EPISÓDIO DEZ - PERSEGUIÇÃO IMPLACÁVEL







I

A menina aponta sua arma cor de rosa para o alvo.
No chão, o homem-máquina está retraído.
É um ambiente escuro.
Apenas os leds vermelhos no crânio do robô iluminam o ambiente.
O que torna o escritório escuro são as persianas fechadas na parede ao lado.
O robô no chão é alvo da menina armada.

— Fica parado.

O robô fica.
Não por ela mandar.
Por não saber como reagir.
Não possui dados para uma realidade como essa.
A caça está acuada.

— Eu só quero o que tem dentro da sua cabeça.

A menina aproxima-se devagar do alvo.
Faz a mira com cuidado, bem entre os olhos da máquina.
Engole em seco.
Escuta os barulhos vindos do corredor por onde avançou pouco tempo atrás.
Ela sabe que os seguranças estão vindo.
Vão pegá-la se demorar.
Se isso acontecer, falhará em sua missão.
Isso não pode acontecer.
Mira bem.
Uma gota de suor nervoso desliza sobre a maquiagem do rosto.
Os olhos do robô fixos nos óculos da menina.
Menina e máquina agem ao mesmo tempo.
Por milésimos, o robô é mais rápido.
Num ato de sobrevivência, chuta a menina.
Acerta em cheio, a maçã do rosto dela.
Obviamente, a caçadora cai para trás dando um grito de dor. 
Enquanto está caída, a menina dá dois tiros a esmo.
O robô, na tentativa de desviar, levanta e mergulha.
Joga-se em direção a parede com persianas, ao lado.
Ao mesmo tempo, três seguranças uniformizados da fábrica, aparecem na porta da sala.
A menininha levanta-se com uma mão no rosto e a arma rosa na outra.
O robô atravessa a janela.
Leva consigo persiana e vidro.
Enquanto ele está no ar, a menina aperta o gatilho.
Cinco tiros voam ao mesmo tempo em que o robô está em pleno salto.
No ar, uma das balas acerta em cheio as costas da máquina humanoide.
No instante seguinte, o robô aterrissa diretamente em um tonel de molho barbecue.

SPLASH!
CLANK! 

Os sons de molho e metal embolando-se fazem eco pelas paredes da fábrica.
Os poucos funcionários por perto, afastam-se gritando.
Max surge do nada, correndo e quase sem respirar.
Ele refez os passos do robô o mais rápido que conseguiu.
Demorou apenas por não entender de imediato, o que se passava.
Ele depara-se com vários tonéis de plástico, caídos e muito molho esparramado.
Max ajuda o robô a levantar e sair do tonel.
Demora um tempo, pois a máquina é pesada e o chão escorregadio.
A quantidade de molho melecando o robô também não ajuda.
Entra pelos buracos de bala e vai prejudicando seus circuitos.

— Você está bem?

O adolescente pergunta para sua máquina.
Ele está genuinamente preocupado.

— Avaria. Avaria.

Max vê os dois rombos na lataria do robô.
Um tiro atravessou parte do ombro dele.
O segundo aparentemente está alojado nas costas.

— Eu vou lhe consertar. Não se preocupe.
— Obrigado. Não desmontar.

Max usa seu agasalho para limpar o robô, o máximo que consegue.
Muitos funcionários ficam em volta, ao mesmo tempo admirados e amedrontados.
Max percebe os seguranças da fábrica correndo, do outro lado dos tonéis.
Eles perseguem um vulto de amarelo que xinga todo mundo com uma voz estridente.
Para o robô e Max, o conflito está, definitivamente, encerrado.
Tudo que pode ser feito, foi feito.
Max não duvida um só instante que será declarado o culpado.
Fora da fábrica, uma multidão de curiosos, jornalistas e funcionários.
Uma balburdia sem limites instaurou diante de Max e de seu robô.
Logo os agentes da Segurança Pública estarão presentes.
Isso é potencialmente perigoso.
Mais para o robô do que para Max.
Então, o que resta é ouvir as perguntas dos jornalistas abutres que já aguardam do lado de fora.
Max os vê pela fresta da porta.
E detêm-se alguns segundos.
Não tem vontade de discutir o ocorrido.
Mas as perguntas são inevitáveis.
E ele sabe.
Elas devem ser feitas impiedosamente.
Eis o que é ser um criminoso.
É o que pensa.
Estar diante dos microfones é aterrador.
Max enfrenta os jornalistas por falta de opção.
Endireita-se, pouco à vontade, e tenta sorrir.
Os repórteres e os curiosos atacam os dois.
Os cumprimentam gentilmente, mas com furor.
É tudo constrangedor.
Parece que o robô virou uma celebridade.
De um instante para outro.
Constata Max.

— Uma declaração, por favor!

Dispara o enviado de um dos jornais vespertinos.
Max, com medo, tenta ser amável.
Assim, arma um sorriso nervoso.
E olha o enviado do jornal vespertino bem nos olhos.
Pensa se sobreviverá à sabatina midiática.
O robô, como uma criança, esconde-se atrás de seu criador.
Os repórteres de vários jornais fazem todo tipo de pergunta.
Uma manchete potencialmente devastadora anunciava-se por trás das perguntas.
A balburdia continua durante alguns dolorosos minutos.
Max responde às perguntas.
Uma das mais desconfortáveis vem da repórter da WTV, o canal regional.

— O que é essa máquina?

Para eles, a resposta é a manchete do dia seguinte.
Para Max, a resposta a essa pergunta é além do limite do compreensível.
Acuado, recua.
Fica perto de um homem barrigudo, segurando uma grande câmera filmadora.
O garoto solta uma leve fumaça na respiração do ar frio.
Mas filma o robô e Max, como se fizesse um pequeno filme intimista.
Max observa a repórter pelo canto do olho.
Os cabelos da repórter estão arrumados em cachos caprichosos.
Curiosamente rígidos.
Contrastam estranhamente com seu rosto de queixo volumoso.
Ela usa óculos com aros redondos.
Os dedos grossos.
Seguram um celular com pedrinhas coloridas.
As unhas, com cinco centímetros de comprimento, são pintadas de escarlate.

— Gostaria de dar uma palavrinha com o robô.

Pede ela a Max.
Mas ainda com os olhos na máquina.

— Para dar um toque pitoresco à reportagem de amanhã.

Acua o homem-máquina com seu celular estendido para frente.
Quer gravar as palavras que porventura arrancar do robô.

— Não quer falar? Não quer alegar inocência?

Dispara a repórter.
Max arregala os olhos para ela.
Ao falar suas entranhas reviram desconfortavelmente.
Max está se sentindo realmente aborrecido, agora.
Percebe que a jornalista o observava muito atentamente.
De cara amarrada, ele evita seu olhar.
Abaixa os olhos.
A repórter da WTV pede que ele fique em frente à porta da fábrica.
Faz suas perguntas à parte, diante da câmera.
Ela é mais amável do que realmente quer.
O caso renderá grandes manchetes.
É inevitável
A repórter só quer fazer seu trabalho.
Max e o robô estão desnorteados.
Não sabem o que falar ou fazer.

— MAX! POR AQUI!

Pura sorte.
O grito passa despercebido para a multidão de jornalistas.
Não passa despercebido para Max.
Ele vê, do outro lado da rua, junto de um monte de curiosos, sua salvação.
Ângela, com sua mochila no ombro, acena para o garoto.
O robô também a localiza.
A deixa perfeita.
Num turbilhão, Max e sua máquina fogem para perto de Ângela.
Vão derrubando repórteres e curiosos no processo.
Ângela vai andando apressadamente, abrindo caminho no mar de pessoas.
Max e o robô fazem o mesmo.
Quando se encontram, tomam a atitude mais simples.
Fogem correndo, os três.
Vários jornalistas os perseguem.
Querem a qualquer custo, a grande história.
Entretanto, Ângela, crescida no bairro, sabe os atalhos.
Vai conduzindo Max e o robô por meio de vielas e mais vielas.
Passam por todo tipo de ruas escuras e becos suspeitos.
Depois de uma meia hora, despistam os jornalistas.
Max, muito nervoso, não aguenta mais correr e para.
O robô, com avarias severas, também para.
Apoia-se numa parede rachada.
Ângela, claramente indignada, desabafa.

— Esses jornalistas são uns abutres.
— Nem... Arf.... Me fala... Arf...

Max respira pesadamente e fala nos intervalos.
Aguenta-se em pé só para não fazer feio na frente da garota.

— O que... Arf.... Eu faço.... Agora?
— Me dá um “Obrigado Angelazinha”?
— Obrigado... Angelazinha.
— Com esse agradecimento forçado, podemos fugir daqui.
— É uma ideia... Arf...Boa.
— Certo, mas antes, faça isso.

A garota abre a mochila com um porquinho pendurado.
De dentro, tira um casacão longo e uma saia, também longa.
Joga para o robô, que agarra as roupas sem problemas.

— Vista isso. Vai ajudar a não chamar atenção por onde passar.

O robô obedece com relutância.
Vestido, complementa o visual com um cachecol que põe para esconder o crânio.
Assim, devidamente discretos, saem para a rua iluminada.
Sons de sirenes.


II

Cruzam a rua principal em silêncio.
Max e Ângela, lado a lado em cada passada.
O robô, disfarçado, vai andando mais devagar, atrás dos dois.
Os três nada falam.
Max, sempre de cabeça baixa.
Ângela atenta a cada transeunte pelo qual passam.
O vento frio da noite sopra na direção contrária a que caminham.
Castiga os três desamparados.
Ângela estica a mão.
Tira o cabelo da testa.
Vê uma viatura da Segurança Pública se aproximar.
O carro, um blindado negro percorre a pista com certa pressa.
Ângela puxa Max pelo braço.
Embora discreto, é um puxão com violência.
Dobram rapidamente por uma esquina.
O robô, mais lento, demora a virar.
Mas, quando a viatura passa, não vê as três figuras na noite fria.
Escaparam dessa, por enquanto.
Max e Ângela preocupam-se.
A confusão na fábrica ficou grande demais.
Atraiu a imprensa.
Chamou a atenção de muita gente.
É o segundo incidente público com o robô.
Depois do vídeo e do atropelamento meses antes, a Segurança Pública vai agir.
Certamente, se encontrarem o robô ou Max, tudo ficará bem complicado.
Problemas com a justiça, são problemas sérios.
Levarão o robô para algum tipo de laboratório.
E só Deus sabe o que farão com a máquina, num laboratório governamental.
Finalmente, os três encontram uma forma de sair das ruas.
Talvez, pensa Ângela, seja melhor conversarem sobre o que fazer.
Qual o caminho certo a seguir?
Assim, Ângela os faz parar na frente do Café Costa Rica.
A placa na fachada mostra uma pin-up dos anos 50 segurando uma xícara de café.
O robô admira a luz colorida da placa.
Max olha em volta.
Depois para Ângela.

— Tem certeza que quer parar aqui?
— Precisamos decidir o que fazer.
— Não quero chamar atenção.
— É só ser discreto e me seguir.

Max concorda com a cabeça.
Moradores andam por todos os lados da rua.
Os adolescentes ainda estão parados na calçada.
Ângela olha para Max.
Sua respiração fica pairando no ar da noite.
Parece uma nuvem rala.
Ela diz.

— Melhor entrarmos.

Max abre a porta para Ângela.
Uma onda de calor vem até eles.
Entram os adolescentes primeiro e o robô depois.
O estabelecimento tem uma pequena quantidade de clientes.
A maioria são trabalhadores fora de seus turnos.
Trazem consigo algumas placas pedindo a valorização da mão de obra.
Max reconhece algumas pessoas no café.
São vizinhos do garoto ou clientes assíduos.
Os conhece de tanto comer no estabelecimento junto com tio Walter.
Ângela também os reconhece, mas os ignora.
Olha em volta à procura de uma mesa.
Detecta uma mesa vazia no fundo do café.
Começam a se dirigir para ela.
Sentam.
Max e o robô lado a lado.
Ângela a frente do garoto.
O robô, sob as ordens da garota, retrai-se no banco do café.
Assim, evita que as pessoas vejam que ele é um robô.
Nem Ângela e nem Max sabem se algo vai ser relatado em um noticiário ou não.
Fora que os burburinhos sobre o incidente com o robô, logo chegariam ao ouvido alheio.

— Melhor pedirmos algo.

Ângela aconselha.

— Tem razão.

Max concorda.
O robô apenas os observa, sem se intrometer.
O garoto procura a garçonete de sempre para fazer o pedido.
Mas Palomita não parece estar lá durante a noite.
Provavelmente seu turno é apenas diurno.
Só há uma garçonete no período da noite.
Ela usa o uniforme amarronzado com o logo do café no avental.
Seus cabelos são verdes.
Tem tatuagens tribais nos dois antebraços.
É uma garçonete bonita em sua estranheza.
Há também uma senhora fazendo café atrás do balcão.
A garçonete avança na direção deles.
Sorri automaticamente.
Faz com que se acomodem.
Anota os pedidos.
Max fala o que deseja sem convicção.
Sua voz treme e desafina.
Ângela faz o pedido dela calmamente.
Impressiona o garoto com sua calma.
A garçonete sai para buscar os pedidos.

— Desculpe. Estou nervoso.

Max fala olhando para Ângela.
Ele sabe que ela percebeu sua hesitação.
A garota coloca sua mão delicada nas costas da mão de Max.

— Tenha calma. Tudo vai ficar bem.
— Vai mesmo?
— Robô aqui. Tudo bem.

O robô, num gesto de empatia, põe uma de suas mãos sobre a mão de Max.
A garota sorri com ternura para o homem-máquina.
Max, entretanto, gira a cabeça escaneando os outros clientes.
Está nervoso com a possibilidade de alguém notar o robô.
Logo, o robô entende e esconde a sua mão sob a mesa.
Durante os momentos seguintes, os três permanecem em silêncio.
Em seguida, a garçonete trás os pedidos em uma bandeja de inox.
Entrega para Ângela um suco de laranja industrializado.
Já para Max, uma mistura de café com calda de chocolate.
Tem o creme de leite por cima.
Também para ele, um bolo.
Sua massa é de chocolate.
Com duas camadas de recheio de brigadeiro.
Coberto com brigadeiro derretido.
Enfeitado com confetes coloridos.
É cremoso.
A cada mordida, Max gosta mais e mais.
Ângela, enquanto isso toma o suco com formalidade.
Max, com uma fome nervosa, morde o bolo e engole um pouco de café.
Interrompendo a comilança, Ângela fala.

— O que aconteceu, Max?

O garoto interrompe a mordida que dá num dos últimos pedaços de bolo.

— Eu não sei.... Não sei bem...
— Desmontar. Robô.

Ângela vira-se para a máquina.
Conversa com ela.

— Tentaram... lhe desmontar?
— Sim. Desmontar. Destruir. Matar.
— Hum.... Isso explica as marcas no seu corpo.
— Buraco. Bala. Tiro.
— Atiraram em você, não é? Sabe o motivo?
— Cabeça.

O robô dá um peteleco na própria cabeça.
Um som de metal batendo em metal soa bem baixinho.
Deixa Max ainda mais em alerta.

— Então... atiraram em você por causa da sua cabeça?
— Cabeça.
— Não é por causa da cabeça, Max.

Ângela chama a atenção do amigo para um fato.

— Mas o robô disse que é pela cabeça...
— Não é a cabeça Max. É o que tem dentro dela.

O garoto demora, mas entende o ponto.

— É a.... Peça.
— Sim. Seja lá quem for, queria a esfera dentro da cabeça do robô.
— Mas... por quê?
— Eu não sei o motivo e nem o culpado. Mas isso é sério, Max.

O garoto continua desconfortável.

— Isso não faz sentido algum.

Max recosta a cabeça na mesa, ao lado da xícara.
Fecha os olhos.
Tenta visualizar quem fez o atentado.
Sua memória é confusa para algo tão chocante.
Então, sente alguém tocar na sua mão.
Levanta a cabeça para ver Ângela olhando para ele.
Sorri para ela.
Da maneira mais confiante que pode.

— Você sabe quem fez isso, Max?
— Os tiros no robô?
— Sim.
— Não sei com certeza. Não consigo dar nomes.
— Mas tem alguma ideia?
— Foi uma garota. De jaqueta e óculos escuros. É o que lembro.

E a garota sorri para ele mais uma vez.
Max sente como se tivesse sido pego pelo sol da primavera.

— Entendo.... Então foi uma garota.... Que inusitado!
— Inusitado?
— Bem.... Eu tinha uma ideia de quem poderia ser.... Mas se foi uma garota...
— Como assim? Explica direito.
— Eu tinha uma teoria.... Mas ela meio que caiu por terra, agora.
— Qual a sua teoria de quem seja?

A garota toma o resto do suco.
Faz essa pausa para juntar as palavras certas.

— Lembra que eu decifrei o que tinha na esfera?
— Eu lembro... você não quis me contar até agora.
— Então. Eu meio que queria ter certeza primeiro.
— Sobre o que!
— Sobre o que eu descobri.... Não é bem o que esperávamos, mas pode ajudar.
— Não é a origem da esfera?
Não, não. É um código fonte.
Como?
Na verdade, a esfera é uma espécie de cérebro super avançado.
O que?
Não é como os cérebros positrônicos que temos hoje.
É mais avançado?
Muito mais. Eu nem pude entender direito como funciona.
Minha nossa!
O código que estava na pasta raiz é, a grosso modo, uma IA.
Uma inteligencia artificial?
Sim. Eu não consegui entender muito bem, mas ela está parcialmente ativa.
Como assim, parcialmente?
Obra sua. Acho que quando você pôs a peça no robô, ativou uma parte dela que se mesclou com o seu código.
Ah... Por isso o Robô consegue aprender e não segue a minha programação...
Exatamente.

A menina faz um sinal para a garçonete.
Pede uma água mineral sem gás.

— Eu também descobri um nome. É dele que eu suspeitava.
Um nome?
Sim. Uma espécie de assinatura nos comentários do código da IA.
Certo...
Eu pesquisei o nome na internet esse tempo todo. Doutor Marco Santana.
Porque demorou tanto para me contar?
Eu precisava de um tempo para pesquisar e ter certeza.
Entendo.. E o que descobriu?
Aparentemente esse é o nome de um ex-funcionário da Harmony.
Ex-funcionário?
Sim. Ele trabalhou em um projeto chamado “Futuro”.
É mesmo?
Sim! Mas, aparentemente, esse projeto foi cancelado no fim do ano passado.
Sabe o motivo?
Não encontrei nenhuma explicação.

A garçonete tatuada trás a água.
Angela abre.

Mas encontrei um endereço.

Bebe a água direto do gargalo.
Ela está empolgada.

Endereço? Onde?
Fica aqui mesmo, em Santo Mar. Não é uma sorte?
É mesmo?
Sim! Um bom motivo para irmos lá investigar.

Ângela olha para Max.
Depois olha em volta do café.
Para os rostos que olham suas próprias comidas.
Ela fala para ele.

E com que fim?
Descobrir tudo sobre essa IA.
Mas a troco de que?
Max... Alguém atirou no seu robô a poucas horas atrás.
Viu! Mais um motivo para não irmos investigar!
Não! Isso praticamente implora por uma investigação!

Max termina o bolo e o café.
Ângela intercala a fala com a água que bebe.

Então? Vamos?

Max exaspera-se.
Alguns clientes que ainda estão no café, viram-se para a mesa dos adolescentes.
Ao mesmo tempo, numa televisão ligada na parede do balcão, o noticiário.
Mostra uma chamada para o incidente na fábrica de comida congelada.

Será que vão passar alguma imagem sua?

Max não faz à mínima ideia.
Não sabe o que responder.
Sente o sangue quente tomar seu rosto.
Ângela ri de maneira deliciosa.

Calma. Já vamos sair daqui.
Não antes de me dizer onde é o tal endereço...
O Doutor Marco mora em Alphaville.
Alphaville?
É um bairro no sudoeste da cidade.
Certo.

A garota se levanta.
Tira uma carteira do bolso da mochila.
Vai até o balcão pagar o lanche.
Max entende o motivo da garota ir pagar.
É para protegê-lo junto do robô.
Evitar que Max chame a atenção.
Ainda não sabem como está a situação deles.
Ângela faz sinal para irem embora.
Max e o robô obedecem.
Saem os três, para a noite fria.

— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Por que o bairro se chama Alphaville?
— Hum.... Por que será? Não sei.

A garota dá de ombros.
Ela não se importa.

— Alphaville é um dos filmes do Jean-Luc Godard.
— Nunca ouvi falar.

Começam a caminhar pela área mal iluminada da calçada.

— É um filme bem antigo. Lá dos anos 60.
— Ah! Devem ter tirado daí. Por quê?

Ângela pergunta.
Max diz.

— É o nome de uma cidade imaginária. Do futuro.

Uma viatura da Segurança Pública passa pelos adolescentes.
Não os vê andarem no lado escuro da calçada.

— Então é um filme de ficção científica?
— Não sei explicar direito... é preto e branco e com muitas falas.

Fazem uma curva.
Seguem por um beco sem iluminação.

— Em Alphaville, as pessoas que choram são presas e executadas em público.

Ângela olha para Max, incrédula.

— Que horror! Por quê?
— Porque em Alphaville as pessoas não podem ter sentimentos profundos.

Saem do beco para uma rua bem clara.
A um quarteirão de distância, o prédio onde moram.

— Lá, tudo é resolvido na base da lógica.

Ângela franze a sobrancelha.
A garota pensa um pouco sobre a explicação de Max.

— Eu não entendo o que importa um filme antigo, agora.
— Estava pensando...
— No que?
— De que tenho de ser lógico, como em Alphaville.
— Ou você será preso.
— E executado.

Ângela olha para Max.
Morde o lábio inferior.
Então assente com a cabeça.

— Eu tenho uma ideia.
— Qual?
— Vamos até lá, agora.
— Até lá onde?
— Alphaville. Falar com o Doutor Marco. É a única pista que temos.
— Vamos? Você está doida para fazer isso, não é?
— Claro que sim! Já estou nesse mistério faz tempo... E eu sei quem mais pode nos ajudar.
— Quem?

A garota pisca de um olho.
Saca o celular do bolso da calça.
Procura um número.
Na tela, um nome.
Contato.
Benedetti.


III

Noite.
Paredes curvas convergem-se.
Formam um loft.
Erguido numa antiga fábrica de manteiga.
Uma escada esculpida em mármore, fixada no ponto de convergência no espaço.
Gira dramaticamente e sobe em direção a uma plataforma no telhado.
Lá de cima, tem-se a vista do centro da cidade de Santo Mar.
Dentro, um palato monocromático de branco sobre branco com carvão e preto.
Joga com a luz abundante, que entra por uma grande janela situada no fundo da sala.
O caleidoscópio de cores vindas dos néons da cidade gruda sombras nas paredes.
Azul.
Verde.
Roxo.
Benedetti, parado na sala, banha-se nas cores que se revezam ao cobrir o loft.
Sob os seus pés, o assoalho de carvalho brilha a luz multicolorida que entra.
Na sala, uma enorme réplica do David, de Michelangelo, guarda as portas do local.
Estas portas, de correr, criam a oportunidade para expandir o ambiente.
Depende de como o espaço do lugar é utilizado.
Quer seja como um estúdio, um quarto ou para entretenimento.
O rapaz está parado diante de uma porta dupla.
A mão apoiada na maçaneta.
Tem o olhar carregado.
De uma intensidade inexplicável.
Espera por uma coragem para emergir.
Mão imobilizada na maçaneta.
Ele parece esperar uma resposta.
Para uma pergunta imaginária.
Será a coisa certa a se fazer?
As consequências podem ser severas.
Tomar decisões sérias para Benedetti é algo terrificante.
Fecha os olhos por um segundo.
Sente as luzes dos néons cobrirem-no.
Sob a cor verde, o rapaz gira a maçaneta.
Entra no escritório.
Lá dentro, um homem está escrevendo sobre uma escrivaninha de teca.
O ambiente é escuro, apenas com uma luminária dando suporte para o que é escrito.
Benedetti sabe que o pai nem percebeu sua presença.
O pai é muito magro.
Quase esquelético.
Seus olhinhos pretos, muito fundos.
Emana uma atmosfera sombria.
Parece espalhar por todo o rosto.
A face encaveirada.
Parece chupada para dentro do corpo.
Os lábios e o nariz são finos.
O pouco que resta dos cabelos, é preto.
Como os olhos e as olheiras do homem.

— Pai...?

O homem nem esboça movimento.
Age como se o filho não estivesse na mesma sala que ele.

— Será que... eu posso conversar com você?

O pai, lentamente levanta a cabeça.
Fala com Benedetti.

— Agora?
— Sim.

Ele respira longamente.
Continua com a caneta em punho.

— Eu estou ocupado. É tarde e ainda tenho trabalho a fazer.

O rapaz, bastante intimidado, olha para o chão enquanto fala.

— Eu sei, mas... é sobre aquele assunto.

Ouvir as palavras do filho o faz sorrir.
Um sorriso explosivo, que transborda confiança.

— Tem boas novidades?
— Eu.... Tenho algumas.

Larga a caneta sobre os papéis na escrivaninha.
O pai dá total atenção às palavras do filho.

— Então me diga.
— Me ligaram agora.... Eles vão atrás do segredo da peça. Querem a minha ajuda.
— Eles quem?
— O Max e a Ângela.
— Então, decifraram o código da peça?
— Parece que sim.
— Muito bem...

O homem se levanta da cadeira.
Agora, encara o rapaz a sua frente como um rei encara seu súdito.
A relação frágil, de pai e filho, desmorona.
Benedetti não tem força para olhar o pai nos olhos.

— Vá com eles.
— Eu?
— Você. Preciso que aquela peça chegue as minhas mãos.
— Eu sei, mas...
— Quando pegarmos à peça, a devolveremos para a Harmony. Assim finalmente passarei a rasteira naquela mulher.
— Pai eu não quero...
— Filho... É importante para mim. Então, é importante para você também.

Benedetti, com uma vontade que não pode superar a do pai, conforma-se.

— Está bem... Pai.

O pai dá a volta na escrivaninha.
Vai, de mão estendida, tocar nas mãos do filho.
Tenta, de alguma forma, mostrar ternura.

— Filho, o mundo lá fora... é tão implacável quanto uma selva.

Sua mão é seca e lisa.
Como a de uma estátua.
Aperta a mão de Benedetti com força.
O rapaz sente a pressão subir pelo antebraço.
Não há ternura real na ação do pai.
Ele quer mostrar quem está no comando.

— Pessoas são ferramentas, não se deve confiar nelas.
— O senhor já me falou...
— Logo você será um adulto...

Fita Benedetti por um instante.

— E, quando isso acontecer, você estará sozinho na selva.

Os lábios do homem repuxam para um dos lados do rosto.
Fixam-se em seguida, por um instante, num sorriso.
Um sorriso claramente cínico.
Aperta a mão do filho ainda mais forte.
Faz o rapaz sentir dor.
Obriga Benedetti a lhe encarar, olho no olho.

— Certifique-se de que você é o leão, o rei da selva.
— Está bem.
— Não deixe que seja o contrário. Não seja o rato.

Larga a mão do filho de maneira abrupta.
O pai volta a sentar-se atrás da escrivaninha de teca.
Abre os botões da camisa.

— Por isso carrego isto. Como uma lembrança.

No peito carcomido do homem, uma tatuagem de leão, já meio desbotada.
O filho vê a tatuagem com muito asco.

— Sempre achei que era só uma marca boba...

O rosto do homem se contrai.
Está mais sério do que nunca.

— Não, filho...

Começa a abotoar a camisa.

— .... É um símbolo.

Benedetti sente o vento uivar pelo vão da vidraça.
Atrás dele, o mundo frio dos ratos.
À frente, o leão adormecido. 



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