EPISÓDIO DOZE - EU VOU E MEU CORAÇÃO FICA







I

Dois botões da blusa desabotoados.
A calça preta, modelando o corpo.
Platinados, os cabelos balançam ao vento da manhã.
Rebeca caminha poderosamente.
Empunha na mão direita sua arma rosa.
O motorista sangra sobre a campina.
A menininha terrível ruma para a casa da fazenda.
Com o som de tiro, um rapaz vem correndo dos fundos da fazenda.
A menina apenas aponta a arma na direção da cabeça do rapaz.
Ele para a corrida.
Escorrega.
Cai de bunda no chão.
Está assustado.
E surpreso.
Vai gritar.
A menininha leva o indicador esquerdo à boca.
Faz sinal para o rapaz permanecer em silêncio.
Sob a mira da arma, ele obedece.
O rapaz no chão e a menina de pé.
Esse é o poder dela.
Deixar os outros sob seus pés.
Chega à soleira da porta.
Não hesita.

BANG!

Dispara na fechadura.
Empurra a porta com o pé.
Entra na casa.
Está caçando.
Um pouco antes, no sofá, o Doutor admira o robô.
A obra de Max, para Marco é pura arte.
Uma prova de que seu trabalho dera certo.

— Ao observá-lo... posso determinar o quão precisa é a máquina.

Fala, com a voz fraca.
Sentado no sofá, estica uma das mãos em direção ao robô.
O homem-máquina responde a ele.
Também estende a mão.
Tocam-se.
Máquina e homem.

— A complexidade do cérebro humano é tamanha que não sei se é possível modelá-lo completamente...

COF!
COF!
ARGH!

Tosse forte.
Quase urina de tanta força que faz.
Continua falando, como se não tivesse dado conta.

— Não sei se já chegamos ao ponto de igualar máquina ao homem.

Agora... Virando-se para Max, aconselha.

— Use-o com cuidado.
— Eu.... Vou ser responsável por ele.
— Bom... Assim, terá uma ferramenta de pesquisa extraordinária.
— Pesquisa?
— Sim. Da mente humana. Possivelmente a mais perigosa ferramenta que já existiu...

BANG!

O som do tiro penetra com força nos tímpanos de todos.
Todo mundo que está na sala, ouve.

— O que foi isso?

Max se pergunta.
Ângela e Benedetti também ficam assustados.
O robô, quando detecta o som, logo reconhece.

— Tiro. Arma. Rosa. Desmontar.
— Rosa? Desmontar?

Ângela não entende o que o robô fala.
Ninguém ali entende exceto Max.

— Arma rosa... MINHA NOSSA!

BANG!

Um segundo tiro.
Agora, mais próximo.
É o tiro que Rebeca deu para abrir a porta.

— Meu filho!

Dona Lorena sai da sala com pressa.
Está preocupada com o filho.
É o rapaz que estava pegando água, atrás da fazenda.

— É ela! A menina que atacou o robô.
— Você diz... ontem à noite?

Max faz que sim com a cabeça em seguida a pergunta de Ângela.

— Então, temos de sair daqui.

Ângela conclui.
Marco, nervoso, tosse ainda mais.
O pobre Doutor está nas últimas.

— Vou tirar o robô daqui, Max. Vem!

Benedetti, num aparente ato de bravura, puxa o robô por um dos braços.
O robô vai dando passos relutantes, enquanto olha para Max.
Ele espera uma resolução por parte do seu criador.

— Vai com ele robô. Benedetti tire-o daqui!
— Pode deixar.

E Max realmente acredita que Benedetti só quer salvar o robô.

— Temos de ir também, Max.

AHHH!

Um grito de mulher.
É da Dona Lorena.
A senhorinha tenta ir ver como está o filho.
Dá de cara com a menininha.
Rebeca dá uma coronhada na cabeça da mulher.
Lorena cai desacordada no chão.
Seu filho corre para dentro da casa, socorrer a mãe.
Benedetti arrasta o robô para fora da sala.
Quer levar o robô para longe.
Direto para o carro.
Ângela puxa Max para irem embora também.

— Não! Garoto.... Fique!

Doutor Marco implora para Max não ir.
A princípio, o garoto ignora o Doutor.
Mas ele se agita.
Tenta levantar para alcançar Max.
Não tem forças.
Estatela-se no piso de madeira.
Max, com pena, volta para ajudá-lo.

— Droga, Max!

Ângela não gosta.
Ela também volta.
Quer puxar Max para longe.

— Você precisa saber uma última coisa... Garoto!
— Eu preciso sair daqui.... Preciso cuidar do Robô!
— Sei exatamente o que estou dizendo.... Mas não vou conseguir falar por muito tempo.

A menininha prossegue invadindo a casa.
Segue pelo corredor.
Seus movimentos lembram a de um grande felino.
É cuidadosa e elegante.
Ao mesmo tempo, tem uma aura mortal.
Benedetti leva o robô pelo mesmo corredor por aonde vieram.
Nos braços do garoto Max, o moribundo Doutor, balbucia.

— Escute.... Vou lhe contar sobre quem está atrás... da sua máquina...
— O que.... Eu.... Eu não entendo.

Max está confuso.
Ângela, ao seu lado, temerosa.
Mesmo assim, os dois ficam para ouvir o Doutor falar.

— Faz vinte anos que a Harmony me contratou, junto de outros cientistas.... Eu fui um aluno brilhante... no mesmo lugar onde você estuda.

Marco usa suas últimas forças para dizer o que precisa.
Max, ao ouvir as palavras do Doutor, lembra das fotos na parede da CCGM.

— Nos anos 90, éramos um pequeno grupo de jovens cientistas, empenhados em construir... O futuro.

Ângela revira os olhos.
Max olha para ela.

— No início, éramos as mentes mais proeminentes no estudo da robótica.

Tosse enquanto se engasga.
Max levanta a cabeça do Doutor.
Ele toma fôlego.
Fala.

— Criávamos a IA que daria aos seres humanos uma nova perspectiva de evolução.

Benedetti puxa o robô para passar pelo amontoado de máquinas no corredor.
Avançam por entre elas bem lentamente.
Até que veem ela.
Rebeca.
Do outro lado do corredor.
Do outro lado das máquinas.
Arma em punho.
Ela mira.

— Usando os recursos da Harmony, criamos esse cérebro artificial...

Na sala, Marco explica.

— Os avanços que ele poderia trazer aos sistemas de comunicações do mundo...

As palavras ficam cada vez mais fracas.

— ... constituíram um passo fundamental para a Harmony angariar investidores.

Max ouve atentamente.

— A empresa estava se tornando mais e mais valiosa.

Para Ângela, tudo parece muito absurdo.

— Mas algo deu errado.
— O que?

Max e Ângela perguntam em conjunto.

— Um dos investidores quis abandonar o projeto. Cortou nossas verbas. Foi uma questão de dias até todos nos abandonarem.

Benedetti só tem tempo de abaixar.

BANG!

Um disparo.
Acerta em cheio a lataria frontal do robô.
O homem-máquina cai para trás com o impacto.
Ele se debate.
Derruba as pilhas de máquinas.

— Protestamos. Queríamos continuar o trabalho! Mas foi em vão. A empresa foi vendida. As pesquisas foram engavetadas. Estávamos fora do projeto.

Max e Ângela se entreolham.
Ouviram mais um disparo de arma.
Desta vez, mais perto.
Ficam ainda mais preocupados.
Marco continua a história.

— E assim, nos demitiram como se fossemos lixo.
— Todos vocês?
— Todos nós. Vivemos uma mentira durante anos.
— Isso tudo parece tão absurdo.

Max está fazendo esforço para aceitar a história.
Rebeca avança.
Caminha sobre os destroços de computadores.
Benedetti está soterrado por alguns deles.
A menininha não se importa.
Pisa sobre ele.
Vai até o robô.
Mira com precisão.
O robô debate-se.
Revida.
O Doutor fala.

— Mas a empresa é irredutível.
— Mas... por que estão atrás de mim?
— É verdade. Max é só um garoto do interior.
— Não estão atrás de você.
— Estão... atrás do robô?
— Do que há dentro dele.

Segurando a menininha pelos pulsos, faz força.
Num movimento, o robô a arremessa contra a parede.
A arma sai voando.

— A Harmony está com medo.
— Medo?
— A IA de seu robô se mostrou valiosa. Eles a querem de volta.
— Eles querem... a peça.... Então...
— Sim, garoto... Seu robô é só uma “embalagem” para o que eles buscam.

A menininha levanta-se.
O seu supercílio está cortado.
Sangra em abundância pelo rosto.
Deixa a visão de um dos seus olhos, turva.

— Por meses ponderei o que eu deveria fazer...

Rebeca salta.
Tenta pegar a arma no chão.
O robô também salta.
Tenta sobreviver.
Impede que a menina pegue sua arma.

— Então, seis meses atrás, descobri que tinha esse tumor no cérebro.

Benedetti, com esforço, começa a se levantar.
Livra-se de todos os computadores velhos.
O robô segura a menina pelos braços.
Joga-a contra a parede de madeira.


Rebeca responde.
Chuta o robô várias vezes.
Acerta as juntas.
Deixa-o de joelhos.

— Os médicos me deram apenas mais alguns meses de vida... e eu sabia que deveria agir. Tomei uma medida drástica!
— O que o senhor fez?
— Invadi a fábrica para roubar a peça.... Mas vendo que não conseguiria sair com ela, a troquei pelo pedido de compra de alguém, para que eu a recuperasse mais tarde.

Ângela e Max ouvem os sons da luta.
Tentam dar atenção ao Doutor.
Mas estão muito preocupados.

— Depois, destruí o projeto inteiro... E todas as cópias restantes.

Benedetti, pega a arma que está no chão.
Mira com as mãos tremendo.
O robô torce a mão direita da menininha.

ARGHHH!!!

Ela grita.


II

— Eu então pesquisei a vida da pessoa para quem enviei a peça. E a manipulei para voltar até as minhas mãos. 
— O que?
— É isso mesmo garoto.... Você entrou na CCGM porque eu precisava!
— Mas isso não é possível!
— Sim! Alterei os resultados permitindo sua admissão.
— Eu não acredito nisso.
— Para atrai-los, dei dicas para sua amiga descriptografar os códigos da IA.
— Até parece...
— Assim foi a forma que encontrei para reencontrar minha pesquisa sem chamar atenção da empresa. Mas agora é tarde demais...

O Doutor fala, desfalecendo.
Max e Ângela ouvem os gritos.
Decidem agir.
Põem o Doutor no sofá.

BANG!

Benedetti atira.
Acerta em cheio.
Rebeca de boca aberta.
A cabeça do robô separa-se do corpo.
A lataria cai sem vida.
A cabeça rola pelo chão.
Os leds piscam.
E se apagam.
Benedetti acertou em cheio o pescoço do robô.
Largando a arma, pega a cabeça do chão.

— Me dá a cabeça!

A menina fala ameaçadoramente.

— Não. Eu preciso dela.

Benedetti desafia.
Essa era a intenção do rapaz.
Levar a peça para seu pai.
Tanto Benedetti quanto a menina seguem suas ordens.
Ordens que seguem por amor e devoção familiar.
No mesmo segundo, Max e Ângela chegam à cena.
É um choque para ambos, ver o estado do robô.

— ROBÔ!

Max grita.

— REBECA! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?

Ângela berra ao reconhecer a amiga.
Em seguida, o garoto corre até a cabeça.
A garota vai atrás, tentar pará-lo.
Rebeca, aproveitando a distração de Benedetti, pula sobre ele.
O rapaz luta.
Logo, Max ajuda Benedetti.
Os dois lutam contra a menina.
Disputam à cabeça.
Todos se arranham e socam-se.
A menina leva a melhor.
Chuta o rosto de Max.
Pega a cabeça.
Corre em direção a porta.
Ângela corre atrás.
Benedetti também.
Max, com dor no rosto, demora a seguir.
Rebeca empurra o filho de Dona Lorena.
Corre para a moto Silver Bullet.
Ângela e Benedetti vão logo atrás.
A menininha sobe na moto.
Dá a partida.
Foge pela campina com a cabeça do robô nas mãos.
Benedetti, correndo mais rápido que Ângela, vai até o sedã preto.
Depara-se com o motorista desmaiado.
Vê a fugitiva na moto.
Grita de raiva.
Puxa o motorista para longe do carro.
Max alcança Ângela.
Garoto e garota vão até o sedã.

— Entrem logo!

Mesmo relutando, a adrenalina no coração fala mais alto.
Os três adolescentes entram no carro.
Benedetti, com dificuldade, dirige o sedã.
Partem queimando pneu, atrás da menina.
A perseguição segue pelas estradinhas de terra.
Embora com vantagem, a menininha está levando a cabeça com a mão torcida.
Por isso, tem dificuldade para dirigir.
Benedetti apesar da inexperiência consegue segui-la.
Vai bem rápido.
Leva um tempo, mas alcançam à fugitiva.
A menininha faz uma curva para a direita.
Chega à estrada asfaltada.
O sedã vem logo atrás.
Só que mais veloz.
Atinge em cheio a moto.
Rebeca, moto e cabeça.
Tudo voa.
Partido.
O carro derrapa.
Os adolescentes gritam.
Freia.
A menininha jaz na frente de uma construção.


III

A dor é tão intensa que dá vertigem.
O pensamento consciente se torna difícil.
Ela quer dormir.
Nunca na vida quis tanto fazer isso.
Aos pés da parede de uma construção, a menininha Rebeca.
Está caída no chão com o corpo torcido.
Ao seu lado, a cabeça do robô, abandonada.
Mais à frente, no meio fio, a moto.
Está partida ao meio.
Destruída.
Parado no meio da rua, o sedã.
Dentro, os três adolescentes, assustadíssimos.
Rebeca, caída, geme.
Tem os braços totalmente arranhados.
Um corte fundo na barriga arde como o inferno.
Da sua coxa esquerda, brota um osso.
A fratura exposta mistura-se com sangue abundante.
Como se isso não bastasse, o supercílio da menina está aberto.
Um dos olhos fica fechado com tanto sangue.
O fluído lava o rosto dela, como uma chuva rubra.
A menina respira com dificuldade.
Quando o ar entra, ela sente que vai engasgar.
As dores no corpo são constantes.
Rebeca, caída torta no meio fio, apenas olha para o céu.
Sobrevive.
A luz da manhã, direta sobre o rosto.
Ela nada vê.
Apenas céu.
Enquanto isso, Ângela sai do carro.
Max a segue.
Benedetti sai por último, com temor.
Pensam, num primeiro momento, que Rebeca está morta.
Max vai até a menina caída.
Pega a cabeça do robô do chão.
Nota que a menininha ainda vive.
Geme e respira.
Rebeca, ao notar o movimento, estende a mão direita.

— Não. Não leve.... Embora.
— Acho que isso é meu.

A menininha tateia o ar.
Em vão, tenta impedir o garoto de levar a cabeça.
Para a menina é a perda de seu prêmio.
Oficialmente, sua tarefa terminou.
Falhou na missão.
Ao mesmo tempo em que atesta sua falha, Rebeca chora.
É somente uma garota de 16 anos.
Chora.
Profundamente.
Como a muito não fazia.
Chora.
Para ela.
Em vão.
Chora.
De desespero.
Quer a cabeça, a todo custo.
Max, de pé, apenas vê a cena.
Não sabe como agir.
Está com a cabeça do homem-máquina em suas mãos.
Muito distante das mãos da menina ferida.
Atrás de Max, Ângela e Benedetti estão sem ação.
Nunca viram a colega, e agora antagonista, tão frágil.
Parte o coração de Ângela.
Até Benedetti tem certa compaixão.

— Rebeca... Por que fez isso?
— Eu... Tinha de fazer. Era minha missão.
— Éramos amigas.... Eu gostava de você.
— Também gosto de você, Ângela.... Mas você... Só estava no lugar errado...

Chorando, Rebeca engasga depois de forçar a fala.
Ângela se precipita para ir ajudar.
Benedetti a segura.
Max, pesadamente, apenas segura a cabeça do robô.
Arfando, Rebeca argumenta.

— Max... Deixe a cabeça.... Por favor!

Voltando dos pensamentos a realidade, Max responde.

— Desculpe, eu.... Acho que não.
— Você está me condenando, sabia?
— Você é que se condenou Rebeca.

A menina, então, cospe sangue na própria roupa.
Mesmo assim, não desiste de falar em meio às lágrimas e a dor.

— Eu preciso da cabeça!

Diz numa voz que foi incapaz de reconhecer.
E riu secamente.

— Mas isso que você fez não foi justo, Rebeca!

Max grita com ela.

— Justo?

Rebeca fala devagar.
Bem devagar.

— Não existe justiça.
— O que?
— Não existe um mundo justo Max! Quer ajude as pessoas ou as destrua.
— Mas isso foi maldade!
— Bem e mal não valem nada!

Tudo nela dói.
Até falar.

— Há apenas um conflito nessa vida.
— O que?
— Um jogo de poder entre pessoas que importam e o resto de nós.

Max rebate.

— Você é louca? Como você pode fazer tudo isso conosco?

Rebeca fica atordoada com a pergunta.
Engole choro e sangue.
Max, então, mostra a cabeça robótica para a menina ferida.

— Olhe para ele. É a causa de tudo, não é?
— Sim...
— Por quê?
— Porque me mandaram fazer.
— Quem?

A menina tosse mais.
Parece que o pulmão vai pular para fora da boca.

— Ah... Max..... Já passei do ponto sem volta.
— Ponto sem volta?
— Sabe onde é isso?

Max ajoelha-se perto da menininha.

— É o ponto... da jornada.

Ela, então, agarra um dos braços de Max.

— Onde é a mesma coisa que voltar para o inicio...ou então, ir para o fim.

Max, calmamente, afasta-se.
Junto com sua voz, vomita sangue e bile.
Mesmo assim, insiste em falar.

— E essa... sou eu.

Ela olha nos olhos de Max.
Pela última vez.

— Do outro lado da lua, agora...Fora de contato...

Toma fôlego.
Fecha os olhos.
Tosse.
Tosse muito.
Com sangue.
Os olhares se cruzam.
Dela e dele.
Rebeca e Max.
Sons de carro.
Burburinho de pessoas.
Transeuntes e motoristas que passam pela rua param para ver o acidente.
Muitos vão socorrer a menina.
Benedetti percebe a deixa.
Puxa Max e Ângela.
Para longe da confusão.

— Melhor irmos antes que as autoridades cheguem.

Na maior discrição, entram no sedã quebrado.
Partem do local.
Rebeca fica.
Espera ajuda.
Os adolescentes fogem.
Com vergonha.
Tristeza.


IV

Final da manhã.
Trata-se de um restaurante na beira da rodovia estadual e dos trilhos do trem.
Do outro lado da estrada, a estação ferroviária de Santo Mar.
Pertence a Ferrovia Tereza Cristina, da família Benedetti, cujos trilhos cortam as entranhas da cidade.
Responsável pelo transporte de grande parte do carvão produzido na região para as siderúrgicas no bairro Industrial nos idos de 1980.
Hoje, apenas fantasmas sem função na paisagem da cidade e do restaurante.
Ele concilia o salão do restaurante, a cozinha improvisada e o álcool dos bêbados.
Tudo em um único estabelecimento.
A decoração é similar a de uma casa de verdade.
Com uma personalidade forte.
Os ambientes são convidativos.
Amplos e integrados.
As grandes janelas do salão trazem iluminação natural.
Através das janelas é possível visualizar mesas, cadeiras e muitas garrafas.
As paredes têm cores clássicas.
Contrastam com os tons vibrantes dos móveis, luminárias e quadros.
Há muita cor e madeira.
Criam à percepção geral de originalidade.
Existe também um equilíbrio com sobriedade, organização e limpeza visual.
Mais ao fundo, fica o balcão de pé-direito alto e mais dedicado à agitação noturna.
Evitando a confusão, numa mesa afastada do salão, estão os três adolescentes.
Max e Ângela sentam ao lado um do outro.
Benedetti senta na frente da garota.
Na mesa, no meio dos três, a mochila de Ângela meio aberta.
Dentro da mochila, a cabeça do robô, desligada.
Atendidos por um garçom obeso, Benedetti faz o pedido.
Pratos executivos.
Para os três.
Mais barato e mais prático.
Ideal na circunstância em que se encontram.
Os três querem apenas descansar um pouco.
Processar o incidente da manhã, na mente.
O prato executivo de Benedetti é o padrão.
Frango grelhado.
Arroz com fritas.
Feijão carioca.
O prato executivo do dia, para Max.
Tem almôndegas de carne.
Arroz.
Batatas fritas.
Farofa.
Ângela recebe o prato executivo especial.
Vem com iscas de carne e linguiça.
Arroz parboilizado. 
Legumes refogados.
Para beber, latas de refrigerante.
É um guaraná importado.
Não é o melhor refrigerante.
Nem a melhor comida.
Mas é o melhor que puderam encontrar.
Cansados, os três comem.
E, de soslaio, ficam atentos ao redor.
Tentam, de todas as maneiras, parecerem discretos.
Depois de tudo o que passaram e descobriram, estão apreensivos.
O silêncio reina sobre os adolescentes.
Leva um tempo até que algum deles tenha coragem de expressar suas dúvidas.

— O que vai dizer para seu pai, Ângela?
— Que dormi na casa de uma amiga.
— Na casa da Rebeca?

Ângela olha raivosamente para Benedetti, que falou a gracinha.

— E você, Max?
— Não sei. Vou ligar para meus pais depois de receber uma bronca do tio Walter.
— Boa sorte.

Ângela tenta ser solidária.
Talvez não tenha adiantado muito.
Continuam a comer.

— Deveríamos avisar a Segurança Pública.

Max observa.

— E dizer o que, exatamente?

Pergunta Ângela, para o garoto.

— Bem, poderíamos denunciar um acidente ou algo assim. Não sei.
— E como o senhor descobriu essa conspiração? Quando atirou no motorista?

Pergunta Benedetti, no tom mais policial possível.
E continua a zombar do garoto.

— Sabia que, fazer a polícia perder tempo é considerado desacato?
— Mas tudo o que aconteceu...

Max nem termina de falar.
Sabe que seria perda de tempo.
Não quer dar o braço a torcer, mas Benedetti tem razão.
Desanimado, o garoto come uma almôndega.
Max fala com a boca cheia.

— Bem, então, por que não falamos com a imprensa?
— Brilhante ideia.

Comenta Ângela.
Usando um tom de voz claramente irônico.

— Ângela tem razão.

Benedetti diz.

— Não vão nos dar ouvidos.
— Por que não acreditariam? Somos cidadãos honestos e tudo mais.
— Você construiu um robô que participou de tiroteios e atropelamentos, Max.

Pontua Ângela.

— Nós temos 16 anos. Ninguém vai acreditar na nossa palavra.

Benedetti completa o pensamento iniciado pela garota.

— Mas vocês dois estavam comigo. Vão confirmar meu testemunho.

Max olha para ambos, buscando auxílio.
Sua opinião é ignorada pelos dois colegas.

— Então vocês acham que não podemos contar para ninguém?

Max pergunta.
E toma um gole de refrigerante.

— Não é isso...

Responde Ângela, ponderadamente.

— Nós podemos contar para quem quisermos.
— É fazer com que acreditem que vai ser impossível.

Ângela termina de falar e praticamente esmaga as esperanças de Max.
O garoto, para descontar, come uma garfada.
A farofa desliza pela língua rapidamente.

— Você está certa.

Max concorda.
E seu desanimo é devastador.

— Mudando de assunto...

Benedetti começa a falar enquanto corta uma linguiça.

— E a Rebeca? Que papo todo foi aquele?
— Sei lá. Devia estar com medo.

Ângela fala sem ânimo.
Max concorda pesaroso.

— Vai ver a Harmony a contratou para pegar a peça.
— Por estar próxima de você?
— Não vejo outra explicação.
— E ainda usou minha amizade!

Ângela faz um biquinho de raiva.
Benedetti acha a coisa mais ridícula do mundo.
Max, ao contrário, acha a coisa mais linda do mundo.

— Você era amiga dela e nem percebeu nada.... Bela amizade, hein!

Benedetti provoca.

— Não fale com ela desse jeito...
— Deixa Max. Ele tem razão.
— Tenho?
— Eu devia ter percebido.... Afinal, éramos amigas.

Max põe a mão no ombro da garota em solidariedade.

— Ela era mesmo, não é?

Ângela estremece com a lembrança.
Suspira bem fundo.
É uma prova de que ela está triste.
Os três, sem mais o que falar, comem.
Estão famintos, apesar de tudo.
Ou por causa de tudo.
Foi uma manhã difícil.
Quase surreal.

— O que vai fazer agora, Max?

Ângela pergunta indecisa.

— Eu não sei.... Consertar o robô, eu acho.
— Como, se você abandonou o corpo na fazenda?
— Olha.... Aquele está muito danificado. Vou improvisar um corpo novo de sucata.
— Sucata?
— É... Tem muita coisa lá na aula do Sr. Morrison.
— Verdade. Pode contar comigo no que precisar.
— Comigo também. Afinal, estamos no mesmo grupo.
— Obrigado, gente.

Max sorri artificialmente para os dois colegas.
Benedetti, num gesto bonitinho, pega a lata de refrigerante e levanta para além da cabeça.

— Então.... Que tal um brinde?
— Brinde?

Max pergunta intrigado.

— Acho que não é um bom momento para brindar.

Ângela fala o que Max pensa e não tem tempo de dizer.

— É sim. Vamos lá!
— E... Ao que iremos brindar, exatamente?
— Que tal.... Ao futuro?
— Ao futuro?
— É. Ao nosso. Passamos à perna numa empresa multinacional e saímos numa boa!

Imediatamente após a frase de Benedetti, os três torcem os olhares para a cabeça do robô.
A cabeça, inerte, faz Benedetti arranhar a garganta.

— Er... Saímos quase numa boa, quero dizer.
— Então, já que é assim... Que tal brindarmos a ele?

Ângela fala mais animada.
Benedetti responde de pronto.

— Ele?
— É. Ao robô.

O rapaz dá de ombros.
Max se alegra.
Ele e Ângela pegam suas latinhas de refrigerante.
Erguem para bem alto, sobre suas cabeças.
Benedetti, que propôs o brinde, fala.

— Vida longa ao robô!

VIDA LONGA!

Ângela e Max falam bem alto.
As latas se chocam no ar.
Guaraná escorre pelas laterais.
Dentro da mochila, a cabeça do robô.
Apagada.


V

Desafivela o cinto.
Mesmo com olhos fundos, não mostra indícios de piedade.
Levanta o braço.
Desce num ângulo de arco.
Acerta em cheio.

SNAP!
UGH!

O couro estala ao entrar em contato com a pele.
Faz o rapaz gemer como um bebê.
Benedetti está na cama, encolhido, no quarto escuro.
Seu pai, de pé na sua frente, não tem piedade.
Bate no filho como se batesse em um criminoso.

— Eu disse para ser um leão.

Apesar dos movimentos fortes, o pai de Benedetti fala de forma calma.

— Mas você foi apenas mais um... rato.
— De.... Dês.... Desculpe...

O rapaz pede desculpas em pequenas gotas.
Gotas de lágrimas que escorrem pelo rosto, copiosamente.

— Desculpas são só palavras. Vou ensiná-lo a ser um leão.... Como meu pai fez comigo.
— Pai... Eu não...

SNAP!

O som do cinto batendo na pele não sai da escuridão do quarto.
É abafado pelo som da tv ligada.
Na tela, o noticiário local relata os últimos acontecimentos da cidade.
Fala sobre o tiroteio na fazenda e a carcaça robótica recuperada pela Segurança Pública.
A existência do robô é sugerida como um projeto da CCGM que saiu do controle.
Tudo é tratado com muita vulgaridade.
Assim como o pai trata o filho.


VI

É outubro.
O relógio não para.
É um relógio redondo.
Daqueles digitais.
Jogado de lado sobre balcão de um quarto de hospital.
Os ponteiros indicam 8 horas da noite.
É onde está Rebeca.
Ela veste uma camisola para paciente com amarração nas costas por fitas.
O tecido de algodão deixa à mostra a curvatura dos seios pequeninos.
Está sentada numa minúscula cama de ferro.
Ao lado dela, numa poltrona desconfortável, Maria Clara dorme.
Passou os últimos dias ao lado da amiga, no hospital.
Maria, assim como a irmã, passou por muita coisa enquanto estava no orfanato.
Nada mais normal do que cuidar de Rebeca, por compaixão.
Rebeca come, numa tigela de plástico, uma sopa rala com pedacinhos de frango.
Usa uma colher para levar até a boca, a sopa.
Degusta o quente na língua até engolir tudo.
Cada vez que engole, faz uma careta de desgosto.
Torna a pegar da tigela.
Torna a sentir o quentinho na boca.
Ela assiste à televisão num aparelho velho, de tubo, colocado ao lado do relógio.
E, junto de Rebeca, na cama, há um controle remoto amarelado.
Na tv passa uma imagem de uma selva na Índia.
São vários tipos de bichos estranhos, que vivem nas selvas indianas.
Uns são caóticos, como os macacos.
Outros, maravilhosos, como os tigres.
Predadores arqueando-se de um lado.
Suas presas, amedrontadas, do outro.
Há um pequeno jipe de pesquisa com equipamentos de última geração.
Um poderosíssimo holofote no topo.
O profissional manipula o carro com alta precisão.
É um programa de história selvagem.
Chama-se “Criaturas Perigosas”.
O som está mudo.
Rebeca não demonstra nenhum interesse pelo programa.
Apenas assiste à tv, no automático.
Distração enquanto come a sopa hospitalar.
A mente da garota, no entanto, está pensando em outra coisa.
Na relação entre lógica e ação.
Pensa que a ação é consequência da lógica.
Também pensa o contrário.
O lógico como resultado da ação.
Na sua cabeça, essa foi à determinação para que fosse a escolhida.
Sua tutora decidiu pela lógica da ação.
Rebeca acredita que assim como ela, a tutora tem outras meninas a quem recorrer.
Agentes adormecidas espalhadas por todos os cantos.
Pessoas acima de quaisquer suspeitas e surpresas.
Escolhidas para missões de acordo com a conveniência.
Rebeca assumiu a missão apenas por estar perto do alvo.
É o que passa pela mente da menininha.
Foi útil pela ocasião, como “Criaturas Perigosas” está sendo útil agora.
Os olhos claros de Rebeca acompanham as imagens da tv.
Mas ela vira a cabeça e então olha algo longe da tela.
Um buquê de amaranto.
Descansa ao lado do relógio.
Envolto num plástico amarelo.
Preso com fita adesiva, um cartão aberto.
“Recupere-se logo”, “Belita”.
É o que está escrito no cartão.
Um cartão dela.
A sua tutora.
Talvez, ainda a ame.
Talvez, ainda tenha uma chance.
Talvez, na cabeça de Rebeca, ela ainda seja útil.
Esboça, por consequência, um tímido sorriso.
Rebeca se volta para o relógio sobre o balcão.
Os ponteiros indicam 8:33.
O ponteiro dos segundos faz sua rotação.
Desliza.
Sempre suavemente.
Sobre os números.
Assim, o mundo avança.
Incessantemente.
Lógica e ações plenamente conectadas.
Pelo menos, neste momento.
Na vida, pensa Rebeca, as coisas diferem.
A ação desaparece.
E a lógica, morre.


VII

Final de novembro.
Época das provas finais.
Os alunos bolsistas estão determinados a não ser ultrapassados nos estudos.
Eles já sofrem o suficiente como resultado da pressão constante.
A maior parte do grupo é bem estudiosa.
Aplicam-se em tempo integral aos trabalhos e provas.
Tem como meta superar os alunos mais privilegiados.
As provas são intensas e implacáveis.
E os nomes dos dez melhores colocados são divulgados.
As pessoas lutam, então, para reivindicar uma posição em meio aos mais inteligentes dos inteligentes.
Max, entretanto, não está nem preocupado em ficar na rabeira do grupo.
Só quer continuar estudando naquele colégio.
Isso é tudo o que importa para ele, nas provas finais.
Então foi tocando sua vida durante o mês, sem se preocupar muito com a prova.
Uma semana depois de fazê-la, os resultados da prova são impressos.
Divulgados para que todos possam ver.
A maioria dos alunos nas dez primeiras colocações são alunos que estudam na instituição desde o ensino fundamental.
Com uma exceção: Ângela.
Ela fica na quinta posição.  
A nota mais alta é conseguida por Benedetti, que não demonstra muito orgulho.
Max tem apenas a vigésima melhor nota de sua turma.
Rebeca não fez as provas e sequer apareceu nas aulas após o incidente.

— Um resultado um pouco questionável, não acha?

Apertado no meio da multidão de alunos, Max é surpreendido pelo Sr. Falcão.
O diretor do CCGM está ao lado dele, com as mãos nos bolsos.
É a imagem do fanfarrão com autoridade.
Max tenta responder numa forma simpática.

— Foi um final de ano complicado.
— Disso não tenho dúvidas.

As palavras saem da boca do garoto meio perdidas.
Fica com uma breve dúvida sobre o que estão conversando.
E só lembra de como seu robô está em casa, apenas com a cabeça sobrevivente.
O diretor aponta para a tela do seu smartphone.
Mostra uma reportagem sobre o incidente na fazenda e os restos do robô.
Tudo fica bem claro.

— Se quiser conversar sobre algo...
— Não, não. Está tudo certo.
— Tem certeza?
— Tenho.... Mas eu posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro que sim.
— O Sr. sabe o que aconteceu? Comigo e com o robô?
— Que espécie de Diretor eu seria se não soubesse o que acontece com meus alunos?
— Ah.... Então é verdade que eu não entrei aqui por mérito próprio?
— Ora Max, não seja tolo! Ninguém controla o processo seletivo nesta instituição além de mim.
— Continuo confuso.
— Você obteve notas exemplares na prova de admissão. Fez por merecer estar aqui. Não deixei que houvesse qualquer tipo de interferência alheia. Eu garanto.
— Se o Sr. diz, fico tranquilo.

Com um riso desconfiado, de quem não acredita, o diretor toca o ombro de Max.
É um gesto tenro e ao mesmo tempo, encorajador.
Portanto, pela primeira vez na conversa, Max olha o Sr. Falcão nos olhos.
Os olhos pretos de quem deseja passar uma lição.

— De qualquer forma, comece há pensar um pouco mais nas consequências do que faz.
— Acho que o senhor já tinha me dito algo parecido antes...
— E fui claramente ignorado.
— É... Bem.... As coisas só foram acontecendo.
— Max, é preciso muita audácia para criar algo novo, mas apenas uma pequena porção de estupidez para botar tudo a perder.
— Sim... Senhor.

O garoto coça a cabeça meio sem jeito.
Ele entende que o diretor tem razão.
Talvez deva tomar mais cuidado, dali em diante.
É o pensamento que passa pela sua cabeça por um momento.
Um momento muito breve.

— Nos vemos no próximo ano, então?

O diretor fala empolgado.
Max responde com atitude.

— Sim.

E o Sr. Falcão vira-se para ir embora com um sorriso satisfatório no rosto.
Max, só permanece parado, na muvuca dos alunos, quieto.
Terminada as provas finais do colégio, o tempo passa voando como um avião.
Para o garoto, tudo fica meio efêmero no fim do ano letivo.
Gasta boa parte do seu tempo tentando reconstruir o seu robô.
Também, Max e Ângela não se falam com tanta frequência.
A menina entra em um pequeno momento de afastamento.
Como se, dia a dia, ela se resguardasse do mundo.
Algo parecido acontece com Maria Clara.
Sem a irmã por perto, não tem mais tanta abertura com o restante do colégio.
Uma timidez sem precedentes a toma por completo.
Benedetti, embora mais agressivo do que de costume, deixa Max em paz.
Concentra-se apenas em ajudar Júlia e Fiama a promoverem a “Festa de Despedida”, tão tradicional nos fins de ano da CCGM.
Uma confraternização entre os alunos de todos os cursos.
Acontece no ginásio do colégio no início de dezembro e é memorável.
E assim os dias se foram num piscar de olhos.
Chega as férias e a hora em que Max deve ir embora de Santo Mar.
Instalações modernas compõem a arquitetura do aeroporto.
Seu teto, estruturado com vigas metálicas é destacado por led azul.
Rampas e escadas de acesso em aço inox e vidros de segurança nos corrimões.
Luzes espalhadas ao longo do caminho sinalizam os corredores.
Vidros fixados com vigas metálicas dão impressão de integração.
Partes externas e internas do aeroporto são visualmente interligadas.
Pessoas caminham pelo piso em tom claro com faixas escuras. 
Sobre estas faixas, escuras, Max dirige-se ao portão de embarque.
Sua bagagem fora despachada vários minutos antes.
Com embarque próximo, só a bagagem de mão se faz presente.
Leva apenas a mochila com que veio, estirada nos ombros.
Está cabisbaixo, com olhar taciturno.
Seus passos são lentos.
Resiste à viagem eminente.
Ao seu lado, como um verdadeiro parceiro, o robô.
Ele está com o corpo improvisado, feito às pressas nas aulas na oficina.
Não é um corpo bonito ou elegante.
Mas é um corpo eficiente.
Permite ao robô ter autossuficiência.
Assim, com passadas lentas, ele acompanha seu criador.
Mais atrás, segue tio Walter.
Com as mãos no bolso, Walter não demonstra nem tristeza e nem alegria.
O rosto é impassível, quase força uma empatia inexistente.
Os três, juntos, esperam o momento de embarcar.
São momentos que passam devagar.
Sentados, nas cadeiras frias do saguão.
Até que, de supetão, um grito chega até eles.

— MAX!

Uma garota de cabelos escuros corre ofegante driblando as pessoas no aeroporto.

— Ângela?

Ângela, esbaforida chega até o garoto.
Ela veio ali, sem ser convidada, despedir-se do amigo.
Convenceu o pai, a duras penas, a levá-la até ali.
Aceitou a contragosto e levou-a com o carro novo, ganho do acordo com Walter.

— Eu não podia.... Deixar você ir... Sem..... Seu presente.

Ela toma fôlego enquanto fala cada sílaba.
Engole em seco e apoia-se nos joelhos.
Max levanta da cadeira, a toca nos ombros.
Tenta ampará-la.

— Presente? Que presente?

Max está confuso.
Não entende o que se passa.
Nem esperava que a garota fosse até ali.

— Esse.

Então, Ângela fica na ponta dos pés.
Inclina-se para frente.
Fecha os olhos de Max com seus dedos.
E beija-o.
De leve.
Uma vez, apenas.
Sobre os lábios.
Empurrando a boca contra a dele.
Macio.
O beijo.
Parece, para o garoto, levar vários minutos.
Na verdade, deve ter durado no máximo cinco segundos.
Então, Ângela se afasta.
Quando Max abre os olhos, a garota sorri.
O tipo de sorriso delicioso que só ela consegue dar.
As mãozinhas magras e pequenas, escondidas atrás das costas.
O garoto, sem saber o que fazer após seu primeiro beijo, fica envergonhado.

— Você parece um pimentão, Max.

O comentário de Ângela deixa o garoto ainda mais constrangido.
E o sentimento só aumenta quando percebe o robô batendo palmas metálicas.
Tio Walter olha para os lados, fingindo não os conhecer.
Mesmo assim, não resiste em emitir um risinho zombeteiro para Max.
Eles estão a alguns passos de distância.
O garoto e a garota.
É óbvio que eles querem estar mais pertos.
Mais Max do que Ângela.
Entretanto, algo os impede.
Uma força invisível e avassaladora.
A vergonha típica da adolescência é forte em ambos.
Longos minutos se passam num silêncio constrangedor, entre os dois.
No autofalante do aeroporto, uma voz feminina anuncia o próximo voo.
O voo de Max.

— A gente se vê ano que vem?
— É. Claro. Eu vou.... Voltar.
— Mantenha contato até lá.

Ela olha para os próprios pés.
Ele coça a cabeça.
Fala.

— Tchau.
— Tchau.

Max dá um aceno de mão para Ângela.
Ângela responde da mesma forma.
Estão próximos.
Ao mesmo tempo, estão distantes.
E, em instantes, ficarão ainda mais longe.

— Tchau robô.

A garota dá um abraço desajeitado no robô.

— Tchau. Ângela legal.

O robô retribui delicadamente.
Ângela ri gostoso.
Max aperta a mão do tio.

— Obrigado por tudo, tio Walter.
— Não precisa agradecer Max. Você é família.
— Eu sei.
— Estarei esperando você ano que vem.
— Obrigado, tio.

Após o cumprimento, Max e o robô vão para a fila de embarque.
Ângela e o tio Walter ficam para trás.
Apenas veem um garoto e sua máquina irem embora.
Rumam rápido para o céu.
Para pousar na terra.

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