesma forma.
Max ignorando a menina Rebeca.
E irritado com Benedetti.
Benedetti entediado com tudo e todos.
Ângela ignorando o mundo.
E o professor, tentando dar aula.

— Mas pode uma máquina, pensar?

Professor Sidney senta-se à mesa do professor, a frente da turma, enquanto explana.

— Esta é a famosa pergunta feita em 1950 por Alan Turing, um dos pais da computação moderna. Turing acreditava que a própria pergunta pode levar as novas definições das palavras “máquina” e “pensar”, propondo também novas definições de inteligência.

— Quais, professor?

Quem faz a pergunta é Carla.
Talvez a única aluna realmente interessada na aula.
Prof. Sidney adora que perguntem.

— Ele propôs um experimento chamado “Teste de Turing”.
— Um teste?

Agora, quem se manifesta é um menino magrinho no fundo da sala, Joel.

— Sim. Uma pessoa conversaria com um computador e com um outro humano sem saber quem é quem. Se a pessoa não conseguir descobrir quem é a máquina e quem é o humano...
— Então?
— A máquina pode ser considerada como sendo inteligente.
— Tipo o robô do Max?

Benedetti pergunta provocativamente.
A resposta não vem do professor e nem de ninguém.
O sinal para o fim das aulas bate.
Max sai da sala o mais rápido que pode.
Joga o material de qualquer jeito na mochila.
Ângela passa por ele como um raio.
Só Rebeca a acompanha.
Max também está cansado e quer chegar logo na casa do tio.
Também, tem medo da pergunta de Benedetti.
A máquina, de certa forma, aprende só de observar o mundo ao seu redor.
Como os humanos fazem com a intuição.
Ela fica mais esperta com o tempo.
O que é fascinante e assustador.
E Max não gosta de ficar assustado.
Então, evita pensar sobre a existência do robô.
Prefere trabalhar apenas na carcaça dele.
Ajuda a esquecer os problemas.
E os problemas estão consumindo suas entranhas.
As palavras do Diretor Falcão, por exemplo, neblinam suas ideias.
Fora a expectativa pela investigação de Ângela fazendo seu estômago girar.
Então larga mão do bom comportamento.
Faz seu caminho em meio à multidão de alunos com pressa.
Quase esquece do seu robô na oficina.
Quando Max chega aos portões, avista o ônibus chegando.
Está longe.
Max vai à direção dele com mais calma.
Quando está chegando próximo ao ônibus, vê uma imponente Mercedes preta.
É aparentemente um sedã muito caro e bem cuidado.
O irritante Benedetti adentra-o.
Max tem um pequeno vislumbre de um homem mais velho no banco traseiro.
Senta ao lado de onde o rapaz toma seu assento.
Max balança a cabeça.
Quantas dúvidas enfiarão na sua cabeça até o fim do dia?
Fica parado um tempo, vendo Benedetti partir.
É o tempo que Ângela alcança o ônibus.
Ela ignora totalmente o amigo Max.
Rapidamente entra no ônibus.
O garoto faz o mesmo.
Acompanhado apenas por suas dúvidas e do robô.


II

O antigo Edifício Nicolas.
Uma construção de quatro pavimentos e sem elevador.
Composto de quatro apartamentos por andar.
Possui linhas arquitetônicas tendo como revestimentos externos, a massa raspada.
O complemento se dá com pedras marmorizadas sobrepostas umas às outras.
Formam recortes e saliências na fachada da estrutura.
Uma discreta ornamentação provém de cobogós.
Servem de ventilação permanente nas áreas de serviço.
Também na geometria curva adotada na laje de cobertura da entrada do prédio.
Sutis presenças do refinamento modernista expresso na construção.
É uma predominante característica da arquitetura dos anos cinquenta.
Com jardins no recuo frontal.
As garagens nos fundos do terreno.
O prédio possui um primeiro gradil baixo.
Composto por uma mureta originalmente construída.
E um gradil que provavelmente foi instalado anos depois de sua construção.
Rebeca olha toda a estrutura, como quem olha para um monumento.
Leva, debaixo dos braços, um embrulho mal feito.
No Edifício Nicolas, encontra-se Bárbara Ferreira.
Uma amiga dos tempos de orfanato que, embora contra vontade, a ajuda vez ou outra.
Na verdade, ela trabalha como empregada doméstica.
Contratada por uma família de classe média bucólica.
O endereço que Rebeca possui é dessa família.
A menina torce para que a amiga ainda trabalhe lá.
Precisa dela.
Por isso está ali, sob o crepúsculo.
Encharcando a alma com a luz do fim da tarde.
Mergulhada na abertura do espectro das cores e suas nuances.
O bairro Cézar, onde está, flagra a urgência de uma sociedade que ferve no fogo.
Tanto do medo, quanto do desejo.
No alvoroço das possibilidades.
Na fricção das contradições.
Os prédios construídos nos idos anos 50 e 60.
Contrastando com as ruas de lajotas recentes e carros modernos.
Os esqueletos de uma classe média em decadência.
Que acha feio o que não é clichê.
E monta o futuro nos moldes de um passado idealizado.
Os moradores que ainda sonham com a prosperidade ilimitada.
Prosperidade que jamais virá sem preço e prazo de validade.
A imagem do bairro oscila.
Tem a estridência de um tom metálico hiper-realista.
Com uma suavidade da aquarela impressionista.
A estridência vem das cores esmaltadas dos automóveis.
O impressionismo, dos adereços do figurino dos transeuntes.
Toda sua realidade superlativa desmanchando no próprio ar.
A beleza é sempre a iminência da ruína, pensa Rebeca.
Ainda que seja sublime.
A beleza da menina.
Ou das construções.
São destinos que não se resolvem.
A menina transpõe o portão aberto.
Dirige-se pelo hall de entrada.
Por sorte, não há porteiro num edifício tão pequeno.
Segue pelas escadas esmaltadas, por três andares.
Ao chegar ao último, o quarto andar, Rebeca segue o corredor até seu fim.
Ouve logo o ruído contínuo de uma máquina de aspirar pó.
A porta do apartamento fica exatamente ao lado de uma janelinha e um vaso de planta.
Rebeca pensa em tocar a campainha ou bater na porta.
Não sabe se vale a pena, uma vez que o barulho do aspirador de pó mascara o som.
Depois de pensar um pouco, a menina arrisca abrir a porta.
Está apenas encostada.
O apartamento possui um ar típico de residências de classe média.
Sua distribuição dos ambientes numa tripartição oitocentista.
Com a tradicional divisão em zonas de serviço, social e íntima.
Segue o padrão onde a cozinha deve ser ampla.
E com copa para receber as amigas da dona da casa.
Um ambiente para uma conversa à tarde ao redor da mesa de chá.
Onde a sala de estar é local destinado às reuniões familiares.
A televisão, um elemento indispensável na sala, possui lugar de destaque.
O quartinho e banheirinho de empregada se mantêm a parte.
Ainda herança da cultura do século vinte.
O apartamento, embora não muito pequeno, é insuportavelmente abafado.
Explicação óbvia para a porta estar apenas encostada.
Rebeca entra.
Ao ver a menina entrar, Bárbara interrompe seu trabalho, assustada.
Desliga o aparelho de aspirar.
É mais velha que a menina, já no auge dos seus 20 anos.
Não tem sua melhor apa­rência.
Uma moça simples, escravizada pelo trabalho.
O rosto cheio de marcas de amargura.
Como se trancasse a dor em um inferno particular.
Os cabelos loiros naturais, amontoados sobre a cabeça.
Bem num estilo antiquado das antigas empregadas domésticas.

— O que veio fazer aqui?

Bárbara pergunta agressiva.

— Nem vem com complicações pro meu lado!
— Já lhe causei complicações?

Rebeca ergue os braços em sinal de paz.
Bárbara larga o cano do aspirador no chão.
Faz um baque que ecoa pelo corredor.

— Na última vez que me visitou, a po­lícia apareceu em seguida.
— Jura?
— Estavam à sua procura. Quase me prenderam.

Rebeca fecha a porta, devagar.
Adentra mais no apartamento.
Usa movimentos calculados.

— Minha sorte foram os meus patrões, que sabem que eu sou honesta.
— Isso é novidade para mim.
— Não sabia que a polícia te procurava?
— Não sabia que você é honesta.

A empregada doméstica não aceita o sarcasmo.
Segura a amiga pelos ombros.
A menina tenta fazer meias desculpas.

— Eu pretendo ficar com vo­cê apenas algumas horas.
— Ninguém a seguiu?

Bárbara larga Rebeca.
Vai até a porta do apartamento.
Abre e olha pelo corredor.
Vê que está vazio.
Fecha novamente a porta, desta vez trancando-a com chave.

— Garanto que não tem ninguém me seguindo. Estou muito alerta.
— Tem certeza?
— Tenho. Seus patrões estão em casa?
— Não.... Estão trabalhando.
— Certeza?
— No que se meteu desta vez Rebeca? Drogas?
— Não. Em algo muito maior.
— Maior?
— Digamos que.... Estou em uma caçada.
— Caçada? Com quem está andando, agora...?
— Garanto que não é nada muito ruim.
— Aposto que tem relação com aquela mulher que te adotou.
— Ainda ressentida por ela ter me adotado?
— Não. Claro que não. Então...?
— Sim. Ela me mandou nessa caçada.
— Eu te avisei que se meter com ela era ruim...
— Não é bem assim... Ela me tirou e a Maria daquele orfanato.

Rebeca senta-se confortavelmente no sofá.
Joga o embrulho sobre as almofadas.
O móvel se destaca no ambiente pela simplicidade.
Suas linhas discretas e com uma cor neutra.
Tem o formato em L.
Cria uma impressão de alongar o cômodo.
Tem a textura macia, de toque suave.
A menina testa as almofadas deitando.

— Tira os pés daí!

Bárbara esbraveja com a menina.
Está protegendo seu emprego ao proteger o sofá.
Rebeca acata a reclamação.
Endireita-se no móvel.
Volta a falar.

— Veja is­to.

Diz, mostrando a arma cor de rosa.
Bárbara reage depressa.

— Se quer que eu guarde essa coisa, não conte comigo.

Rebeca procura tranquilizá-la também depressa.

— Não é isso!
— E o que é então?
— Quero que esconda a arma dentro disso aqui.

Ela mostra o embrulho que trouxe consigo.
Joga para a amiga.

— O que é isso?

Bárbara desfaz o embrulho.
Tem nas mãos, uma bela jaqueta preta.
Vira para olhar a peça de roupa por todos os ângulos.
Decorando toda a jaqueta, várias estrelinhas amarelas.
Bárbara faz uma expressão engraçada de não entender o que é aquilo.
A menina Rebeca, mais séria, pede.

— Faça uma costura bem discreta. Entendeu?
— Depois você pega seu caminho?
— Claro. Mas, enquanto trabalha, vou telefonar.
— Na varanda, o sinal fica melhor.
— Obrigada.
— Não vai levar nem cinco minutos.

Pegando a arma e a jaqueta, Bárbara vai para seu quartinho, nos fundos.
Lá, com uma máquina de costura portátil, começa o trabalho.
Rebeca dirige-se à varanda.
Liga do seu celular para um número que não está na agenda.
Toca duas vezes até que alguém atenda do outro lado da linha.

— Sim?

Rebeca ouve.
Está atenta a sua protetora de vermelho.

— Sou eu.
— Onde você está?
— Longe. Pode falar agora?
— Sim.
— A rosa está sendo colocada dentro duma jaqueta.
— Como? Que rosa?
— A ferramenta que vou usar. Estou na casa da Bárbara.
— Hum.... Ok. Lembro dela. Quando sair daí, venha direto para casa.
— Tudo bem. Não darei sopa para o azar.

Desliga o telefonema do outro lado.
Na cara de Rebeca.
A menina parece não se importar.
Volta à sala burguesa.
Espera Bárbara voltar, no sofá.
Quando a amiga volta, lhe entrega a jaqueta.

— Está pronto.
— Quanto lhe devo?
— Não deve nada.

Apesar da negativa, Rebeca tira algumas notas amassadas do bolso da calça.
Joga o dinheiro sobre a mesinha de centro.
Pega a roupa e a embrulha novamente.

— Obrigada.

Rebeca diz, dirigindo-se à porta.
Bárbara, menos dura, pergunta.

— Não tem medo de se envolver nessas coisas?
— Morro de medo.

Rebeca confessa para a amiga.

— Mas cora­gem mesmo tem que ter para levar uma vida como a sua.
— Como a minha?
— Presa na casa dos outros. Eu não suportaria.
— Um dia vão te pegar.

Adverte a amiga.

— Não existe futuro garantido.

Rebeca sai do apartamento andando com naturali­dade.
Bárbara fecha a porta sem dó.
Por cautela, decide pegar um táxi.
A menininha sempre viveu nas margens.
Chutada por todo mundo.
Essa é sua grande chance.
Não vai decepcionar sua tutora.
É tarde pa­ra voltar atrás.


III

Coloca os fones de ouvido.
Pega a caneca sobre a mesa.
Toma um gole de achocolatado já frio.
Na caneca há uma logomarca.
Um desenho da “Mulher-Maravilha”.
Ângela aperta o botão esquerdo do mouse.
No computador, o programa Rhythmbox inicia sua lista de músicas.
Ela acompanha a melodia de Complicated.
Com Avril Lavigne nos ouvidos, começa a abrir e fechar a mão direita.
Respira fundo e enche os pulmões de ar.

— Max. Vou voltar ao trabalho.
— Ah... Ok. Já está tudo conectado aqui.
— Ótimo.
— Tem certeza que esta bem para fazer isso hoje?
— Estou bem Max. Não se preocupe.
— Como quiser. Só fiquei preocupado.
— Volto quando eu terminar.

Ela desliga o Voiceme.
Depois, muda a conexão mental.
Volta a se concentrar no trabalho.
Novamente se depara com seu problema mais importante.
Descobrir como quebrar as defesas da peça.
Ou seja, revelar os segredos de seu desafio de criptografia.
Descobrir como abrir os códigos do castelo para descobrir o que é a esfera.
Toma para si, essa tarefa.
Descobrir o segredo por traz do documento contido na esfera misteriosa.
A peça que está no robô de Max à intriga.
A existência dela é como um enigma.
Qual é a função da esfera?
Seria mesmo guardar algum tipo de informação?
Talvez alguma informação muito importante.
Algo que se queira manter escondido, já que seu acesso exige senha.
E como ela teria ido parar nas mãos de Max?
Por qual motivo a fábrica enviaria tal peça ao garoto, ao invés da peça correta?
Esses questionamentos deixam Ângela ainda mais curiosa para encontrar respostas.
No momento, a garota trabalha nisso.
Está conectada num fórum de discussão sobre criptografia na rede.
Lá, postou partes do código que deseja decifrar.
Os usuários estão discutindo ativamente sobre a solução do mistério criptográfico.
Depois de uns dias de discussão veio a ideia útil, mas chata, de usar a rotina 22.
Ela explora uma backdoor, uma brecha traseira do código de defesa.
O método indireto pode decifrar o possível código contido no sistema.
A rotina funciona com uma metralhadora disparando tipos de dados definidos.
As estruturas de informação são descritas através de funções dentro da rotina.
Tais funções são baseadas em conjuntos de dados estabelecidos no código alvo.
Mas usar tal linguagem para a tarefa é muito demorada e cansativa.
Ângela continua incentivando novas sugestões dos usuários do fórum.
Alguns concluem que se deva usar uma combinação de rotinas.
Ângela posta no fórum, perguntando qual seria a melhor combinação. 
Os usuários verificam que, de fato, a rotina 22 é melhor combinada com a 13.
A rotina 13 propõe driblar as defesas mais óbvias para ir direto até a chave.
Eles próprios tentam quebrar segmentos do código usando essa combinação.
De fato, as sequências criptografadas reagem positivamente aos testes.
Em verdade, esta pode ser a melhor opção.
Mais uma vez adentra o túnel de conexão direta com o cérebro do robô.
Mergulha pelo ciberespaço, desafiando as possibilidades mentais das espirais logarítmicas que formam esse outro universo. 
Lá, diante do castelo de dados, está o guardião.
Segurando o escudo como seu dever existencial.
É um Cavaleiro Amarelo, reconhece Ângela.
Os Cavaleiros são as camadas de segurança dentro desta aplicação.
As seguranças de um sistema são divididas em uma série de classes.
Elas auxiliam ao programar as rotinas de defesa no sistema.
O Cavaleiro Amarelo é uma classe auxiliar com métodos para criptografia.
Seu escudo, o método em questão.
As rotinas do Icebreaker são justamente para derrotar tais classes.
Com dedos ágeis martelando o teclado, Ângela ativa as rotinas combinadas.
Primeiro, a rotina 13 faz a garota saltar por sobre o escudo antes impenetrável.
Pelas costas do Cavaleiro Amarelo, ela usa sua rotina 22.
Aproveita a backdoor para disparar uma rajada de linhas de comando.
Visam metralhar a classe de defesa e fazê-la em pedaços.
Mas, num revés inesperado, o Cavaleiro se vira desviando.
Ângela suspira longamente.
Pensa rápido.
Reativa a rotina 63.
Desta vez, Ângela usa não no escudo, mas no Cavaleiro.
Avalia os pontos fracos da classe e não do método de defesa.
Com pontos brilhantes nos pés do Cavaleiro, a garota agora sabe o que fazer.
Novamente, usa a rotina 13.
Avança para as costas do Cavaleiro.
Depois, dispara a 22.
Mas, desta vez adiciona a rotina 4.
Isso permite mudar a trajetória dos disparos.
Mira nos pés do Cavaleiro.
Mesmo que a classe se vire, não pode desviar.
E assim acontece.
A classe do Cavaleiro Amarelo está caída.
Seus métodos de segurança: escudo e o desvio tornam-se inúteis.
Não podem mais impedir o avanço pelo tabuleiro, rumo ao castelo.
Tira os fones.
Avril agora só atrapalha sua cabeça.
Inclina o corpo para trás, na cadeira.
Antes das portas do Castelo existe um fosso.
Nesse fosso, pilhas e pilhas de chaves de diversos formatos e tamanhos.
Ângela precisa, agora, descobrir qual é a Key certa para a fechadura do castelo.
Estica o corpo num arremedo de alongamento.
Olha de soslaio para a tela do computador.
No fórum, a última postagem pergunta qual o próximo passo.
De fato, a criptografia estava quebrada.
Foi relativamente fácil, inclusive.
Mas o mistério, ainda não fora solucionado.
Ângela sabe qual o próximo passo a tomar.
Descobrir a chave correta.
Senta outra vez em frente ao computador.
Coça os olhos.
Fixos na tela.
Comenta no fórum o próximo passo.
Não demora até responderem a ela.
Reiteram um detalhe curioso.
O tamanho da fechadura.
Lembram que, além do formato, é preciso pensar no tamanho da chave.
Isso sugere que Ângela tem de fazer o trabalho manualmente.
Não há ICE que a ajude agora.
Então a garota, testa as chaves uma por vez, dentre centenas.
Um trabalho cansativo.
Demorado.
Chato.
Pode levar meses testando todas elas.
É um processo quase de sorte.
E Ângela tenta a sorte.
Por algumas horas joga senhas na base da tentativa e erro.
Uma por uma, falha.
Dúzias de falhas.
Até acertar.
No momento mais improvável, encontra.
A Key que abre as portas do castelo.
As informações da peça estão à mercê da jovem.
E ela estava certa em suas suposições desde o início.
O segredo para o enigma da peça revela-se.
Definitivamente, Ângela descobriu algo.
Parece algo importante.
A garota levanta da cadeira.
Liga o Voiceme e fala.

— Consegui Max.
— O que?
— Entrei na pasta raiz. Eu já sei o que é a peça.
— Ah! Sério? Caramba!
— Eu sou incrível ou não sou?
— Com certeza você é incrível.
— É. Eu sei!
— Me conta o que descobriu!
— Foi difícil Max. Te conto depois.
— O que? Não me deixa na curiosidade! É o meu robô! Por favor!
— Eu sei que você aguenta esperar. Até depois.

E desliga.
Ângela está cansada.
As postagens no seu tópico do fórum também pararam.
Isso impulsiona a garota a virar para longe do monitor.
Sai da cadeira e pula direto sobre a cama.
Estica suas perninhas com gosto.
Tem um monte de coisa na cabeça.
Vai respirando forte enquanto repousa os miolos.
Ás 21:00 da noite, Gustavo chega do trabalho.
Vai até o quarto de Ângela e a avisa que chegou.
Ela cumprimenta o pai.
Já sabia que ele havia chego em casa pelo som das chaves na porta.
Gustavo vai preparar a janta para ele e sua filha.
Trata-se de comida congelada que trouxe da fábrica onde trabalha.
A fábrica de comida processada, que fica no bairro onde mora com a filha.
A comida em questão são duas panquecas.
São recheadas com carne moída.
Cobertas com molho de tomate espesso.
E salpicadas com parmesão mole.
Acompanha uma cenoura refogada no azeite.
Esquenta as panquecas no forno de micro-ondas.
Um cheiro de tempero verde e gordura exalam da refeição.
Transfere a comida do pote plástico original para dois pratos coloridos.
Com a comida na mesa do jantar, Gustavo chama sua filha.
Ela se senta e começa a comer.
O sabor da refeição não é dos melhores.
Mas para Ângela, está ótimo.
Comeu ela quase todos os dias no último ano.
Aprendeu a comer comida congelada com a força do tempo.
Então, Gustavo aproveita o momento e puxa conversa com a filha.
Toca num assunto delicado.

— Meu anjo...

A garota tira o olhar da carne moída e transfere para o pai.

— Eu só queria te contar que estou tendo um relacionamento firme com alguém.
— Eu já sei disso pai.

Dá última vez que falaram nisso, terminou em briga.
E agora, o pai puxa a conversa de novo.
Ângela retesa os músculos do corpo instintivamente.

— Queria muito apresentá-la a você.
— Não quero.
— Eu jamais colocaria outra pessoa no lugar de sua mãe.
— É o que está fazendo, pai.
— Como você mesma pensa, ela é insubstituível.
— Sempre será.
— Mas seu pai não quer viver sozinho para o resto da vida.... Você me entende?

O pai pega na mão da filha.

— Entendo pai.

Na verdade, ela não entende.
Para Ângela, a ideia de uma namorada para o pai é inconcebível.
Como ele estaria sozinho se a filha está ali, do lado dele, todos os dias?
É isso que a garota não entende.
Existem tipos diferentes de companhias.
Uma filha não pode dar o mesmo acalento que uma namorada pode.
E vice-versa.

— Com passar do tempo, o senhor vai colocar essa sua namorada aqui dentro de casa...
— Filha, se você não quiser, eu não colocarei contra a sua vontade.
— Promete?
— Eu prometo.
— Não me parece uma promessa confiável.
— Só queria que você a conhecesse…
— Pai, se não for de minha vontade ter outra mulher aqui em casa o senhor não colocará.

Ângela bate com a palma da mão sobre a mesa.
Franze o cenho num misto de raiva e birra infantil.

— Eu não quero conhecer nenhuma namorada sua.

Gustavo coça a cabeça.
Não sabe como lidar com a filha.
Para ele, a adolescente é intransigente.

— Prefiro nem ver o rosto dessa mulher.
— Mas filha...
— Poderia respeitar a minha escolha?

Larga o garfo que antes estava tentando espetar uma cenoura.
Seu pai responde com certa indignação.

— Respeitar, eu respeito. Mas entender.... Isso eu já não consigo.
— Você nunca me entende. Só a mamãe conseguia.
— Minha namorada é tão legal.... Ela quer conhecê-la.

Gustavo sorri sem graça.
Ângela, quase arfando, responde.

— Só me dê um tempo.
— Tudo bem minha filha.
— Obrigada...
— Eu não quero brigar mais com você.
— Nem eu quero pai.
— Desejo que voltemos a sermos unidos.... Como quando você era pequena.
— Eu também, pai...

Ela dá um sorriso sincero.
Isso anima Gustavo.
Tenta usar o sorriso de gancho.

— E como foi no colégio hoje?

Pergunta animado, o pai.

— Foi normal.

A resposta seca da garota corta a conversa.
O entusiasmo do pai esvai-se nas garfadas.
A comida vai acabando no prato de ambos.
No silêncio.
Sem conversar.
Ângela termina sua janta.
Retira-se da mesa.
Dá um beijo no rosto de seu pai.
Ele responde com um sorriso amarelo.
Ela retira-se para o banheiro.
Gustavo tira os pratos da mesa, cabisbaixo.
Ângela escova os dentes no banheiro.
Coloca seu pijama com estampas psicodélicas.
Ele é o mais quentinho que possui.
Apaga a luz do quarto.
Apenas a luz do monitor a ilumina.
Fica de baixo das cobertas, na cama.
Conectada no celular, navega em suas redes sociais.
De repente, lembra do que descobriu sobre a peça.
Pesquisa algumas dessas coisas.
Não são muitas.
Nem se empenha no que faz.
A conversa com o pai a deixou chateada.
Outra vez.
Com coração pesado.
Bocejando de sono, Ângela desliga o celular.
Coloca debaixo do travesseiro.
Vira-se de lado.
Demora a pegar no sono.
Pois os olhos castanhos de sua mãe não saem de sua cabeça.
Após um tempo consegue dormir. 


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