EPISÓDIO SETE - O CASTELO DA MENTE







I

Julho vai embora.
Vem agosto, frio e melancólico.
Max chega à conclusão de que tem de mudar.
O sentimento de frustração e vergonha que toma conta dele não pode mais ser sustentado.
Esse incômodo com os cochichos sobre ele, nos corredores, tem que acabar.
É simplesmente um sentimento infantil que não o levará para lugar nenhum.
A própria estrutura do CCGM garante isso.
Apenas um seleto grupo de 160 alunos frequenta a instituição, por ano, em período integral.
Metade é formada por aqueles que ingressam no ensino médio, como Max.
Enquanto a outra metade está lá há mais tempo.
Desde o ensino fundamental.
Os estudantes são de todas as partes do Brasil.
O número de cientistas famosos que cursaram na CCGM é enorme.
O colégio é tão famoso que empresas suspiram de admiração com a simples menção do nome em um currículo.
Isso porque o colégio não admite qualquer um.
Os exames de ingresso são rigorosos.
Além de ter uma mensalidade exorbitante a ser paga pelo privilegio de estudar.
As bolsas oferecidas aos alunos de baixa renda são poucas.
3 a cada ano, para todo o país.
E é por isso que estudantes que ingressam no CCGM sentem-se cheios de direitos.
Quanto mais cedo ingressam, mais profundamente elitista se sentem.
Os pais com recursos tentam com afinco fazer com que seus filhos ingressem na escola já no ensino fundamental.
Assim, Max nunca será como eles.
É apenas um aluno bolsista do interior que quebrou o sistema.
Com estilo, pelo menos.
E tem um robô que o acompanha pelos corredores.
Vivo e lhe causando problemas.
Mais estilo que isso impossível.
Mesmo gostando muito da máquina, tem muita falta de sorte desde que a criou.
É claro que, envolto em pensamentos, Max esbarra em alguém no corredor.
Quando levanta os olhos, tem uma pequena e desagradável surpresa.

— Não deveria culpar sua sorte por sua lastimável falta de vontade.

Benedetti passa reto por Max após o breve comentário e esbarrão.
Sobe as escadas para o andar superior da instituição, junto com seu grupinho.
São os seguidores do reizinho, pensa Max.
E isso o faz querer simplesmente socá-lo tanto quanto fosse possível.
Contém-se ao máximo, como sempre.
O encontro choca e aborrece Max ainda mais.
Benedetti é extremamente provocador e, agora, lê mentes.
Como um incentivo, o robô puxa Max pelo agasalho.
Isso tira o garoto de seus próprios pensamentos.
Resolve deixar o problema de lado.
Melhor focar em suas aulas.
Precisa de notas altas para manter sua bolsa de estudos.
No seu íntimo, Max está odiando o colégio cada vez mais.
Entra na sala de aula.
Passa por Ângela que está conversando com várias meninas.
Já está praticamente com todos os alunos sentados.
O robô, como de costume, vai direto ficar sentadinho na oficina.
Vai esperar obedientemente, seu criador sair da aula.
Desta vez perdeu a disputa com Seu Osvaldo.
Ocasionalmente, até assiste as aulas de robótica do segundo e terceiro anos.
Max senta no mesmo lugar de sempre, perto de Rebeca.
O professor demora uns longos minutos para chegar.
Dá a Max tempo de tentar socializar.
Ou seja, a garota ao seu lado “puxa conversa”.

— Olá!

Diz Rebeca em um tom animado.
Sua voz lembra uma gatinha dengosa.
Max acha graça de si mesmo por denominar a voz de alguém assim.
Ele sorri com os próprios pensamentos.
Rebeca lhe retribui o sorriso.
E Max nota como ela é bonita.
Os cabelos platinados presos de forma elaborada a deixar seu rosto livre de fios.
Olhos muito claros e vivos.
O piercing no nariz, sempre parecendo ousado para Max.
Seus lábios se destacam com um batom vermelho extremamente chamativo.

— Olá!

Responde o rapaz ainda sorrindo.
Finalmente consegue ter uma conversação normal com alguém.

— Você está... É.... Bonita.... Hoje.
— Obrigado pelo elogio, Max.

A menina responde com um sorriso belo e direto.
Max até pode arriscar que é um tanto sedutor.
Deixa o garoto nervoso.
No que ele estava pensando.
Chamá-la de bonita?
Sente-se um bocó.
Desajeitado, Max vira-se para frente.
Termina de arrumar seu material na carteira.
Sempre de forma metódica e prática.
E durante todo o processo os olhos felinos da moça o seguem.
Mesmo quando ele não repara.
Ela o observa.
Com uma expressão séria.
Como uma tigresa pronta para dar o bote.
Quando o professor, Sr. Sidney, finalmente chega, a menina desvia o olhar.
Junto do Sr. Sidney, Benedetti entra na sala.
É o único aluno que ainda não havia chego.
Max olha atravessado enquanto Benedetti vai para sua cadeira.
Ângela senta ao lado do garoto Max.
Cumprimenta animadamente a amiga Rebeca.
A aula começa.
O Sr. Sidney passa alguns conceitos de programação avançada.
Fala sobre os sistemas operacionais.
O conjunto de programas cuja função é administrar os recursos de um sistema.
Por exemplo, definir qual programa recebe atenção do processador.
Ou gerir a memória, criar um sistema de arquivos e definir tarefas.
E é o software fundamental que controla todos os recursos do hardware.
Assim como o hardware faz com que o software possa ser executado.
É a relação de simbiose entre programa e máquina.
Software e hardware.
Essa conexão simbiótica pode ser feita, inclusive, à distância.
Com segurança de dados em ambos os lados da conexão, ela pode ser mantida ou rompida por rotinas de programação muito específicas.
Quando Sr. Sidney vira-se para a lousa e escreve sobre interfaces, Max leva um cutucão.
Ângela cutuca o braço do garoto com uma caneta.

— Max...
— O que...?

Os dois meio que falam por sussurros.

— Acho que posso te ajudar.
— Com o que?

Max responde a garota.
Por via das dúvidas, não deixa de manter um olho no professor.

— Posso te ajudar com o robô.
— Meu robô?
— É... Com a peça, lembra?

Disfarçam um pouco.
O Sr. Sidney comenta algumas coisas sobre o que anotou.

— É através dessa junção simbiôntica entre programa e máquina que temos hoje complexidade da Internet. Como bem sabem... A rede tão popular hoje em dia permite que uma consciência rasteje por meio de fibra óptica pelas paredes da realidade e emerja em outro mundo. Um mundo onde você tem qualquer coisa e faz qualquer coisa ou é qualquer um.

Pede para que todos copiem isso em seus cadernos.
Max e Ângela seguem a onda dos outros alunos e copiam também.
Quando o professor volta a escrever, os dois voltam a conversar.

— Quer dizer.... Pode descobrir o que a esfera é?
— Exatamente.
— Pode me falar o que tem em mente?

A garota olha em volta para saber se é seguro conversar.
Aparentemente é sim.

— Pensa comigo. Estamos sempre expostos a grandes quantidades de informações, certo?
— Certo...
— Na maioria das vezes é visual, e, principalmente, por escrito.
— Principalmente na rede.
— Exato. Mas geralmente andamos através do mundo sem prestar muita atenção em tudo.
— Nunca pensei sobre isso....

Dão uma pausa.
Rebeca finge escrever.
Na verdade, quer escutar a conversa dos colegas.

— Se tomarmos o cuidado de tentar olhar para os detalhes a nossa volta, às vezes...
— Detalhes?
— ... pode nos levar a uma surpresa.
— Eu prestei atenção ao que tinha em mãos e acabei em um mistério.
— Mistério?

Benedetti, do outro lado da sala, percebe a conversa.
Percebe também a atenção disfarçada de Rebeca.
O quanto ela ouve a conversa dos outros dois.

— Acho que as partes criptografadas da peça são para esconder informação.
— Esconder informação?
— É.... esconder informações vitais de um acesso não autorizado.
— Como... A combinação de um cofre?
— É uma boa analogia.
— Certo.... Mas que mistério é esse? Onde a peça se encaixa nisso?
— Quando estávamos na aula do Sr. Morrison e..... Acessamos os diretórios do seu robô... eu pensei numa coisa.
— No que?

Calam-se.
Sr. Sidney faz algumas perguntas para alguns alunos.

— A virtualidade da internet é real? E se não for, isso importa?

Ângela disfarça.
Copia a matéria da lousa.
É sua tática para ficar invisível ao professor.
Max só imita a colega.
Leva um tempo até a garota voltar a falar.

— Eu meio que pensei em quebrar essa criptografia.

De maneira imperceptível, Rebeca ouve por sobre o ombro de Ângela.

— Como?
— Se você me deixar acessar remotamente o diretório raiz do seu robô...
— Acesso remoto?
— É... me deixa acessar do meu computador lá de casa e eu resolvo isso.
— Mas... qual a relevância de fazer isso?
— À primeira vista, podemos estar deixando passar algo despercebido.
— Concordo.
— Olhando afundo... podemos encontrar a origem.
— A origem é a empresa Harmony, como tínhamos visto, certo?
— Sim. Mas precisamos dos detalhes. Assim podemos saber como funciona.
— Faz sentido o raciocínio.

Pouco antes do Sr. Sidney encarar toda a turma, os dois se calam.
Por um triz, não foram pegos conversando.
Seu professor vai discorrendo sobre sistemas operacionais e a realidade da rede.
Max puxa assunto discretamente.

— Acha que a peça possui informações escondidas mesmo?
— Sim.

Mostram-se compenetrados sob o olhar do professor.

— Professor.... Essa nova realidade da rede é um mundo verdadeiro?
— Ninguém sabe com certeza e a dúvida está enlouquecendo muita gente.

É só o Sr. Sidney se distrair com uma pergunta de Carla, a ruiva sentada na primeira mesa, que Ângela volta a falar.

— O documento me fez lembrar dos problemas e desafios que jogava com minha mãe.
— Como assim?
— É... Quando eu era criança.... Ela tinha livros de enigmas que sempre resolvíamos juntas.
— Então.... Acha que a peça é uma espécie de enigma?
— Sim.
— E acha que podemos encontrar alguma pista dela?
— Sim. Nos diretórios que pude acessar na aula, senti cheiro de enigma.
— Então, é nossa única pista?
— Devemos tentar obter tudo o que precisamos dela.

Benedetti, desconfiado, filma com o próprio celular a menina intrometida.
Deixa registrado, Rebeca de olho na conversa alheia.
É assim que o rapaz se destaca dos outros adolescentes de sua idade.
Ele sempre sabe de tudo, sobre todos.
Sempre registrando cada detalhe de cada conversa ou situação.
É sua forma de estar sempre um passo a frente de todo mundo.
Sr. Sidney exige que os alunos respondam as questões na apostila.
Para facilitar a conversa, Max ergue sua apostila.
Tampa seu rosto ao mesmo tempo em que finge estar estudando.
Uma boa tática.
Rebeca usa a mesma estratégia para ouvir a conversa sem ser descoberta.

— Mas o que podemos encontrar na peça?
— Esse é o mistério...
— Não, não.
— Como assim, não?
— É parte do mistério.

Max pensa um pouco.
Ângela sorri, empolgada.

—Tens razão. É parte do mistério. Ainda temos de saber como veio parar nas suas mãos.

Ângela complementa a fala de Max.
Estão em sintonia, no assunto.

— Eu vou tentar decifrar.
— Sozinha?
— É... Sou boa nisso.
— Se acredita que consegue...
— Deixa comigo. Só me dê acesso.
— Combinado.

Os olhos da garota brilham.
Max sorri, meio sem graça.
Atrás deles, Rebeca ri.
Ela ri discretamente.
Chama a atenção de Max.
E é o riso mais assustadoramente empolgado que Max já havia ouvido.
E se vira para prestar atenção no professor que já começa a anotar mais coisas na lousa.
Tudo isso deixa Max meio desconfortável e extremamente arrepiado.
Fora que, a pequena conversa com Ângela teve um teor conspiratório.
Sente-se como se fosse fazer algo muito transgressor.
Algo fora do feitio de Max.
Ele não considera seu robô uma transgressão.
A aula segue normalmente.
Por fim, o garoto Max não acha a matéria complicada, apenas.
Parece definitivamente impossível!
Ele está perdido em anotações sem sentido.
Em códigos escritos em uma linguagem totalmente nova para ele.
Segura a cabeça entre as mãos com um ar desesperado.
O robô custou sua vida social dentro do colégio.
Agora custarão suas notas.
Não tem sorte.


II

A rede está tão perto que não tem fronteiras.
Um cursor intermitente pulsa na escuridão elétrica.
Como um coração batendo com luz fosfórica.
Queima por baixo da pele de vidro preto e néon.
Os dados agora cortam toda a tela num prompt de comando.
Informações piscando mais rápido do que é possível ler.
A tela inteira se enche com colunas de números corridos.
Brilham como rebites elétricos numa construção virtual.
Os códigos numéricos repetem-se no prompt no canto superior da tela.
O computador desktop processa as informações sem parar.
As luzes do hd e da memória piscam ensandecidas.
Com os dedos sobre o teclado, Ângela está atenta a cada linha que surge.
Sozinha em seu refúgio, navega na internet noite adentro.
O seu quarto é completamente coberto de tecnologia.
Cabos semelhantes a ervas daninhas espalhando-se em todos os lugares.
Presas com fita adesiva em matagais que acabam ao redor das pernas de uma mesa.
A mesa é preenchida com equipamentos antigos, canibalizados.
Jazem abertos como cadáveres autopsiados.
Do lado oposto, o quarto da garota tem uma cabeceira bem bonita.
Feita sob medida para combinar com a forma da cama, retangular.
Toda repleta de botões florais desencontradas.
Oferece um divertido olhar feminino ao ambiente.
Entre a cama e a mesa, almofadas empilhadas, em tons brilhantes e formas diferentes.
Ao centro deste ninho de rato de tecnologia e meninice, o sorver e triturar de cereais.
Uma caixa aberta de sucrilhos de chocolate e outra de leite, ao lado de um mouse branco.
A pequena luz vermelha do sensor do mouse junta-se a luz vinda do monitor.
Com as janelas fechadas, são as únicas fontes de iluminação do cômodo.
Apenas o rosto de Ângela é banhado pela luz fosfórica.
Fios pretos do cabelo ondulado largam-se sobre parte do olho direito.
O seu pijama de cetim cor de rosa mal fica visível no breu do quarto.
Numa cômoda do lado oposto de Ângela, um porta-retrato aparece sob a luz.
Nele, a foto de uma mulher muito magra em um parque, abraçada com Ângela criança.
A mulher tem olhos castanhos como os olhos da garota e usa um lenço preso a cabeça.
Ignorando a foto, a garota suga o leite antes de mastigar as bolotas crocantes do cereal.
Sua atenção está totalmente vidrada ns informações computadorizadas.

— Max. Está pronto?

A garota conversa com o amigo pelo Voiceme, um software de comunicação por voz via internet.
 
— Estou. Acho que estou.
— Instalou o programa no computador?
— Sim. Instalei.
— Ótimo. Com isso vou poder acessa o sistema remotamente.
— Isso é realmente muito prático.
— Eu que o diga! Principalmente quando não posso ir à casa da pessoa por que ela quebrou o carro do meu pai.
— Você não vai me deixar esquecer disso?
— Meu pai não me deixa esquecer isso. Seu tio também não vai esquecer tão cedo.
— Ok, Ok. Será que podemos manter o foco?
— Claro. Conectou o cérebro positrônico no seu computador?
— Sim. Cabos conectados.
— Ótimo. Agora é minha vez.

No monitor, além da janela de prompt, uma outra está aberta na área de trabalho.
O programa aberto na segunda janela, TeamController, permite acesso direto ao cérebro do robô à distância.
A tecnologia do acesso remoto estabelece uma ligação direta entre dois computadores, criando uma espécie de “túnel protegido” na Internet.
Isto significa que a garota não precisa se preocupar em ser interceptada por usuários externos.
Ângela aperta o botão conectar.
Números de versões diferentes de software aparecem na tela numa disparada.
Conectou.

— Entrei.
— O que vai fazer?
— Vou tentar quebrar a criptografia da pasta raiz.

A garota desconfia que esse hardware misterioso seja muito mais do que aparenta.
Ângela tem confiança em poder revelar a origem da esfera.
Sabe que para isso, precisa decifrar o conteúdo da pasta.
Não é o primeiro desafio de criptografia que ela encontra.
Assim, decidiu tentar decifrar.

— Como fará isso?
— Vou usar o Icebreaker.
Ice o que?
Icebreaker. É uma série de rotinas que encontrei na rede, meses atrás.
— Rotinas?
— Uma porção de códigos que resolvem um problema muito específico.
— Ah.... Entendi. Onde achou isso?
Lurkando por aí. Até onde eu sei eram rotinas usadas pelos militares alemães na Guerra do Ferro.
— Isso é sério?
— Foi o que eu li. Dizem que foi bastante eficiente em quebrar a criptografia russa.
— E isso foi parar na sua mão?
— Todo mundo usa hoje em dia. Alguém no Anonymous deve ter vazado.
— Estou impressionado em como descobriu essas coisas.
— Eu já te falei Max. Gosto de resolver enigmas.
— Bem.... Vai fundo. Estarei esperando por aqui se precisar.
— Combinado.

Com tranquilidade, Ângela abre uma terceira janela no seu desktop.
Ela é experiente no uso desses programas autênticos de intrusão.
Não é uma novidade essa confiança que ela sente.
Usar suas rotinas para atacar as defesas da peça misteriosa e revelar seus segredos é só mais uma brincadeira dentre tantas outras.
Conectada, através da internet diretamente no sistema do robô, Ângela mergulha.
E no escuro raiado da conexão diante de seus olhos, o ciberespaço entra em existência.
Fervilhando, vindos dos confins do espaço das ideias.
Suave, pensa Ângela, mas não o bastante.
O mergulho passa por um túnel transparente que liga o computador da garota diretamente ao cérebro do homem-máquina.
Ao redor, imagens hipnóticas de códigos passando diante dela mostrando toda a aleatoriedade do fluxo de informações da internet.
Como uma mandala fragmentada e confusa de informação visual.

— Vou rodar as rotinas agora, Max.
— Ok.

Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de dados robô aparecem na tela.
 É, inicialmente, de uma complexidade impensável.
Linhas de letras e números alinhadas que abrangem o universo não espaço daquela mente artificial.
Nebulosas e constelações infindáveis de dados espalhados por todos os lados.
Lembra, para a garota, como luzes de cidade, retrocedendo e se conectando.
A realidade dessa conexão se inclina ansiosamente por sua vontade.
Ali, Ângela tem o poder.
E usar esse poder na rede é muito excitante para ela.
É uma forma de moldar um novo universo, construído a partir de dados.
Moldá-lo pela vontade.
Um universo de conhecimento e, talvez, de verdade.
Digitando rapidamente a rotina 63 do Icebreaker, o novo universo expande-se.
E fluorescendo para ela, como um castelo de néon fluido.
O desenrolar dos dados do seu lar na distância imensurável.
Como um outro país num tabuleiro, se estende até o infinito.
Muito para o alto, nas torres do castelo, as espirais de informações escondidas.
Os códigos que compõem a pasta raiz do sistema estão ali, diante dela.
Todos criptografados, severamente protegidos contra os invasores.
Para sempre fora do seu alcance.
Ou talvez não.
Aquela defesa pode ser quebrada.
Para acessar as informações dentro do castelo é preciso abrir as portas dele.
Portanto precisa encontrar a Key, a chave correta, atrás das linhas de defesas. 
Na perspectiva da rotina 63, a criptografia é um escudo representado por pontos.
Esses pontos são interligados por pontos menores como se fossem rebites.
Eles seguram o escudo intacto.
A rotina mapeia os vértices de diferentes rebites no escudo.
Os codificam em determinadas características e identificam os pontos frágeis.
Com isso, pode-se encontrar algum padrão de falha que desmonte o escudo.
Ou seja, os códigos de defesa.
Mas o processo exige baterias de análise automática.
Leva muito tempo.
Tempo o suficiente para deixá-la com fome.
Por isso Ângela come.
E, com a boca cheia, quase engasga ao ver que a análise termina.
Com o pressionar da tecla enter o resultado mostra-se negativo.
Primeira rotina.
Primeira derrota.
Engole de uma vez o cereal.
Esfrega os olhos.
Bufa.
Pensa.
Talvez outra opção seja mais viável.
Pondera por alguns minutos.
Decide fazer diferente.
A disposição dos rebites no escudo em si não importa.
O importante é o que está segurando o escudo.
Qual cavaleiro defende o castelo?
Ângela imagina.
Como a defesa se mantém ativa e integra?
Ângela dá mais uma bocada no cereal mergulhado no leite.
Mastiga longamente.
Não sabe qual rumo tomar.
Está indecisa sobre qual método usar.
Fazer o que sabe de melhor é uma opção.
Lidar com pessoas.
Falar com elas.
Usar suas conexões na rede.
Então, seleciona partes importantes do código criptografado.
Compartilha num fórum privado, o “Poirotchan”.
Reúnem-se ali, outras pessoas que gostam de mistérios e às vezes têm ideias muito boas.
Ela apresenta o tema perguntando como quebrar as defesas daquele código.
Não menciona a peça.
Pouco tempo depois, todos concordam em dizer que é complicado.
No fórum, não acreditam que é um assunto de criptografia.
A garota pede ajuda para resolver o desafio de decifrar o segredo do código.
Se conseguir, ela estará um passo mais perto de saber outros detalhes do mistério da peça.
Enquanto espera novas postagens relevantes, Ângela termina o seu cereal.
Ao mesmo tempo, barulho de chaves na porta.
Arranca a garota da concentração do mistério.
Percebe que já é noite profunda.
Seu pai chega do trabalho.
Gustavo é mais um dentre as centenas de funcionários da fábrica de comida pronta.
Muitos dos moradores do prédio e dos prédios adjacentes trabalham nessa fábrica.
Na decadência do bairro, a esperança de sobreviver está debaixo das chaminés.

— Max. Meu pai chegou. Nos falamos mais tarde, tudo bem?
— Claro, claro. Não quero lhe causar problemas.
— Obrigada!

O pai de Ângela, ao chegar cansado, vai direto cumprimentá-la.
Sabe que a filha está acordada por causa do som constante do cooler da máquina.
Abre a porta e o banho de luz invade o quarto da garota.

— Boa noite, filha. Como foi o colégio hoje?

Ângela põe a tigela vazia num canto livre da mesa.
Vira-se para trás e encara Gustavo.
Seus olhos ardem por olhar para o pai na contraluz.
Ficou tempo demais no escuro, pensa.

— Como sempre.

Fala quase bufando.
A adolescente não gosta de ser interrompida.
Gustavo, com uma expressão cansada no rosto, responde áspero.

— É esse comportamento que você tem que mudar.
— Meu comportamento?
— É. Essa sua impaciência.
— Não sou impaciente, pai.
— Está sendo agora. E tem sido sempre quando eu vou falar com você.
— Eu estava fazendo algo importante.
— Você tem 16 anos, Ângela. Nada do que faz é importante.
— Que absurdo!

Ela ajeita o cabelo para longe dos olhos.
Tem feições irritadas.

— Olha filha.... Eu tive um dia cheio. Estou cansado...
— Eu também estou cansada...
— Aliás, precisamos conversar sobre ontem.
— Sobre ontem?
— Você andou com o sobrinho do Walter sem a minha permissão.
— De novo essa conversa, pai?

A garota reclama.
Levanta da cadeira.
O pai dá um passo para dentro do quarto.

— Sim, senhora! Eu me preocupo com você! Não te quero metido com esse garoto por aí.
— Você fala como se você se importasse!
— E eu me importo!
— Mentira! Depois que mamãe morreu nada foi como antes!

Ângela tenta ir para trás.
Afasta-se do pai.
Esbarra na cadeira.
A cadeira esbarra na mesa.
A foto na cômoda balança.
Quase caí no chão.

— Falando na sua mãe.... Tenho algo para lhe contar.
— Aí. O que é?

Ângela ergue uma sobrancelha.

— Você sabe que sou reservado com relação a minha vida.... Amorosa.
— Ah não!
— Mas quero que conheça a minha namorada.

Gustavo avança.
Tenta tocar o rosto da filha.

— Estou com ela há uns meses e acho que está na hora de vocês duas se conhecerem.
— O quê?

A garota afasta a mão do pai com aspereza.

— É isso mesmo que você ouviu.
— Você quer substituir a minha mãe?
— Não fale assim, Ângela.
— Mulher nenhuma tomará o lugar dela!

Exasperada, Ângela não acredita no que ouve.

— Ângela, ninguém vai tomar o lugar da sua mãe.
— Mentira!

Gustavo é cortado.
A filha empurra o pai com as duas mãos.
O guia com força até a porta do quarto.
Quer ele fora do seu quarto.
Fora do seu mundinho.
Ângela bate a porta.
Não quer mais assunto com o pai.
Está com raiva.
Com saudade.
Preocupada.
Não tem cabeça para mais nada.
Num ímpeto, apaga o monitor.
Quer deixar o ambiente mais escuro possível.
Não se importa mais com a pesquisa.
Nem com o mistério.
Só quer sossego.
Na vida dentro do coração.
Joga-se na cama.
Coloca seus fones de ouvido.
E começa a ouvir uma de suas músicas favoritas.
Danger Zone.
Da Gwen Stefani.
Talvez a acalme.
Talvez a distraia.
De toda a dor.
De toda a saudade.
“It's not fair, it's not fair”.
“And don't leave me here”.
Sempre faz isso quando está com raiva.
Se cobre com o edredom colorido.
Fica na posição fetal.
Chora.
A música não ajuda.
Sabe que nunca ajuda.
Sente o vazio enorme no peito.
Falta da mãe.
A mãe que sempre a entendia.
Os afagos que ganhava em todos os momentos.
Mas agora, Ângela não tem mais mãe.
Nem afagos e nem compreensão.
É este o pensamento da garota sob o edredom.
“We are in a mess, a danger zone”.
“What will happen next?”.
Para ela, os problemas só aumentam.
Como um câncer a devorá-la de dentro para fora.
Como devorou o pulmão de sua mãe.

— Isto não é justo!

A menina reclama aos prantos.
Soca o travesseiro.
Chora.
E chora.
Pega no sono depois de muito chorar.
Algo que está virando um costume.
E no sono, revira suas entranhas.
Entranhas da memória e do medo.
Sonha com uma mulher alta.
Com um sorriso acolhedor.
A mulher é sua mãe, morta.
Os braços estendidos para receber sua filha.
Com um abraço.
Gelado.


III

Está em um mercadinho 24 horas.
Várias garrafas de água mineral estão dispostas num refrigerador branco.
Rebeca assovia bem baixinho o tema What a Feeling do filme Flashdance.
Estica o braço suavemente, como uma felina.
Pega uma garrafa.
Mas, assim que percebe que é com gás, faz uma careta.
Para ela, isso é uma questão relacionada aos princípios da boa forma.
Após beber água com gás, sente ficar um pouco inchada.
Portanto, opta por eliminá-la do seu cardápio diário.
Rebeca devolve a garrafa à prateleira.
Pega a água comum que está ao lado.
Verifica o prazo de validade.
A coloca em sua cesta de compra.
Em seguida, dirige-se às prateleiras de batatas fritas.
Pega um pacote.
Examina minuciosamente todos os valores nutricionais.
Ela também não agrada a Rebeca. 
Devolve-a.
Pega outra.
Novamente analisa as letras miúdas cuidadosamente.
Repete isso várias e várias vezes até encontrar a ideal.
O rótulo indica ser uma batata assada com sabor picante.
Rebeca caminha em direção ao caixa.
No trajeto, seus olhos fixam-se nas barrinhas de cereal.
Ela pega uma.
Verifica o prazo de validade.
Coloca na cesta.
Paga as compras no caixa.
Enfia as moedas do troco no bolso da jaqueta.
Deixa o mercadinho.
Senta-se na sarjeta a poucos metros da loja.
Abre cuidadosamente o pacote de batata assada.
Fora do mercadinho, a temperatura está mais baixa.
Suas coxas finas, expostas ao vento pela minissaia de couro falso, tremem.
A jaqueta verde clara deixa a mostra os dois botões da blusa desabotoados.
Exibe a curvatura dos seios pequeninos da menina.
O ar que Rebeca expira está esbranquiçado do frio.
Ela toma a água praticamente em um só gole.
Então, dá uma mordida numa batata.
Mastiga ao mesmo tempo em que pensa.
Leva um tempo prolongado para comer.
Quando finalmente come todo o pacote, limpa a boca e os dedos.
Usa o restinho de água mineral para a tarefa de higiene.
Pega o pacote vazio de batata, a garrafa também vazia e levanta-se.
Vai jogá-la no lixo em frente ao mercadinho.
Antes, verifica a hora no seu telefone celular cor de arco-íris.
Marca 2 da madrugada.
Rebeca olha em volta.
Ruas calmas.
Nenhuma viva alma fora dos prédios.
Olha para dentro do mercado.
O atendente completamente absorto na tarefa de não adormecer.
A menina faz um alongamento esticando os dois braços para o alto.
Respira fundo uma vez.
Duas vezes.
Olha em volta de novo.
Logo depois, enfia o saco e a garrafa no latão de lixo.
Demora-se com a mão lá dentro.
Parece tatear por dentro do objeto.
Como se procurasse algo.
Balança o latão.
Sorri.
Tira a mão de dentro do lixo.
Traz junto um objeto enrolado em um pano.
Rebeca, atenta a tudo em volta de si, desenrola o pano do objeto.
Revela uma pistola calibre 38 de 7 tiros.
Uma Taurus rosa pink.
Enchendo o pulmão com ar frio da madrugada, a menina enrola a arma outra vez.
Enfia no bolso da jaqueta, junto das moedas de troco.
Desconfiada, sai caminhando na noite.
Sempre suavemente. 


0 comentários:

Postar um comentário