EPISÓDIO NOVE - O PASSADO DE TODOS NÓS







I

Agosto passa em uma sucessão de dias.
Todos curtos e bastantes cinzentos.
Às vezes, a chuva cai.
Mas, na maior parte dos dias, não.
Setembro abre gelado.
Na temperatura.
E nos humores.
Numa corrida na metade do pátio.
É a famigerada aula obrigatória de Educação Física.
Os alunos do primeiro ano de todos os cursos se exercitam juntos.
É a única matéria comum a todos os cursos.
Max, em roupas de ginástica, evita correr muito.
Para ele é como se o exercício fosse radioativo.
O robô, olhando pela janela dos fundos da oficina, acompanha a aula de Max.
Ele gasta parte da atenção tentando imitar os movimentos dos exercícios.
A outra parte é para evitar quebrar tudo ao seu redor.
Na quadra, uma parte dos alunos se dedicam a jogar basquete.
Benedetti lidera o time que está ganhando de lavada.
Com a ajuda de Pedro, o mais atlético dos alunos em jogo, a partida é quase um show.
Júlia torce alegremente para seus amigos, dando vibração a partida.
Muitas meninas, de todos os cursos, só acompanham Júlia na torcida por inveja.
Quem sabe, se chamarem bastante a atenção, tornem-se mais populares.
Enquanto isso, Rebeca e Maria Clara estão sentadas nos primeiros bancos da arquibancada ao lado do professor.
Ele, Professor Chico, é um dos poucos que é mais condescendente com os alunos.

— Quando vocês duas vão gostar de praticar algum esporte?
— Huuum...

Rebeca coloca a mão no queixo e olha para cima como se tivesse pensando.

— Que tal quando o sol se apagar?
— Será que vai demorar?

Maria faz uma cara de preocupada que faz a irmã cair na gargalhada.

Na quadra, Benedetti está joga.
Ele é realmente bom.
Ao notar que Ângela está olhando enquanto corre ao redor da quadra, ele da uma piscadinha com uma alta dose de safadeza.
Ela retribui corando o rosto e essa é a única vez que olha para o jogo com atenção.
Para se recompor carrega sua atenção para o outro colega, toda animada.

— Vamos lá Max! Mexa essa bundinha!

Infelizmente, Max tenta correr mais rápido em direção da amiga.
Ele fecha os olhos por causa de um pingo de suor por um instante.
Tempo o suficiente para tropeçar nas próprias passadas desajeitadas.
Ele balança os braços enquanto esparrama-se pelo chão.
Na queda, esbarra na bola que ia a direção de Benedetti.
A bola de basquete voa pela quadra em direção de Rebeca.
Todos os outros alunos riem como nunca.
Divertem-se com a queda do colega.
Até mesmo Ângela dá suas risadas.
Afinal, no escárnio, todas as pessoas são iguais.
Enquanto Max tenta se recompor, a menininha de cabelos platinados pega a bola de basquete e faz pose de quem vai arremessar.
Mas a alguns metros dela está uma pessoa que ainda lhe despertava certa irritação.
Rebeca sente os olhares de todos sobre si.
Encara o rapaz que um dia foi seu crush.

— Oi. Pode me devolver a bola?
— Claro queridinho...

Ele abre a boca para falar algo, mas não dá tempo.
Ela joga a bola de basquete em seu rosto com toda a sua força.
Benedetti cai para trás.
Muitos gritam em aprovação.
E outros em protesto.
O pobre rapaz senta no piso da quadra com o nariz escorrendo sangue.

— SENHORITA REBECA!

Escuta a voz do professor atrás dela enquanto mantem seus olhos fixos no alvo.
Mesmo ele, tão aberto aos alunos, não iria tolerar uma atitude daquelas.

— Para a diretoria agora!
— Com prazer!

Vira-se rápido, saindo da quadra batendo os pés com força contra o chão.
O Diretor Falcão não parece surpreso ao vê-la.

— O que você fez agora?
— Nada demais. Uma bola por acidente acertou a cara de um garoto.
— Uma bola?
— É. Dá para acreditar? A bola voou pela quadra do nada.

Ele solta um longo suspiro tirando os óculos de leitura da frente dos olhos.

— Bolas não voam por aí, sozinhas Rebeca. Não sei mais o que fazer com a senhorita.

Ele se levanta e encosta a porta que ate então estava aberta.

— Você sabe que só está ainda na CCGM por causa da sua mãe, não é?
— Ela não é minha mãe.

A garota platinada solta um longo suspiro também.
E então encosta-se à cadeira.

— Não pedi por isso. Não preciso de favores.
— É aí que você está engana. Todos precisamos de favores.
— Você acha?
— Sem isso a vida não anda.
— Bobagem.
— A sociedade não vai para a frente se não nos ajudarmos mutuamente.
— É nessas horas que eu noto como essa sociedade é podre.
— Escute.... Estou cansado de ver você tratar as pessoas assim.
— Assim como?
— Com toda essa ironia e sarcasmo.
— É o meu charme, sabe...
— Se você não se importa consigo mesma, pense na sua mãe e irmã.
— Elas podem pensar nelas mesmas.
— Já que você não dá a mínima terei de ligar e conversar com sua mãe.

Ela levanta novamente batendo as mãos contra a mesa.

— Faça bom proveito de mais uma doação generosa para o colégio.

A fala da garota causa uma levantada de sobrancelha no Diretor Falcão.

— O que você quer da sua vida, Rebeca?
— Eu quero liberdade!  E é isso que você devia querer também!

Rebeca solta um grito de protesto.
Sai batendo a porta com força.
E batendo os pés pela secretaria, desce as escadas e segue pelo corredor do andar térreo.
Alguns alunos a olham andando impetuosa.
Acaba encontrando Maria, Ângela e Max.
Os três estão voltando do fim da aula de Educação Física.
Falam esbaforidos com Rebeca.

— Vamos voltar para a sala. Estamos atrasados.
— Ai, ai...

Os quatro seguem pelos corredores, direto para a oficina.
Os três chegam à oficina e a aula já começou.
Entram da maneira mais discreta possível.
O que não diminui a contrariedade do professor.

— Quero que a turma se divida em seus trios.

Diz o professor Morrison.

— Rápido. Não tenho o dia todo!

O professor é um homem de nariz adunco.
A careca brilhante e os óculos “Lennon” vermelhos dão uma aparência sombria.
Usa um terno negro.
E raramente sorri.
Retém o humor de agosto como sua propriedade privada.

— Agora, abram suas apostilas na página 158.

Os alunos, em silêncio, abrem à apostila na referida página.
Max, que faz trio com Ângela e Benedetti, se assusta ao ler o título da página.

— Professor, vamos aprender sobre baterias?
— Não interrompa a aula com perguntas idiotas, Max.

Responde o professor, com um ar de desdém.

— Se na página 158 está o tópico sobre baterias, é óbvio que vamos aprender sobre isso.
— Ah... Claro.... Mas...
— Mais uma pergunta insignificante?

Benedetti, que está na mesma bancada que Max sorri com prazer.
Maria Clara junto de Rebeca e Carla, na mesa ao lado, também não param de rir.
O professor começa a escrever na lousa branca, a frente das bancadas da oficina.

— Um robô que se preze, deve utilizar sua própria fonte de alimentação.

Faz um desenho de um robozinho no quadro.
É uma óbvia referência ao robô de Max.
Robô que, por um acaso, está deitado de barriga para cima, na bancada de Max.
Ele presta atenção na aula, como se fosse um aluno e cobaia ao mesmo tempo.

— Uma bateria autônoma. De preferência recarregável.

Sr. Morrison vira-se para a turma.

— Afinal, se o robô tiver que ficar conectado a uma tomada na parede, não vai ter muita liberdade de movimento.
— E como sabemos qual bateria usar?

A aluna ruiva pergunta.

— Até chegar nesse ponto existe um longo caminho de desenvolvimento e testes.

O professor Morrison lança-lhe um olhar de reprovação.

— De... de... des... desculpe senhor.

Diz a garota com o rosto vermelho de vergonha.
Sr. Morrison continua falando sobre baterias, como se a aluna não existisse.

— A escolha das baterias depende essencialmente dos motores.

Ele dá alguns passos a frente.

— Eles é que vão exigir mais da bateria.

Pega um pequeno motor, da bancada de um dos alunos.

— Todas as diferentes tecnologias de baterias recarregáveis usam células básicas de armazenamento que tem uma voltagem fixa.

Fica brincando com o motorzinho por entre os dedos.

— As baterias propriamente ditas, são sempre combinações destas células.

Joga o motorzinho na bancada de outro aluno.

— A opção mais barata são as baterias seladas de chumbo ácido.

Dá uma guinada.
Caminha até uma estante com várias caixas de papelão.

— É uma tecnologia antiga, muito conhecida e confiável.

Abre uma das caixas.

— São seguras, não exigem muita manutenção e têm uma boa vida útil.

Retira de lá de dentro, uma caixa preta, de plástico.

— Para quem está iniciando seus estudos em robótica, esta é uma boa opção.

Mostra para todos a caixa.
É a tal bateria de chumbo sobre o qual explana.

— São baratas e não exigem muito conhecimento técnico para sua operação e manutenção.

Coloca com força a bateria sobre a bancada de Max.

— A desvantagem é que são bem volumosas e pesadas. Suas células usam chumbo, então não podem mesmo ser leves. Além disso, são bem agressivas ao meio ambiente quando descartadas de forma incorreta.

Ele limpa as mãos em um pano que estava sobre a bancada.

— A tarefa de vocês, hoje... é acrescentar a bateria de chumbo aos seus projetos. Devo reiterar que todas essas baterias que usarão hoje são presentes do pai de nosso nobre colega.

O professor aponta Benedetti.
Isso deixa o rapaz radiante.
Logo, o professor exige que as bancadas sejam preparadas.
Dá um prazo de apenas uma aula, para os alunos completarem a tarefa.
Max sempre tivera muitas dificuldades ao lidar com baterias.
Detesta o tema da aula e detesta o professor.
Ele olha para o lado.
E vê sua amiga, Ângela, completamente concentrada.
Ela observa a bateria.
Tenta entender como utilizá-la.
Ao mesmo tempo, Benedetti vai até a prateleira pegar uma caixa de baterias.

— O que foi Ângela?
— Estou tentando descobrir quantas baterias vamos precisar. Seu robô é grande.

Os olhos de led vermelhos do robô, fixos no que a garota fala.

— Para isso, eu precisaria saber qual o motor do robô, Max.
— Quer que eu lhe explique?
— Por favor. Motores não são meu forte.
— Olha.... Para mover o robô, são utilizados dois motores de passo.
— Aqui.... Nos ombros?
— Exato. Todos extraídos de sucatas.
— Assim é mais barato. Esperto Max, esperto.
— Um software gera os sinais que são enviados para o cérebro...

Benedetti chega carregando com dificuldade, duas caixas de baterias.

— ... estes sinais são processados por circuitos que movimentam os motores.
— Mas para isso, precisa de um módulo de controle...
— O módulo de controle é o software sendo executado no sistema do robô.
— Qual a função dele?
— A função da interface é amplificar os sinais recebidos do motor.
— Amplificar?
— Para que os sinais possam ser transmitidos via cabo.
— Para onde?
— Para o módulo de potência.
— E o módulo de potência recebe os sinais e os retransmite para os motores?
— Isso mesmo. Já com a potência necessária para movimentá-los.

Ângela está super empolgada com a explicação.
Fica cada vez mais perto de Max.
Benedetti, não gosta da atenção que o garoto recebe.
Após a explicação, Ângela decide que devem trocar a fonte de alimentação do robô.
As placas de energia no peito do robô estão partidas.
Desde o atropelamento que o robô sofreu.
Por isso, nem carregam a máquina totalmente.
O robô tem diariamente, energia para fazer pouco mais do que andar.
Como consequência, ele não pode ser muito ativo.
Ângela e Benedetti, este último a contragosto, desparafusam as placas do robô.
Max, com uma bateria de chumbo nas mãos, vira-se para trás.
Está a fim de observar os outros alunos no preparo dos projetos.
Carla está de boca aberta.
Perplexa diante de sua máquina.
Algo dera muito errado.
Dentro do que parece ser um robô em forma de bola, um líquido ferve a todo vapor.
Parece prestes a explodir, completamente diferente do que se espera numa máquina.
Pela expressão das meninas ao lado, Max conclui que elas não sabem o que fazer.
Chamam o professor ou se deixam o maquinário explodir.

— Talvez seja melhor a explosão.

Pensa Max, em voz alta.
Ao mesmo tempo, Ângela e o colega tiram todos os parafusos.
Ao abrir o peito do robô, o que se vê é uma confusão de fios de várias cores.
E uma placa com capacitores, indutores, dissipadores e um cooler.

— Aiiiiii!

Alguém grita ao lado de Max.
Faz com que ele se volte para frente.

— O que foi Ângela?
— Me queimei. Olhe.

Responde Ângela, mostrando a mão esquerda para o amigo.
Ela está vermelha e latejando.

— Ângela, sua idiota.
— Eiiii!
— Você não pensou que as placas estão quentes?

Diz Benedetti, com o rosto refletindo total reprovação.

— O que está dizendo, Benedetti?
— Aí, Ângela. Por favor, né? As placas acumulam energia. Lógico que queimam.
— Esqueci dessa parte.
— Francamente Ângela. Agora você precisa ir enfaixar sua mão imediatamente.

Max, num impulso, segura a mão da amiga.

— Ele tem razão.... Chame o professor agora.
— O que? Chamar o Sr. Morrison? Prefiro...
— O que está acontecendo aqui?

Pergunta Sr. Morrison, interrompendo a fala de Max.

— Pro... professor, me queimei ao abrir o robô.
— Você não prestou atenção no que estava fazendo?

E antes que Ângela possa responder o Sr. Morrison, ele fala.

— Se está tentando arranjar desculpas para não assistir aulas, Ângela, falhou.
— O que?

O professor pega a mão da garota com violência comedida.
Ângela, obviamente, geme baixinho com dor.

— Não estão tão queimada assim. Pode esperar até o fim da aula.
— Sim.... Desculpe.

A garota abaixa a cabeça.
O professor volta-se para a bancada atrás deles.

— Tome aqui.

Max tira um lenço do bolso da calça.
Usa-o para enfaixar a mão queimada de Ângela.
Benedetti, discretamente faz careta, debochando de Max.
O rapaz está muito incomodado com a aproximação dos dois.
Finalizado o problema da queimadura, os três voltam a trabalhar.
Na verdade, Benedetti quase não faz nada.
Mais observa do que faz qualquer outra coisa.
E, sempre que pode, implica com alguma decisão tomada por Max.
Ângela, como sempre, funciona como um meio termo entre os dois garotos.
Com essa dinâmica, os três instalam a nova fonte de alimentação do robô.
Finalmente, depois de encaixar três baterias no robô, estão satisfeitos.
Benedetti e Ângela recolocam o peitoral do homem-máquina.
Max religa, com uma chave de fenda, o robô.
Leva um tempo, mas os leds vermelhos no crânio metálico acendem-se.

— O prazo para concluírem a instalação das baterias, acabou.

O professor bate as palmas das mãos, chamando a atenção de todos.

— Verificarei como os trios se saíram...

O professor percorre toda a sala verificando as bancadas.
Em algumas ele para.
Balança negativamente a cabeça.
E segue sem dizer uma palavra.
O trio de Rebeca ganha um olhar de total reprovação de Sr. Morrison.
E ainda tiveram que ouvir palavras como “detestável” e “repugnante”.

— Ora, ora...

Diz Sr. Morrison quando chega à bancada de Max.

— O Sr. Max conseguiu se superar...

O garoto sorri.
Assim como Ângela.
Até o robô, agora religado, faz um gesto de “joinha”.

— A instalação ficou boa. O robô parece bem alimentado.
— Obrigado, nós...
— Parabéns, Benedetti, por ajudar Max.... Mais uma vez.

Max sente seu rosto quente.
Sabe que está vermelho.
Sente tanta raiva do professor.
É capaz de fazer uma loucura.
Como assim, agradecer o Benedetti?
Ele mal ajudou na colocação das baterias!
Quem mais trabalhou foi Max e Ângela.
E agora, por pura soberba do professor, Max perde os créditos pelo trabalho.
Benedetti fica claramente faceiro.
E Max, claramente frustrado.
Ângela está conformada com a situação.
Vê o lado bom de ganharem prováveis boas notas.
Ao fim da aula, os alunos arrumam suas bancadas.
O dia ainda será longo.


II

Tio Walter dialoga no andar de cima com o vizinho Gustavo.
É o dia de folga do pai de Ângela.
Assim podem conversar melhor.
Do contrário, teriam de falar em algum momento de intermitência entre seus turnos na fábrica.
E isso não é bom.
Lá estão num ambiente atribulado, com problemas além de seus próprios.
Ambos tentam acertar as coisas sobre o carro destruído.
Destruído pelo robô de Max.
Max ouve tudo através do teto fino de gesso, do apartamento.
Agoniado, o garoto deixa seu robô recarregando no quarto.
Com sentimento de culpa, abre a porta do apartamento e sai.
Tem sérias intenções de interferir na conversa.
Intenções que se dissipam na velocidade da luz.
Há uma garota no final do corredor, parada contra a janelinha.
Está de costas para Max.
É o suficiente para que seu coração de um pulo.
Então diz, meio gaguejando.

— Ang... Ângela?

Ela se vira.
Emoldurada pela luz do dia que se finda.
Sorri largamente.
Seu cabelo parece pálido, com o preto desbotado.
Os olhos escuros.
Os cílios, longos.
Seus cabelos, ondulados, vão até o meio das costas.
A mão esquerda, enfaixada até a altura do pulso.
O pôr do sol transforma as cores da garota em fantasmas de si mesmas.
Ela olha para o céu da tarde.
Um vento gelado sopra pela janela.
Sua respiração transforma-se em vapor no ar frio.

— Meu pai está conversando com seu tio.
— É... Eu sei.
— Eu não queria ficar lá, ouvindo a discussão.
— Está feia, né?
— Está sim.
— Acho que seu pai não gosta de mim.
— Você deu motivos.
— Foi um acidente.
— Sei. Vem comigo.

Ela acena para ele a seguir.
Max obedece-a relutante.
Sobem juntos as escadas para o sexto andar.
Percorrem os degraus de metal gelado.
Max a segue até o telhado.
O vento sopra frio lá fora.
Faz com que o tecido da blusa de Ângela grude no corpo.
Max percebe com desconforto que ela não usa absolutamente nada por baixo.

— Nossa...

O vento leva suas palavras embora.

— Como?

Ela pergunta colocando o rosto bem próximo ao dele.
Seu hálito é doce, lembrando jujubas.

— Er... Eu nunca tinha vindo aqui...
— Sei. Eu vinha bastante aqui. Quando minha mãe era viva.
— Sua mãe.... Eu...
— É... Faz um tempo. Câncer.
— Sinto muito.
— Tudo bem, Max. Vem!

Ela passa, delicadamente, da escada para o topo do prédio.
Depois, para cima do telhado achatado.
Max segue até lá.
Um pouco mais desajeitado do que Ângela.
Segue-a pelo telhado.
Até a sombra de uma caixa d’água.
Há um murinho de concreto ali.
É onde se sentam.
A caixa d’água funciona como quebra-vento.
Isso agrada a Max, que não gosta de frio.
O cabelo de Ângela voa para cima do rosto com o vento gelado.

— O que vinha fazer aqui... com sua mãe?
— Conversar.

Ela faz uma pausa.
Seus lábios são finos e muito rosados.

— Conversas de garotas?

Ela não responde.
O dar de ombros é imperceptível.
Ângela levanta o braço para apontar.
O bairro que se estende na visão de ambos.
Do topo do prédio dá para ver toda a área industrial.
A rua principal, onde eles observam, não é uma rua simpática.
Mesmo a noite.
Parece antiga.
No pior sentido da palavra.
Como se as pessoas tivessem mijado por anos, naquela rua.
Sem pressa alguma de balançar.
Quem mora ali, abre mão de qualquer coisa de que gosta.
Um monte de prédios de médio porte.
Todos antigos e mal pintados.
Próximos a fumaça das chaminés das fábricas.
De longe, parece que cada prédio está macambúzio.
Intoxicados com a poluição.
Prédios de fábricas que se projetam como estruturas negras.
A fumaça constantemente perfurando o céu noturno.
Costuram o tecido de Santo Mar à beira da noite.
Os prédios mais altos, em outras áreas se destacam com suas janelas iluminadas.
Acesas o suficiente para sugerir os perfis de suas formas escuras.
Nos prédios além do bairro, emaranhado de luzes como sinapses de um cérebro.
O cérebro da cidade.
Uma cidade de néons coloridos.
Cheia de vida no início de noite.
Agitada e movimentada, ansiosa e inquieta.
Mas ali, completamente imóvel sobre o teto, Ângela e Max podem parar e se dar o luxo da contemplação de Santo Mar.
A cidade que tem mais de 200 anos de fundação tem uma história antiga, especial para corações fortes.
O primeiro habitante da cidade de Santo Mar foi o Capitão Luiz Francisco Magalhães, que em 1790, para lá se dirigiu com sua família e um grupo de colonizadores açorianos.
Naquela época, o sul do Brasil era alvo de disputa entre os impérios de Portugal e da Espanha.
Para afirmar seu território, os portugueses ministraram a vinda de colonos das ilhas de Açores.
Os açorianos instalaram-se em pequenas propriedades rurais próximas ao litoral sul da região.
Ali, as terras eram por demais férteis ao plantio, oferecendo prosperidade nos primeiros anos de fundação da cidade.
Trabalharam muito naqueles dias, criando uma agricultura de subsistência e da pesca artesanal.
Em 1803, chegou Joaquim Rebelo Magalhães, Gonçalo Maia e D. Ramiro Maia, atraídos também, pela fertilidade das terras e abundância de peixes.
A exuberância e generosidade das águas litorâneas fizeram com que os colonizadores a denominassem de Santo Mar.
Os primeiros exploradores que foram ao norte das fazendas sob comando de Ramiro, encontraram índios esparsos.
Misteriosamente essa população indígena estava desaparecida nos primeiros anos da colonização. 
Entre 1808 e 1816, um conflito sangrento entre os colonos e os indígenas, gerou incerteza ao futuro da cidade.
Somente após a expulsão dos índios para além do rio Iaguara, a paz voltou a residir em Santo Mar.
Não tardou no ano seguinte, o Capitão Luiz faleceu, vítima de uma estranha febre, passando sua liderança ao seu filho mais velho, João Francisco Magalhães. 
Em 1855, onde o Capitão foi enterrado, foi construído o primeiro templo católico.
Sendo o Padre Antônio Maia, filho de Ramiro, o primeiro Vigário da Paróquia.
Hoje, a paróquia foi transformada na Catedral Municipal, que guarda os túmulos das primeiras figuras históricas de Santo Mar.
Em 1868, os primeiros imigrantes alemães desembarcam na cidade, nas pequenas porções de terra ao norte das fazendas dos Maias e Magalhães.
Com trabalho e determinação, constituíram pequenas propriedades muito produtivas.
Uma das famílias recém-chegadas, os Werner, iniciaram negócios no ramo da construção e prosperaram.
Muito desse primeiro empreendimento, existe hoje, como um conglomerado da construção civil, vital na engrenagem da economia do país.
A partir de 1875 veio os italianos, que constituíram a maior corrente migratória recebida pela cidade após os açorianos.
180 pioneiros vindos da Sardenha instalaram suas casas às margens do litoral, onde atualmente fica o Bairro Cézar.
Trouxeram sua contribuição a cidade com suas técnicas de cultivo de grãos e produção de queijos.
Foi essa contribuição que permitiu, em 1895, o surgimento do primeiro grande empreendimento maritimense: a Cervejaria Maia.
Com a ajuda da imigrante Vivianne Benedetti, Brites Maia transformou as plantações de cevada de seu clã em matéria prima para a pioneira cerveja.
A fábrica, trouxe grandes riquezas para os Maia e Santo Mar, estreitando suas relações com os Magalhães.
A família fundadora da cidade, muito apreciou o apoio dos Maia no crescimento da cidade.
Relações não apenas de negócios, mas ao longo dos anos ocorreram alguns casamentos entre as duas famílias.
Entretanto, a riqueza da Cervejaria não se alastrou para as mãos da família Benedetti.
Para eles, os Maias deveriam mostrar mais gratidão.
Sem a ajuda de Vivianne, não teriam prosperado com tanto ardor.
Como resultado, por volta de 1910, a família tem um rompimento nas relações de negócios com os Maia.
Os Benedetti destacam-se nos anos seguintes, por preservar as tradições herdadas da sua terra natal: força, fartura e religiosidade.
Aos poucos, começam a diversificar seus negócios para além do cultivo da terra e dos animais.
Ao mesmo tempo, formam as primeiras alianças com a família de alemães Werner.
Juntas, as duas famílias são os primeiros a investir no desenvolvimento industrial de Santo Mar.
Usando da indústria de extração de carvão mineral em Santa Catarina, os Benedetti fizeram grande fortuna.
Fortuna essa usada para bancar as investidas dos Werner no ramo da construção urbana.
Assim, nos idos de 1920, os Werner ganham proeminência na sociedade maritimense, não deixando de influenciar a política local.
Entretanto, essa ascensão repentina atraí a desconfiança das famílias Magalhães e Maia, sendo a fagulha de um conflito maior.
As ações destas quatro famílias, ao longo das décadas, moldam Santo Mar.
Em grande parte, a cidade de hoje é um fruto do conflito entre as famílias.
Em 1935, a disputa entre as quatro famílias se acirra com a morte da jovem Ingrid, filha da matriarca Evelyn Werner.
Ela teria sido assassinada a tiros na saída da igreja, em represália ao amor proibido por Pedro Maia.
O tio de Ingrid, Albert Werner, passou a ameaçar os Maias, que resolveram se precaver e atentaram contra Wagner, filho de Albert.
Tal briga fútil logo escalonou, forçando os Benedetti a tomarem um lado ativo a partir dos anos 40.
 Após um enigmático incêndio nas plantações de cevadas dos Magalhães, em 1943, os Benedetti foram acusados como culpados.
Sem a sua fonte principal de dinheiro e após sofrer duros golpes políticos, parte da família Magalhães resolve se mudar para São Paulo.
Lá, investindo na política nacional, começam a juntar dinheiro para financiar o lado dos Maias, na disputa por Santo Mar.
Entretanto, conforme o conflito foi avançando, os Werner aumentavam seu poder.
Com o fim da segunda guerra mundial, a família aproveitou a oportunidade para expandir seus negócios na reconstrução de Berlim.
Os Maia, por sua vez, ficavam cada vez mais para trás, com o declínio da produção de cevada na região, nos anos 50.
A guerra chegou ao seu fim junto com o declínio dos Maia, hoje apenas sombras do que foram no passado.
Com o inexorável fluxo do tempo, Santo Mar ergue-se ao redor da briga entre as quatro famílias.
Não é à toa que se torna uma das cidades que mais cresce no estado.
Infelizmente todo esse desenvolvimento tem um preço.
E as mudanças pela qual a cidade passa marcam a vida de todos que ali vivem.
Pessoas que crescem e também passam por transformações.
Assim, a história da cidade se mistura com as histórias dos habitantes.
Então Ângela sorri, sentindo toda a força daquela história. 
O mesmo tipo de sorriso que arrebata um coração.
É o suficiente para tirar a concentração do garoto.
Deixa-o completamente tímido.
A garota, como se não percebesse o efeito do sorriso, volta a falar.

— Olha lá.

Ângela aponta agora o indicador para o centro colorido da cidade.

— Eu costumava morar lá.
— No centro da cidade?
— Isso mesmo.
— Então você era rica.
— Era.
— E não é mais?
— O que você acha?

Max apenas sacode a cabeça.

— Meu bisavô, Pedro, fez um monte de besteiras.
— Que tipo de besteiras?
— Ele disputou a posse de umas terras com uma família de imigrantes alemães. Minha mãe dizia que foi por amor. Acabou em tragédia.
— Ah.... Puxa...
— Depois disso, nossa família foi perdendo prestígio na cidade.
— E quando foi isso?
— Não sei, faz um bocado de tempo.
— Sei...
— De lá para cá, as coisas só pioraram.

Ela faz uma pausa.
Como se pensasse muito sobre o que dissera.

— Olha... Ainda não me disse como veio parar aqui.
— Então.... A família foi empobrecendo com o tempo.
— Que triste.
— Meu pai teve de vender toda sua herança para uns italianos. Os Benedetti.
— Benedetti? Sério?
— É. A família do Mario comprou tudo o que pertenceu a minha família.
— Caramba! Eu nunca imaginei você e ele tendo grandes problemas.
— Não é nossa culpa. É história velha.
— Hum... E por qual motivo venderam tudo?
— Não tivemos escolha. Meu pai diz que precisávamos, para sobreviver.
— Nossa. Assim, veio morar aqui?
— Sim... Tivemos de encontrar um lugar que poderíamos viver e pagar com o que tínhamos.
— Quanto tempo faz?
— Bastante. Eu tinha uns 6 anos, naquela época.
— Como era... viver no centro da cidade?
— Não lembro bem. Acho que era legal. É bem colorido.
— Eu ainda não fui para lá.
— Deveria.

Ângela abaixa a cabeça.
Sorri.
Max hesita.

— Você deve ter estranhado muito.
— Um pouco. Mas antes esse bairro não era tão ruim.
— Não era?
— Piorou depois da Crise sabe...
— Eu lembro. Meu pai perdeu o emprego. Foi duro.

A garota acha engraçado o comentário.

— Aqui foi um pouco mais além.
— Sério?
— Tinha muito tumulto com as pessoas nas ruas. Todo dia a Segurança Pública estava aqui.
— Por quê?
— Os desempregados faziam protestos diários. Sempre acabava em confusão.
— E você viu tudo isso de perto?
— Eu não gostava de ficar em casa.
— Olha... Venho de uma cidade do interior. Não tem muita confusão, por lá.
— Deve ser bom.
— Cansa depois de 16 anos.
— Nem posso imaginar.

Ângela para de falar.
Faz uma careta.
E seus dentes de cima mordem o lábio de baixo.
Bem de leve.
Isso derrete Max.
Ângela deixa a cabeça cair para o lado.
Diz.

— E o que tem achado de Santo Mar?
— Linda.

Ele fala displicente.
Ela sorri linda.

— Ah.... Quer dizer... Er... você é lind... Não... A cidade é..... Bacana. É bacana.
— Sei.

Ângela coloca a mão no ombro dele.
E aquilo quase o faz desmoronar.
De súbito, ela o abraça.
Como se tentasse amenizar o embaraço de suas palavras.
Depois, diz.

— Você é legal, Max.

Ele franze a testa.
Olha nos olhos dela.
E eles brilham.
Como um monte de diamantes quando reflete a luz do crepúsculo.
Ele fala, sem coragem.

— Você que é legal.

Ângela desfaz o abraço.
Um gesto feito com delicadeza.
Ela dá de ombros.

— Obrigada.
— De nada...
— Meu pai pensa que ser legal significa ser frágil.
— É? Você é legal.
— E pareço frágil para você?
— Ainda... não sei. Acho que não. Você é sempre bem esperta.
— É. Sou mesmo.
— Agora sei que não é modesta.
— Só às vezes.... Os adultos sempre acham que se pudermos ver o mundo real... então quebraremos.
— E o que você acha?
— Acho que somos mais fortes do que pensam. 

Ficam um tempo sem falar palavra alguma.
Eles nem se olham.
Apenas veem a noite chegar.
Então a mão gelada da garota procura a dele.
A mão dele aperta suavemente a mão dela.
Max sente o coração batendo no peito.
Está com medo.
O que o assusta é a normalidade daquele momento.
Sente-se tão confortável com ela ao seu lado.
Max pode ficar ali, segurando a mão dela, para sempre.
O céu alaranjado da noite cintila a leste.
Relâmpagos piscam distantes, sobre o meio do mar.
Ângela sabe que a chuva vai começar logo.
Ela suspira.
Não quer pegar chuva.
Resolve voltar para o apartamento.
Essa conversa fora pesada demais para ela.
Sua herança é complexa e paira sobre seus estreitos ombros.
Prefere colocar o pijama e deitar para aliviar a cabeça.
Ela pensa.
Ela quer.

— Melhor a gente entrar, Max.
— É... Mesmo?
— Meu pai e seu tio já devem ter terminado de conversar.
— É... Tem razão.
— Nos falamos amanhã, no colégio?
— Claro. Quer uma carona?
— Não, não. Melhor não. Meu pai não iria gostar.
— Certeza?

Ela responde dando um beijinho no rosto dele.
O melhor obrigado que já recebera.
Mesmo assim, fica decepcionado pela garota não aceitar sua carona.
Agora ele deseja levar a garota para o colégio.
Sente-se culpado por fazer Ângela voltar para casa de ônibus.
Max não sabe, mas quebrar o carro do vizinho tem mais significado do que aparenta.
Priva a garota de algo maior do que somente uma condução.
Gustavo ao buscar Ângela após a aula, partilha com a filha um momento de muito significado.
Ambos vivem com uma ausência em suas vidas.
E essa ausência divide pai e filha, como um abismo.
Embora Gustavo tenha seguido em frente, não esquece o passado.
O sofrimento de Ângela desperta a melancolia do luto.
Junto dos desencontros entre os dois, por conta dos horários de trabalho e estudo, pai e filha sentem conforto nos momentos conjuntos.
Gustavo troca seu tempo de pausa na fábrica no tempo para buscar Ângela.
E ela fica contente, mesmo não demonstrando muita afeição.
Mesmo assim, ficam juntos como forma de carinho e cuidado um para com outro.
Igual aos momentos que ela tinha no telhado com a mãe.
Vai-se embora, os momentos.
Com Ângela e de Ângela.
Max fica.
Feliz.


III

— Não foi por querer mãe.

Max está sentado no pátio do prédio, ao telefone com a mãe.
O robô acompanha o garoto, sentando ao lado dele.
A mãe, Elisabete, sentada na sala de estar da sua casa.
Sua voz soa preocupada, ao telefone.

— Não estou dizendo que foi por querer, Max. Mas aconteceu.
— Eu sei que aconteceu mãe. Desculpa.
— Pedir desculpa não vai ajudar seu pai e seu tio a pagar pelos estragos.
— É... Eu sei.

O garoto sente muito.
De verdade.
Nunca quis que seu robô despencasse pela janela.
Nem causasse qualquer estrago.
Infelizmente é o que aconteceu.
Destruiu o carro do vizinho.
Agora, aguenta as consequências.
Vários metros à frente, no meio da rua, crianças brincam.
Jogam futebol com chinelos como traves imaginárias.
As meninas torcem.
Os meninos jogam.
O robô observa atento, cada lance do jogo infantil.
Max nem presta atenção.

— Agora, seu pai vai ter de pedir um empréstimo no banco.
— Eu sinto muito.

Ao fundo da sala onde a mãe senta, está o pai.
Otávio, cabisbaixo, faz os cálculos sobre a mesa da cozinha.
Avalia a situação financeira da família.
Elisabete, ao telefone, não está furiosa.
Ainda assim, pronuncia cada palavra com ênfase.

— Max... Já pediu desculpas para seu tio?
— Não mãe. Ainda não.
— Não?
— Não totalmente.
— Max... Não foi essa a educação que lhe dei.
— Eu sei, mas.... É difícil saber o que dizer.
— O que disse para mim. Desculpa.
— É...

Max revira os olhos para o alto.
Tem uma expressão de desanimo de dar dó.

— Olha mãe.... Eu... eu vou fazer isso, está bem?
— É bom mesmo. O estrago foi grande.
— Eu sei.
— Sabe que seu tio vai ter de vender o carro?
— O Spark?
— Ele tem algum outro carro, Max?
— Não, mãe.

O robô, muito interessado nas crianças jogando bola, levanta de onde está.
Vai caminhando devagar até a calçada.
Max, notando a movimentação da máquina, também se levanta.
A sua mãe, alheia a tudo, continua falando.

— Max, como andam suas notas?
— Vão bem, mãe. Vão bem.
— Seu tio Walter disse que fez amizade com uma menina.
— É... Bem.... É a Ângela.
— E quem é Ângela?
— A filha do Sr. Gustavo...
— Gustavo?
— O vizinho. Do carro.
— Você está namorando a filha do vizinho cujo carro você destruiu?
— Não fui eu que destruí o carro, mãe. Foi o robô.
— Você entendeu Max.
— Espera... Mãe, quem disse que ela é minha namorada?
— Seu tio.

Enquanto Max fala ao telefone, o robô encosta-se na lateral de uma minivan.
Fica vendo, meio passivo, os meninos chutando a bola quadriculada e gritando.
Eles gritam muito a cada lance de gol.
O robô, que nunca vira tanta criança junta antes, analisa cada segundo do evento.
É como se, para ele, fosse mais um acumulo de dados.
Desta vez, de como mini seres humanos se comportam.
Entende uma parte da vida que ainda não conhecia.
Max, preocupado, vai até o portão do prédio.
Fica de olho no homem-máquina.

— Mãe, ela não é minha namorada.
— Seu pai mandou perguntar se ela é bonita.
— Ela é linda, mãe.
— Viu! Estão namorando!
— Não! Não é isso mãe!
— Ah.... Não é?
— Eu e a Ângela somos apenas bons amigos.
— Seu tio diz que vocês voltam para casa juntos todos os dias.
— Ela mora aqui no prédio.... É normal pegarmos o mesmo ônibus, não é?
— Não precisa ter vergonha disso, filho. Ela é sua primeira namorada!
— Ela não é minha namorada, mãe!

O garoto não gosta da fala da mãe.
Ângela não é namorada dele.
Nem vai ser.
É o que pensa Max.         
No calor do momento.
Sente um misto de vergonha e esperança.
Não é o namorado dela.
Nem será um dia.
Mas bem que podia.
Lá no fundo, Max fica confuso.
Meio triste pelos problemas que causou.
Um pouco apreensivo pelo comportamento do seu robô, que observa as crianças.
Absolutamente envergonhado, pelos pensamentos focados em Ângela.

— Você já conversou com os pais dela, Max?
— Pai. A mãe da Ângela já faleceu... E não. Não falei com ele.
— Deveria. Pelo menos explicar para o pai da sua namorada o estrago que aprontou.
— Não foi por querer mãe, já disse! E ela não é minh....

A fala de Max não se completa.
Sem se mexer, ergue o olhar.
Examina o reflexo das crianças no espelho do carro.
Lá.
Atrás dos garotos brincalhões.
Cabelo claro.
Óculos espelhados.
Jaqueta com estrelas amarelas.
Porte impetuoso.
Como uma diva oitentista.
E, de repente, não mais ao alcance da vista.
Max vira-se.
Olha ao seu redor.
Tira o telefone da orelha.
Tem certeza que vira algo.
Na mão da figura no reflexo.
O que era?
Tinha a cor rosa.
Parecia uma...

BANG!

Tudo acontece em frações de segundos.
Primeiro, o robô empurra a minivan com seu peso.
Amassa a lateral do veículo com as costas.
Um impacto forte o empurra.
Logo em seguida, veio o som.
Som forte, estridente, como o ribombar de um trovão.
Então, a figura parada em pé, do outro lado da rua.
Figura espalhafatosa, de roupa preta com detalhes amarelos.
Os óculos escuros escondendo parcialmente o rosto.
Um capuz ocultando parte dos cabelos platinados.
A figura, um arremedo de Madonna, segura com as mãos a arma rosa.
O robô levanta-se, assustado.
Tem um enorme rombo na parte esquerda do peito.
O capô da minivan fica amassado pelo peso da máquina.
A figura com a arma, começa a atravessar a rua, indignada.
Max permanece imóvel, assustado.
O garoto demora a entender o que acontece.
As crianças logo desatam a gritar e correr.
O tumulto tira Max do transe.
Ele desliga o celular na cara de sua mãe enquanto ela grita.
Várias pessoas põem suas cabecinhas para fora das janelas.
De seus apartamentos, todos querem entender o que houve.
Alguns, preocupados com seus filhos.
Outros, preocupados em saber a fofoca.
Ângela, aflita, sai da janela direto para as escadas.
A Neo Madonna aponta sua Taurus novamente para o robô.
Finalmente Max entende.
Ela quer matar seu robô.
Exterminá-lo.
O robô também percebe.
Grita, enquanto examina o buraco aberto em sua própria lataria.

— DESMONTAR!?

A conclusão lhe remete a outra ação.
Uma ação que já havia tomado antes.
Sobreviver.
Para isso, o robô desata a correr.
Encurvado para frente e para baixo.
Desvia das crianças histéricas com que cruza.
Madonna dá um tiro a esmo.
Atinge parte de um carro ao longe.
Max, por ato reflexo, joga-se no chão.
Apenas ouve a menina gritar um palavrão.
Ela corre atrás do robô.
Começa uma perseguição.
O céu noturno apresenta-se com uma tonalidade cinzenta opaca.
O ar fica pior à medida que a Madonna corre.
Vão à direção à área das fábricas.
O robô corre sem saber para onde.
E quem o persegue, não desiste.
Tem certeza de que vai pegá-lo.
O robô tem essa certeza.
Seus protocolos de autopreservação, auto impostos, funcionam.
Se o robô fosse capaz de sentir, diria que sente uma espécie de excitação.
Bytes e eletrostática misturam-se com algo mais.
Ele está curtindo isso.
É o que pensa.
Está pirando.
Talvez porque, a sobrevivência é como uma operação na rede.
O desgaste insuficiente como um tipo de confusão, desesperada.
Uma fuga estranhamente arbitrária.
Tudo isso é suficiente para conseguir ver as ruas como se fosse um campo de dados.
Tudo parece proteína digital, operando para distinguir diferentes tipos de dados.
Correr, diz o robô a si mesmo.
Enganar.
Despistar.
Está a meia quadra da fábrica de comida congelada, no bairro industrial.
Parte disparado pelo meio da rua.
Atropela um grupo de trabalhadores que estão na calçada com cartazes de protesto nas mãos.
Um deles grita-lhe qualquer coisa imprópria para menores.
A perseguidora segue-o, embora cada vez mais distante.
Não tem o preparo físico adequado para a caçada.
Num minuto, velozmente, já está transpondo a entrada da fábrica.
No topo da entrada dos funcionários, um enorme letreiro marmorizado.
“Netuno Fábrica de Congelados”.
O som das esteiras cheias de embalagens de alimento desaba sobre o robô.
Como se fosse à espuma de uma enorme onda.
Faíscas pulsam nas entranhas de fios e placas do robô.
O rombo em sua carcaça está cobrando seu preço.
A máquina vai diminuindo a velocidade, mesmo sem querer.
Mesmo assim, causa muito caos no turno da noite, dentro da fábrica.
Alguém deixa cair um tonel com uma tonelada de molho de carne.
Uma explosão de tiros inunda o salão de máquinas.

BANG!
BANG!

Pessoas gritam.
Máquinas rangem.
A perseguidora xinga por ter de correr pelo molho de carne.
Em fuga, o robô vira velozmente.
Sobre um lance de degraus de metal.
Passa por um hall com carpete manchado.
Depois, por uma fileira de portas que dão acesso a muitos escritórios.
Todos pequenos, como cubículos.
Há uma porta aberta, mais a frente.
Uma moça chinesa, de uniforme branco, sem mangas, olha-o sobre o computador.
Atrás dela, pende um pôster figurando uma ilha, com o azul do mar bem pintado.
Obviamente, a moça não entende nada do que acontece.
Nem entende o que é o monstro metálico percorrendo o corredor.
Em seguida, o robô dispara pelo corredor, para fora da vista dela.
Se não fossem as novas baterias lhe darem carga o suficiente, o robô já estaria exaurido.
Sua nova autonomia, o salva.
À frente, as duas últimas portas fechadas.
Presume, trancadas.
A caçadora está chegando.
Correndo de arma em punho.
O robô dá então, um soco violento com o punho de ferro, na última porta.
Ouve-se um estouro.
Algumas peças de madeira barata caem da porta fendida.
A máquina adentra a sala com rispidez.
Perseguindo o robô, a menina passa pela chinesa embasbacada.
Está escuro, dentro da sala.
Vê-se apenas a sugestão de uma sala de terminal de computador.
Com rapidez, o robô fica junto dessa porta.
Agarra um puxador de plástico branco.
Ao mesmo tempo, exerce nele toda a pressão de que é capaz.
Algo estala.
Num instante está lá dentro.
Escondido.
A menina que o persegue, alcança a sala.
Entra.
No escuro.
Caçadora e caça.
Chocando-se. 


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