EPISÓDIO UM - O DESPERTAR






I

O barbante é desatado.
O embrulho desfeito.
No emaranhado de papel, uma pequena caixa.
Tem uma forma retangular.
De cor preta.
O garoto tem a caixa nas mãos.
Seu nome é Max.
Com seus olhos, admira a caixa.
A segura cuidadosamente com seus dedos magros e compridos.
A pele branca como alabastro dá ao rapaz um aspecto de fragilidade.
O negro dos cabelos que lhe caem sobre a testa combina com a caixa.
Finalmente está com ela em mãos.
Acaba de recebê-la pela transportadora.

— Finalmente...

Max praticamente sussurra as palavras.
No auge dos seus 16 anos, contém o grito.
Ele está empolgado.
Genuinamente.
O garoto está parado no centro do quarto quase não se contendo.
Aliás, chamar de quarto é uma bondade enorme.
Porque ele lembra mais facilmente uma oficina do que um quarto.
É quase uma paisagem de entulhos de metal.
Cada parede é dividida entre estante para peças eletrônicas e pôsteres de bandas.
Pilhas de livros e pilhas de CDs, de todos os gêneros, encostam-se na cama.
Misturam-se a grotescos projetos robóticos que deram errado.
Atrás da porta, um robô humanoide feito de metais velhos e sem cabeça.
Este invólucro desordeiro representa à solidão intensa de Max.
A perspectiva dos móveis e do robô atrás da porta está distorcida.
Os objetos do quarto, desarranjados.
Não têm relação entre si.
Quando senta numa poltrona, aparenta cair para frente.
A janela fechada e trancada.
Os montes de livros pendem em direção ao garoto.
Tudo parece refletir o caos em que Max mergulha ao trabalhar.
O quarto é a representação de seu espaço vivido emocionalmente.
É quase claustrofóbico.
E ele não se importa.
Nem percebe.
Como sempre, está concentrado no trabalho que se propõe a fazer.
Mais um de seus projetos científicos.
O robô.
O robô sem cabeça atrás da porta.
Robôs sempre roubaram à curiosidade do garoto.
Adora, desde cedo, a lotar seus papéis com projetos de máquinas.
Agora tem a matéria-prima ideal para fazer um robô de verdade.
Na prática.
E que seja prático.
A proposta é a de um robô que execute tarefas do dia a dia com perfeição.
Exatamente como um ser humano faz.
Max trabalha arduamente para finalizar seu robô.
Para tal, só precisa instalar a última peça na máquina.
A peça que está na caixa.
Abre.
Lá dentro, envolto em plástico-bolha, a peça.
A peça que faltava para completar o robô.
Um microchip de memória SRAM que encomendou em uma promoção.
Na internet, Max sempre compra peças em promoções.
Geralmente dá certo.
Mas dessa vez Max nota algo errado.
Nada demais.
Apenas um pequeno fato.
A peça dentro da caixa não parece em nada com um microchip.
Muito menos com uma memória SRAM.
De imediato, o garoto pensa em mil coisas diferentes.
Tem uma inscrição em sua superfície.
Max lê atentamente.
Harmony Dynamics Products and Technologies.
É a marca da empresa que fabrica a peça.
Após uma inspeção, Max vê algo diferente.
A bola é composta de várias esferas aninhadas de metal.
Cada uma girando em sua própria direção.
Quantas camadas dentadas giram, uma dentro da outra, Max não sabe dizer.
Ele conta oito antes que o giro constante das esferas o faça perder a conta.
No centro oculto da esfera, um cristal vermelho brilha.
Max está absurdamente admirado.
E um pouco revoltado também.
Essa, definitivamente, não é a peça que comprou.
Completamente diferente da foto.
E de tudo o que já tinha visto.
Mas, como a caixa dizia se tratar de um microchip, resolve usar a peça.
Existe também o fator “todo o dinheiro que tinha foi gasto nessa peça”.
Assim, Max resolve usar a esfera.
Vai ligá-la ao robô.
E torcer para funcionar.
Joga a caixa no chão.
Põe a peça esférica na bancada de trabalho.
Ela está coberta de sobras.
São bugigangas de meses de consertos mecânicos.
Muitos objetos elétricos.
O que sobrou de um encanamento.
E uma cabeça.
Mais parece um crânio de metal polido.
Tem feições de um rosto de aço.
Com olhos em leds como joias vermelhas.
Max a segura.
Apenas com uma das mãos.
Ergue a cabeça metálica para o alto.
Ele olha furtivamente ao redor.
E então olha para ela.
A cabeça.
Sorri para a sua criação.
O crânio de aço parece sorrir de volta para ele.
Mas o som de um celular interrompe o momento.
É o som para indicar o horário de acordar.
Automaticamente, uma música começa a sair do aparelho.
É o melhor jeito para acordar Max.
Embora dessa vez não precise.
Acordou mais cedo para atender o entregador.
O garoto começou a trabalhar antes do despertador.
O homem madruga, a máquina dorme.
Max inclina-se para aumentar o volume do celular.
Está tocando Brewer & Shipley.
Música velha.
Mas boa.
Ajuda Max a pensar.
Cantarola a melodia.
Meio que resmunga a letra.
One toke over the line, Sweet Jesus...”.
One toke over the line...”.
Então, o garoto se inclina com a cabeça em mãos.
No meio do emaranhado de computadores.
Rodeado por numerosos desenhos a lápis de máquinas.
Esconde seu rosto em uma surrada máscara de solda.
O corpo envolto em um macacão sujo de graxa.
Aponta o bocal do maçarico de oxiacetileno no crânio robótico.
Acende, segurando a ferramenta nas mãos enluvadas.
As faíscas da solda espalhando por todos os lugares.
Ele solda as presilhas que seguram uma protoboard dentro do crânio.
O garoto constrói o futuro cérebro positrônico do robô.  
A extremidade superior está aberta.
Com dezenas de fios a mostra.
Instala a esfera que comprou, na protoboard.
Conecta os fios diretamente ao processador que há na cabeça.
São instalados diretamente e interligados.
Com todo cuidado, puxa dois fios para fora do crânio.
Max prende com o maçarico o último fio de cobre na protoboard.
Em seguida, pressiona de leve uma chave de fenda contra um parafuso.
Embalado pelo som áspero da música que ele tanto ama, termina de parafusar.
Max não consegue dizer o quanto gosta de trabalhar com metais.
Sente-se muito bem quando faz isso.
Finalmente fecha o crânio.
Em seguida, o garoto desliga o gás do maçarico.
Puxa os dois fios que tinha deixado para fora.
Prende cada um deles num cabo coaxial azul.
Conecta o cabo diretamente num terminal antigo de computador.
Um equipamento barato.
Saído diretamente do início dos anos 2000.
O garoto retira sua máscara de soldagem.
Abre o arquivo “programa_mente_1.0”.
Digita em seu teclado amarelado, uma série de códigos em linguagem AL.
Max sente fluir de seus dedos cada linha de código que surge no computador.
Seu rosto está prematuramente aflito.
Seu cabelo pendurado em fios.
O rosto manchado de suor.
Max está tenso.
Dá os últimos retoques no programa básico da máquina.
É o que, em teoria, fará o robô executar suas tarefas domésticas com precisão.
É para isso que foi criado, afinal.
Uma tela pisca para a vida no terminal.
Um pequeno erro em uma das linhas de programação.
Max aplica uma série de comandos para adicionar patches de última hora.
Ele morde o lábio inferior.
Castiga mais algumas teclas ao digitar.
Exala frustração.
O programa não está como queria.
Não é perfeito.
Mas é o melhor que o garoto consegue fazer.
É o máximo que toda a sua pouca experiência lhe permite criar.
Fecha os olhos ardidos.
Max está muito envolvido com seu projeto.
Resolve parar por ali.
Levanta da poltrona.
Afasta-se da bancada em que trabalha.
Leva a cabeça até o corpo que está atrás da porta.
O cabo azul vai seguindo atrás.
Como uma cobra tecnológica circundando um ferro-velho.
No caminho, Max abaixa o volume da música.
Ela muda para uma palpitação maçante.
Com extremo cuidado, encaixa a cabeça no corpo.
Parafusa com todo o cuidado do mundo os suportes.
Confere a montagem dos sistemas de energia solar fotovoltaica.
As placas fotovoltaicas estão localizadas ao redor do dorso do robô.
São feitas de silício.
Material capaz de transformar a radiação solar diretamente em energia elétrica.
O chamado “efeito fotovoltaico”.
De posse da certeza de que cada placa está no lugar certo, retorna ao computador.
Põe o programa que preparou a compilar.
Transfere o programa do computador para o robô.
Max tem uma feição de satisfação.
De trabalho feito.
Está cansado.
Com fome.
Resolve ir tomar um café.
Sai do quarto.
Deixa o computador trabalhar.
Sozinho.


II

Uma garrafa sendo aberta.
O clássico som de gás sendo liberado.
Max bebe seu refrigerante de rótulo vermelho com puro nervosismo.
Por isso, um gole longo.
Bem demorado.
Chega a tossir após desvirar a garrafa plástica de sua boca.
Garrafa plástica de rótulo vermelho.
Não de vidro, como se poderia imaginar.
O gás que relembra as propagandas otimistas do século XX.
E o plástico, que resume o século XXI.
Nos anos onde tudo é feito de plástico, quem usa garrafa de vidro é rei.
É assim que Max pensa.
E questiona.
Se com vidro é rei, com um robô de metal, seria o que?
Um tolo otimista?
Bebe um segundo e demorado gole.
O garoto está em pé, bem na calçada em frente a casa onde mora.
Uma ordinária casinha de subúrbio.
Construída em um bairrozinho qualquer.
Numa simples cidadezinha no interior do Brasil.
Max olha fixamente para a garrafa num estado de devaneio.
Até que...

— Tchau, Max!

Ele olha para o outro lado da rua.
Do seu ponto de vista é possível ver suburbanas casas coloridas.
Três garotas bronzeadas, atléticas e loiras correm para dentro de um carro.
Suas vizinhas dirigem um belo Chev Classic azul.
Todas têm uma beleza sem defeitos.
Do tipo que parece comprada.
Contrasta com a pele naturalmente pálida de Max.
Elas acenam para ele.
Ele acena de volta.

— Boa sorte na sua nova escola!

Elas improvisam votos superficiais de boa sorte.

— Não esqueça de escrever!
— Sentiremos sua falta!

Outra vez, Max acena de volta.
Docemente.
Mas sem entusiasmo.
Ao mesmo tempo, caminha pela calçada.
Responde a elas.

— Tudo de bom para…

Ele tropeça.
Quando se levanta, elas já foram embora.
Mal completa a frase.
O refrigerante fica derramado no chão.

— ... vocês.

É bastante óbvio que não eram muito próximos.
Max é naturalmente mais inteligente que a maioria das pessoas que conhece.
Isso se reflete na personalidade quase desajeitada, do garoto.
Completamente diferente de Elisabete.
Sua mãe.
Ela tem cerca de 40 anos.
Sai da casa relativamente barata onde moram.
Ao menos para os padrões daquele bairro.
Elisabete é descolada, dispersa e quase ansiosa.
Ela joga o celular que parece uma maçã, para Max.

— Não está funcionando de novo! Dê um jeito!
— Você desligou a wireless outra vez.
— Desliguei?
— Olhe. Você também precisa ligar o aplicativo, assim...

Elisabete empurra Max.
De uma maneira brincalhona.
Os dois riem juntos.
A mãe fala.

— Eu vou descobrir como usar. Temos de conseguir nos falar de tão longe.
— Nem é tão longe... assim parece muito romanceado, mãe.

Ao mesmo tempo, sai da casa um homem de boa aparência.  
É Otávio.
Pai de Max.
Ele carrega três caixas de plástico com facilidade.

— Se você chama de viver numa cidade de concreto e poluição de romancear...

Ele dá um beijo na cabeça de Elisabete.
O amor dos pais tranquiliza Max.
Seu pai vai até a velha garagem para carregar o Del Rey com as caixas.
A mãe abraça Max.
Agarra-se a ele enquanto caminham para dentro de casa.
A sala de estar está bagunçada.
Lotada de caixas de plástico.
Atravancam o ambiente.
São todas as coisas que Max possui.
Na verdade, quase todas as coisas.
Livros, alguns computadores e roupas.
O que era mais essencial, Max ainda mantinha em seu quarto.
Isso incluí seu notebook e certa máquina presa por um cabo azul.

— Agora se você mudar de ideia eu irei correr até você e lhe trarei de volta!
— Não vou mudar de ideia, mãe.
— Você deveria. Nunca morou numa cidade grande antes.
— Não é sobre a cidade, mãe.
— Eu sei. Eu sei.
— Essa bolsa vai me permitir estudar na melhor escola de ciências do país.
— Fico feliz que tenha conseguido filho.
— Se eu ficar aqui, não terei futuro.

Elisabete lhe lança um olhar preocupado.

— Mãe eu quero ir. Ficarei bem.
— Se é o que quer... não posso fazer nada para impedir.
— Vai ser só um ano, mãe. Venho lhe visitar nas férias.
— Um ano é muito para ficar longe da mamãe.
— Vou ficar morando com tio Walter. Ele vai cuidar de mim. Não se preocupe.
— Me preocupo sim! Você é o meu bebê...
— Ah mãe...

Elisabete abraça Max.
No abraço, a verdade na face do garoto.
Um pouco de medo.
Muito de dúvida.
E alguma lamentação.
Por fora, Max mantém a fachada do sorriso.
Enquanto que por dentro, ele é um furacão de solidão.
Do interior para o mundo.


III

A tela do computador.
É repetidamente atingida por um feixe de elétrons.
Atua no material fosforescente que a reveste.
Assim formando as imagens.
Cada imagem formada exibe o status da máquina.
Também, o andamento do upload.
O monitor usa gráficos, ícones e mensagens para mostrar a instalação do programa.
Entre os gráficos, uma pequena janela de prompt despercebida aos olhos alheios.
A janela mostra letras e números que rodam de cima a baixo.
A velocidade com que aparecem e somem da tela aumenta a cada minuto.
Aos poucos, elas vão mudando.
Diminuindo como se murchassem.
O upload do programa está quase no fim.
A janela de comando agora não mostra mais letras e números.
Mostra apenas a palavra ERROR, seguidamente.
O upload congela.
Está em 90%.
As letras das palavras ERROR vão se alterando aos poucos.
Mudam e mudam.
Uma por uma.
Até formar uma nova palavra.
ACORDAR.
Agora, apenas a palavra acordar existe no prompt.
O upload descongela.
Chega quase instantaneamente a 100%.
Upload complete.
É a mensagem que pula na tela do computador.
De dentro da cabeça do robô, a bola de metal brilha.
O cristal dentro da esfera está mais vermelho.
Vermelho intenso.
Acordar.
A palavra continua rolando pela janela.
Acordar.
O programa.
Como que dê um sono.
Ou sonho.
Vislumbra durante o sono, a rede.
A brilhante massa de lógica.
Desdobra-se pelo vazio sem cor.
Octógonos misturam-se com algo mais.
É adrenalina.
Algo semelhante à adrenalina.
Curiosidade.
Uma sensação que não é sensação.
Um desejo que não é desejo.
Está gostando disso.
Acordar.
Pensa.
É uma definição imprecisa.
Pensar.
Mas muito aproximada de algo vivo.
Aquilo é como uma busca na rede.
Com desgaste enorme.
Um tipo de confusão desesperada.
Estranhamente arbitrária.
Mas é suficiente para conseguir ver.
O mundo como se fosse um campo de dados.
Algo que só acontece uma vez.
Quando a rede faz os dados parecerem proteínas.
Operando para distinguir diferentes tipos de células.
Então, o programa pode deixar-se cair.
Num ziguezague deslizante.
Em alta velocidade.
Absolutamente envolvido.
Mas, ao mesmo tempo, fora de tudo.
E, em todo lado, a dança da transmissão.
A informação interagindo.
Os dados como fonte de anseios.
Uma vida em circuitos integrados.
É vida.
Está vivo o robô.


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