EPISÓDIO TRÊS - NOITE ADENTRO






I

— Meu Deus!

O grito quase se perde.
Na poluição sonora.
E fumaça da rua.
Erguem-se para receber Max.
O garoto pôs a cabeça para fora da janela do quarto.
O ar gelado da noite estapeia seu rosto com suavidade.
Serve para expulsar o ar envelhecido no quarto do garoto.
As luzes dos prédios cintilam intensamente contra o céu negro.
Max vê, cinco andares abaixo, o robô caído.
Um Fiesta com o teto esmigalhado pelo peso do robô.
O apito sonoro do alarme do carro disparado.

— Você está bem?

Max fala.
Enche os pulmões com o ar sujo da cidade.
Precisa fazer mais uma coisa.

— Por favor, não esteja quebrado! Você está bem?

O robô continua imóvel.
As luzes do Fiesta quebrado, piscando incessante.
Os olhos vermelhos, estáticos.

— Diga algo!

Aos poucos, os vizinhos vão colocando suas cabecinhas sonolentas para fora das janelas.
O garoto começa a ficar preocupado com a repercussão.
Não quer chamar a atenção.
Infelizmente é tarde para tentar evitar isso.
Todas as atenções já se voltaram para a máquina que caiu da janela.
Ao mesmo tempo em que os moradores tentam entender o ocorrido, o robô se manifesta.

— Max.

Quem é aquela coisa de metal jogada sobre o carro?
Carro, aliás, que o Sr. Gustavo do 602 anuncia aos berros que é seu.
Era, pois não resta muito do Fiesta.

— MAX!

Com todo o alvoroço, o tio de Max finalmente se dá conta que algo aconteceu.

— Como sou burro!

Max leva as mãos ao rosto.
É visível seu nervosismo.

— Burro. Idiota. Ingênuo. Bobo.

O robô caído se manifesta sobre Max.
São falas muito apropriadas para o momento.
Até demais.
Nervoso com seu tio entrando pela porta do quarto, Max rebate o robô.

— Cale a boca!

Os primeiros moradores já desceram para o estacionamento do prédio.
A máquina responde.

— Cale a boca. Silêncio. Calado.

Com o robô ainda imóvel sobre o carro, os vizinhos começam a mexericar.
Especulam com animo considerável o ocorrido.
Apontam para o garoto na janela.

— Basta! Chega!

Max fala para o robô e para os vizinhos lá embaixo.

— O que você aprontou Max?
— Nada tio!

Walter está bufando de nervoso.
Veste apenas o seu pijama de flanela com as pantufas de onça.
A barriguinha flutua conforme o tom de indignação sai com a sua voz.

— O que diabos você jogou pela janela?

Nervoso, Max anda de um lado para o outro, em frente à janela.

— Eu não joguei. Juro! Ele caiu!
— Ele?
— É! Meu robô!
— Seu o que!?
— Robô.

Max fala como se fosse à coisa mais simples do mundo.
Lógico que para o tio, é um absurdo completo.
Enquanto ele olha pela janela, lá para baixo, resmunga.

— O que é que você fez!?
— Eu sou o cara mais idiota do mundo, ok? Foi um acidente!
— Cara mais idiota do mundo. Chato. Bobo. Pé no saco.

Óbvio que o robô responde ao garoto.
Só deixa Walter mais furioso.
E os comentários dos vizinhos, só pioram.
“Ei! O que você está fazendo?”.
“Vai assustar meus bebês, seu palhaço!”.
“O síndico tem que tomar alguma providência!”.

— Você tem de fazer algo, Max.
— Eu irei ajustá-lo!
— Ajustar? Dados.

Com a máquina falante, tio Walter olha sério para o sobrinho.

— É melhor ajustar. E rápido.
— Vou desmontá-lo. Descobrir o que está acontecendo de errado.
— Desmontar. Desfazer. Desmantelar. Dissecar. Desconjuntar.
— Vai Max. Desce e dá um jeito nessa... Coisa.
— Isso. Ok.

Sai às pressas do quarto.
Antes, por puro extinto, pega o celular e guarda no bolso juntos dos fones.
Longos minutos se passam até o garoto descer os lances de escada para o térreo.
Para piorar, no caminho, atropela uma garota.
Ela capota por dois degraus.
Max não tenta ajuda-lá a se levantar.
Apenas corre esbaforido.
Ela comenta que mora no andar superior.
Pelo que ele percebeu, a garota queria um pedido de desculpas.
Percebeu pouca coisa, no entanto.
Tem um pouquinho de pressa.
Quando chega ao térreo, tem de abrir espaço entre a multidão de vizinhos.
O robô já está de pé, sendo tocado por várias crianças e velhotas.

— Você está ai!
— Max.

O garoto passa os dedos pela carcaça da máquina.
Dá a volta no humanoide para verificar se não há estragos.
O Sr. Gustavo dá a volta no Fiesta e vê os estragos.

— Borboleta, inseto voador.

Brincando com uma recém encontrada borboleta, o robô parece uma criança.
Uma criança bem grande e espalhafatosa.
Deixa a borboleta repousar na palma de sua mão.

— Isso é ótimo. Certo.

Nervoso, Max nem dá muita atenção.
Começa a puxar sua criação pelos braços.
Quer levar logo para longe dos curiosos.

— Tudo bem, vamos voltar. Venha.

O robô, indeciso, retém o passo.
Max puxa.
Com mais força.
O robô não gosta.
Faz o movimento contrário.
O garoto resiste.
A máquina desafia seu criador.
Tem um comportamento semelhante a estar zangado.
Embora seja um robô e não tenha a habilidade de se zangar.
De qualquer forma, cerra os punhos.
Trava os pés no chão.
Não quer ir a lugar nenhum.
Quer brincar com a borboleta.
Borboleta que acaba de esmagar, quando fecha a mão.

— Droga! Seu desastrado! Olhe o que você fez.
— Erro.

O robô esquece Max.
Abre a mão.
Vê a borboleta esmagada.

— Borboleta desmontada.

O garoto para de puxar o robô.

— Consertar.

Cutuca com o dedo de metal os restos da borboleta.

— Consertar.

Max segura a mão robô com ternura.

— Não pode consertá-la. Está morta.
— Morta?
— Isso. Morta.
— Consertar, Max. Consertar.
— Sei que não entende...

Suspira bem fundo.
As pessoas em volta se entreolham.
A cena é estranha demais.
Para todos, menos para a menina que caiu na escada.
Agora filma tudo com seu celular.
Ela está achando muito legal, o diálogo entre criador e criatura.

— Quando se morre, não tem volta.

A máquina vira a cabeça para o lado.
Seu crânio sorridente fica mais melancólico.
É um efeito da má iluminação do local.
É o que Max pensa.
E responde.

— É assim que funciona. A morte é para sempre.

O robô olha para a própria mão.
Olha para Max.
Parece pensar.

— Esmagado, morto.

O garoto concorda com um aceno de cabeça.

— Desmontado, morto.

O robô repete a fala outra vez.
Está processando a informação.

— Desmontado, morto!

É a conclusão do robô.
Raciocina os dados que obteve.
Agita-se.
Vira para todos os lados.
Anda em círculo.

— Calma.
— Não desmontar.

A máquina humanoide avança sobre os moradores que estão em volta.
Todos, mais por cautela que por medo, abrem espaço.
O robô sai andando agitado.

— Aonde você vai?

Max começa a seguir os passos do robô.
O robô olha para trás.
Os olhos vermelhos encaram Max.
Estão vacilantes.
O garoto tem certeza.

— Fugir!
— Meu Deus!

Max não entende.
Estaria o robô com medo?
Ele pode sentir medo?
Ele pode sentir?
O robô apressa o passo.
Não há mais nada a lhe prender.
Nada a perder.
Atravessara um mar bravio.
E a barca que o levou, quebrou-se depois de sua passagem.
Não há como voltar.
É uma liberdade que passa há conhecer.
Por isso, corre.
Corre muito.
Velozmente.
Sem rumo algum.
Vaga sem destino.
É semelhante há percepção de que não há volta.
O robô chega à conclusão de que é uma espécie de libertação.
A liberdade de estar vivo.
Max corre atrás.
Devagar.
Mas constante.
Respira pela boca.
Frio infernal.
Para o garoto.
O robô não sente.
O frio não lhe afeta.
Ele corre muito rápido.
Tudo vai passando.
Através da visão de quem corre.
Fachadas se alternam.
Pequenas lojas.
Pequenas portas.
Prédios comerciais.
E residenciais.
Blocos de três ou quatro andares.
Pessoas pobres por toda parte.
Múltiplo.
Ubíquo.
Placas de plástico.
Placas de gesso.
Placas de papelão.
De néon.
Postes.
Molduras cobertas de lampadinhas.
Pisca-pisca.
Começa a chover.
Carros andando de lá para cá.
Ruas movimentadas.
Perseguição quase perdida.
Max vê apenas um pontinho metalizado.
Bem lá na frente.
Quase longe da sua visão.
Começa a ziguezaguear os carros.
O robô invade a pista dos automóveis.
Desvia deles com assombro.
Parece cada vez mais deslumbrado com tudo o que vê.
Desacelera.
Desvia dos carros.
Salta.
Rola.
Corre de novo.
Pelo meio das pistas.
Max só persegue.
Demora a chegar ao mesmo caminho do robô.
Não tem a agilidade da máquina fujona.
Para no meio fio da calçada.
Passam os carros.
Avenida movimentada.
O robô torna a fugir.
Parece brincar enquanto desvia dos veículos.
Max está assustado.
Teme pela sua criação.
E teme tentar atravessar.
Está uma confusão.
Os carros desviando da criatura no meio da avenida.
Demora, mas acontece o óbvio.
Um carro freia.
Gira o volante.
Desvia do robô.
Invade a calçada.
O carro que vinha logo atrás freia com tudo.
Aquele que o precede não tem tempo de frear.
Bate em cheio.
Max percebe o problema.
Um carro bate atrás do outro.
Alguns tentam desviar.
Não funciona.
Batem também.
Desta vez num poste.
Max não sabe o que fazer. 
O robô esquiva dos vários acidentes.
Mas vai ficando assustado.
Cada vez mais.
Parece muita confusão para ele compreender.
Dados violentos demais, talvez.
O garoto se arrisca.
Joga-se na avenida.
Desvia de alguns carros mais lentos.
Quer alcançar sua máquina e tirá-la do perigo.
Mas demora muito.
Estava longe.
Chega tarde.
Max apenas vê uma minivan atropelá-lo.
O robô vai arrastando debaixo das rodas.
Solta um barulho ferrenho de metal contra asfalto.
Trilhões de faíscas por todos os lados.
Max grita.


II

Já passa da meia noite.
Um ônibus está indo na chuva pesada.
Percorre as luzes da cidade.
Cada cor de cada luz passa como um borrão.
Deixadas para trás, sem significado.
Max está sentado no banco do ônibus noturno.
Tenta fazer o caminho de volta para a casa do tio.
Depois de tudo, fugiu da confusão.
Antes que o vissem e começassem a fazer perguntas.
Foi muita sorte sua ter alguns trocados no bolso para o ônibus.
Vê as luzes passando borradas através do vidro molhado da chuva.
Em seu colo, segura o dorso superior do robô como se fosse um filho.
As pernas da máquina, cuidadosamente sentada no assoalho do veículo.
Os olhos vermelhos do robô, igual aos do garoto, vidrados nos borrões coloridos.
Seu corpo, totalmente arranhado.
As placas de silício que o envolve estão partidas.
Muitos fios em curto, saindo pela sua cintura.
O rosto de Max está mais pálido que o normal.
Na dor, estão juntos, máquina e garoto.
E também, estão imensamente distantes.
Max compensa a distância.
Ouve música em seu celular.
The Order Of Death.
Um som pesado e persistente.
Public Image Ltd em sua melhor forma.
“This is what you want”.
“This is what you get”.
O ônibus está lotado de passageiros.
Estranham o garoto com a máquina.
O robô olha, de vez em quando, para os outros passageiros.
Isso causa uma estranhesa aguda em cada um deles, no tempo da viagem.
E, tal como o tempo passa, os passageiros descem um após o outro.
Finalmente, Max está sozinho.
Somente a máquina o acompanha.
Partida.
O veículo fica lotado de passageiros novamente.
Está escuro.
A noite continua sua passagem.
Chove como um lamento de Deus.
Para Max, Deus é como sua mãe.
Distante demais para poder lhe encontrar.
O ônibus da madrugada é para aqueles que estão perdidos.
Como o momento exato entre o inferno e o desespero.
Antes de chegar ao desespero, a música que Max ouve é interrompida.
O toque do celular vai direto nos ouvidos do garoto.
Alguém lhe liga na madrugada.
O que é uma surpresa.
Não tinha dado o número de celular a ninguém.
Praticamente ninguém.
Só deve ser uma pessoa.
Para ligar em tal hora.
No celular tocando, sua mãe é quem está ligando.
Atende.
Max olha para a chuva enquanto fala ao telefone.

— Como está Max?

A voz de sua mãe, apesar do chiado na ligação, soa preocupada.

— Estou... bem, mãe.
— Tem certeza?

Pela voz inquisidora, ela deve saber de algo.

— Certeza absoluta.
— Não foi o que ouvi falar, Max.

Definitivamente, ela sabe de algo.

— Estou bem, mãe. Não se preocupe.
— Seu tio ligou Max.
— Ah...

Agora, só resta ao garoto tentar contornar a possível bronca.
Pensa que, talvez, vir à cidade grande pode não ter sido boa ideia.

— Algo deu errado em algum dos seus projetos, não foi?
— Não é que deu errado mãe...
— Não?
— Só saiu um pouco do controle.
— Seu tio disse que quebrou um carro, Max.
— Meu projeto se quebrou mais.
— Se as coisas aí estiverem ruins, eu e seu pai vamos lhe buscar.
— Não mãe. Não precisa.
— Tem certeza?

Max suspira.
Não tem certeza.
Pega o robô lhe olhando nos olhos.
Quase como se a máquina ouvisse toda a conversa.

— Tenho mãe.

A operadora telefônica intromete-se na conversa.
Sua voz gravada, doce e humana, arrepia o garoto.

— Por favor, insira 10 créditos para continuar.

Inserir créditos?
Passa uns milésimos de segundos para Max pensar.

— Mãe, onde está seu celular?

Num posto de gasolina, Elisabete fala de um telefone público.
Ao fundo, Otávio e um atendente, trabalham no motor do Del Rey.
Ele e a esposa haviam saído para jantar, mais cedo.
Resolveram dar uma esticada na noite.
Até o carro afogar em uma estrada secundária.
Ao mesmo tempo, a mãe recebeu a ligação de Walter.
E o celular perdeu o resto de bateria.
Sem possibilidades de carregá-lo.  

— Ok, eu admito. Perdi o carregador.
— Perdeu?
— Ele fugiu de mim. Correndo. Eu literalmente odeio tecnologia Max.
          
Max sorri.
Sente falta da sua mãe.
Sente falta da inaptidão dela com tecnologia.
É quase um contraste do garoto.

— Agora, me diga algo sobre essa cidade, bebê.
— Mãe... Não sou um bebê.
— Foi força de expressão.
— Eu sei. Eu sei.
— Como são as pessoas aí? Há alguma garota bonita?
— Eu cheguei hoje. Não deu tempo de ver.

Uma leve mentira.
Viu os seus vizinhos sim.
Assustou-os.
E bastante.
Também tinha uma garota.
Talvez ela seja do andar de cima.
Linda.
          
— E o Walter? Seu tio está sendo bom para você?
— Ele é legal.
— Legal? Meu irmão é o sujeito mais chato do mundo!
— Ele me trata bem.

Uma voz soa pelo auto falante do ônibus.
Faz um anúncio burocrático.
Saídas do lado direito na próxima parada”.
Muito obrigado por você tomar o ônibus da linha 3”.
Este ônibus vai estar fora de serviço neste terminal até o amanhecer”.
“Todos verifiquem caso deixem qualquer coisa para atrás quando sairem do veículo”.

Mãe.... Eu tenho de ir.
Está me despachando?
Mãe... É tarde. E amanhã tenho meu primeiro dia de aula.
Está bem Max. Mas prometa que se precisar, irá ligar?
Eu prometo. Manda um abraço para o pai. Tchau mãe.
Tchau Max.

Deu para ouvir o pai dando tchau, distante.
Desliga o telefone.
Suspira.
A chuva cai.
Vagando, chegam a linha final.
O garoto e seu robô não tem mais para onde ir.
Ao menos, não naquela noite.
Max fala.

Eu devo voltar.
Voltar. Casa.

O robô responde.
É inesperado.
Ele passou as últimas horas calado.

Não vou voltar para minha casa. Vou para a casa do tio Walter.

Max tenta explicar.
Parece meio absurdo explicar isso para um robô.

Qual casa... É de Max?

O garoto não sabe responder.
Se limita a resmungar.

Eu não sei.

Ficam em silêncio.
A chuva cai.
Forte.
Noite.


III

Uma xícara de café quase transbordando.
Tem um aspecto brilhante.
Max o encara por alguns segundos.
Segura a xícara.
Assopra o vapor, com leveza.
Leva aos lábios.
Bebe devagar por causa da quentura.
O café é bem equilibrado entre o sabor doce e o ácido.
Possui um aroma suave de ramos florais.
Engole cada gota do líquido escuro.
Estala a língua entre os dentes.
O gosto lembra gotas doces de chocolate e caramelo.
Põe a xícara de café novamente no pires.
Max encara seu tio.
O tio encara de volta.
Walter divide a mesa com Max.
Só os dois.
O robô ficou sobre a cama de Max.
A bateria mal carregada arriou.
Agora, o robô dorme, enquanto Max vive.
Ele e o tio estão no Café Costa Rica, nesta manhã.
É a cafeteria que fica duas quadras da fábrica de comida.
Faz duas décadas que ela existe, servindo os trabalhadores e suas famílias.
Um lugar agradável.
Une o rústico ao moderno.
Lembra um bistrô.
Possui decoração arrojada.
Une madeira clara e couro.
Com louça de porcelana fosca.
Os funcionários usam uniformes.
Calça preta.
Camisa branca.
Boné xadrez.
Um espaço requintado.
Onde podem ser degustados diferentes tipos de café.
Ter acesso a jornais e revistas de todo o país.
Um lugar perfeitamente frequentado por todo tipo de gente.
De empregados das fábricas a boêmios.
Os frequentadores encontram na cafeteria o tempo que precisam.
Desde a satisfação de um lanche rápido à possibilidade de relaxar.
Podem acessar a rede e degustar com tranquilidade um café de qualidade.
Walter e Max estão encarando um ao outro.
Em total silêncio.
A garçonete acaba de chegar.
Palomita.
30 anos.
Tem um rosto desgostoso de viver.
O garoto tem quase certeza que já a viu.
De quando visitou tio Walter, na infância.
Com uma falsa simpatia, Palomita sorri para Max.
Coloca um prato de bolo na frente dele.
Ao mesmo tempo, várias pessoas no balcão oferecem para Max olhares de desconfiança.
Ele encolhe o corpo em seu assento com a atenção.
Walter fica alheio aos vizinhos e demais clientes.
A garçonete tenta ser cordial quando não precisa.

— Não posso acreditar como você cresceu. E ficou tão lindo!

Max olha para Walter, que mantém os olhos alheios a ele.
A garçonete continua falando para Max.

— Se quiserem mais alguma coisa é só me chamar, ok?

Max diz que sim fazendo um vai e vem com a cabeça.
Palomita, realmente querendo ser simpática, continua.

— Seu tio vem aqui toda manhã.

O garoto entra no comentário.
Vira-se para seu tio que não dá à mínima.
     
— Você e ele podem se sentir em casa, viu?
— Isso seria ótimo, obrigado.

Max agradece por educação.
Palomita dá uma piscadela.
Deixa-os sozinhos.
Silêncio enquanto comem.
O bolo que Max pediu é feito de pão de ló.
Com recheio de brigadeiro branco.
Coberto com chantilly.
Uma camada de chocolate marfim.
Misturado ao creme de leite.
Morangos inteiros complementam um bolo belíssimo.
Mastiga uma fatia.
Tem um sabor bem leve.
Max come cada parte com paciência.
Sente na língua cada textura de cada ingrediente.
Tio Walter, ao contrário, tem um café da manhã muito mais simples.
Café com leite.
Baguete de pão francês.
Com manteiga.
E ele come de uma maneira muito rústica.
Não saboreia nada.
Apenas põe tudo para dentro do estômago.
A gargalhada de uma família feliz por perto serve apenas para causar desconforto.
Max tenta preencher a lacuna que ficou no ar, pelo roubo do silêncio.

— Então... você come aqui todos os dias?
— Mais fácil do que lavar pratos.
— Eu posso cozinhar.

Tio Walter olha para o garoto.
Está confuso com a ideia.

— Eu costumava cozinhar em casa.
— É mesmo?
— Eu ajudava mamãe a preparar o jantar de vez em quando.
— Eu posso imaginar.

Ambos se olham.
Não querem falar sobre o ocorrido na última noite.
Não tem a intimidade necessária para isso.
E também, Max terá de ir para o seu primeiro dia no colégio dali a pouco.
Tio Walter não quer importunar a cabeça do garoto.
Então voltam, cada qual, para suas comidas.

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